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[Archport] mutações da paisagem do Couto Mineiro do Pejão

Subject :   [Archport] mutações da paisagem do Couto Mineiro do Pejão
From :   António Correia <avantecomuna@iol.pt>
Date :   Tue, 21 Feb 2017 23:26:53 +0000

“Minas do Pejão” é a expressão “diminutiva” do conjunto de minas do Couto Mineiro do Pejão, uma vez que a história do início de exploração deu-se precisamente neste lugar – Pejão – mais propriamente no Monte das Cavadinhas. Esta indicação é-nos dada pela portaria de 22 de Dezembro de 1859, em que são reconhecidos como descobridores legais Augusto Soares de Azevedo Pinho Leal e Francisco Saraiva Couraça, a quem foram mais tarde concedidos o direito de concessão para lavra, estando a área demarcada nesta mesma portaria4. Observando a (…) denota-se que anteriormente a esta data, alguns trabalhos de prospeção já tinham sido realizados e inclusive tinham sido registadas algumas minas existentes nesta zona carbonífera, sendo que, a Mina da Póvoa, ainda que não tenha sido registada, foi descoberta por uma figura bem posicionada na indústria carvoeira, o Conde de Farrobo, que era empresário das duas principais minas de carvão em Portugal até então – Mina do Cabo Mondego e Mina de S. Pedro da Cova - bem como, detinha algumas fábricas em Portugal que necessitavam deste recurso mineral para o seu funcionamento. Apesar da sua posição, não reconheceu potencial na exploração desta área.

 

Contudo, o filão carbonífero do Pejão veio a suscitar cada vez maior interesse, sendo que os anos entre 1860 - – 1918 pautaram-se pela descoberta de novas minas, pela demarcação e exploração de novas concessões (sempre a pequena escala) e pela variação de concessionários. A elevada capacidade de investimento que era necessária, aliado à falta de aposta na evolução das técnicas de lavra utilizadas, a falta de recursos humanos e infraestruturas que permitissem o escoamento, são alguns dos exemplos que contribuíram para este percurso instável. Para além disto, havia uma grande importação de carvão inglês que, em termos de qualidade era bastante superior, quer em relação ao carvão do Pejão, quer aos nacionais, assim como o seu custo de aquisição era inferior ao custo de produção nacional. Reforçando a noção de que o carvão extraído nas Minas do Pejão continha elevado teor de cinzas, não sendo por isso considerado de 1ª qualidade, houve a necessidade de recorrer a outras técnicas para aumentar o seu poder calorífero e tornar viável esta exploração, através do fabrico de briquetes5. Assim, apostaram no desenvolvimento de uma Fábrica de Briquetes cujas instalações mudaram de localização ao longo dos anos: a 1ª localizava-se em Germunde (1884), mais tarde foi transferida para a Afurada (1889), seguidamente para o Freixo (1940). A região do Porto era o principal ponto de venda do carvão e dos briquetes do Pejão, que se tornaram famosos pela sua utilização no âmbito doméstico, nos transportes e ainda abasteciam algumas fábricas de cimento.

 

Porém, as dificuldades nas Minas do Pejão persistiam face à fraca aposta e inaptidão para o aproveitamento dos recursos minerais generalizada em Portugal. A seguinte citação retirada da dissertação de Idorindo Rocha, ainda que se refira a outra mina de carvão que não a abordada nesta investigação, reflete bem o panorama nacional da indústria mineira, que não era diferente das dificuldades sentidas nas Minas do Pejão: “as condições da nossa exploração mineira são de tal ordem, o transporte do minério é tão difícil que uma tonelada de carvão paga menos vindo de Cardif ao Porto, do que vindo de S. Pedro da Cova ao Porto”6. Assim, não havia escoamento dos carvões portugueses, a importação do carvão inglês estava em contínuo crescimento e os trabalhos nas Minas do Pejão estavam praticamente estagnados.

 

Foi apenas num contexto de crise energética, traduzida pela falta de abastecimento provocada pela Primeira Guerra Mundial, que houve espaço para a afirmação dos carvões nacionais, provocando a exploração de forma mais intensiva nas Minas do Pejão. Por esta altura, em 1920, a Empresa Carbonífera da Douro, Lda (concessionária de todas as minas pertencentes ao Pejão àquela data), decidiu agrupar todas as concessões e pediu a demarcação de uma área que englobasse as mesmas, denominada então por Couto Mineiro do Pejão

 

No entanto, após a guerra mundial, rapidamente a importação do carvão voltou a afirmar-se, originando uma nova estagnação dos trabalhos no Couto Mineiro do Pejão, sendo que, em 1930, as infraestruturas e todo o equipamento investido nesta atividade pela ECD, Lda encontrava-se em estado de degradação e o território mineiro praticamente abandonado.

 

Apenas em 1936, com a aquisição da empresa ECD, Lda pelo empresário belga Jean Tyssen, aliado ao facto de, apenas três anos mais tarde, em 1939, ter começado a Segunda Guerra Mundial, é que se proporcionou o início do período áureo de exploração dos carvões do Pejão. Uma série de medidas emergem, derivado ao conhecimento e experiência adquirida em minas de carvão europeias por Jean Tyssen, juntamente com a necessidade de aproveitamento deste recurso mineral em Portugal: modernizaram-se as instalações, implementaram-se novos planos de lavra, organizou-se a produção e a indústria aumentando a produção exponencialmente, introduziram-se novas formas de melhoramento da qualidade do carvão e o seu aproveitamento, mobilizaram-se recursos humanos criando condições para os trabalhadores não só ao nível laboral, como a nível pessoal, social, econômico, etc. Deu – se assim uma profunda transformação do território do Couto Mineiro do Pejão, sendo que esta investigação se debruçará essencialmente a partir deste período áureo para a análise e interpretação das mutações da amostra.

 

Apesar da atividade mineira no Pejão ter singrado, o uso do carvão mineral era cada vez menor, dado o aparecimento de novos combustíveis (em meados do séc. XX), como o petróleo e o gás natural, que baniram a utilização do carvão em várias indústrias e mesmo nos transportes. A carteira de clientes da ECD, Lda tornou-se cada vez mais reduzida. Apostava-se a nível nacional na produção de energia elétrica e foi assim, em 1955, que foi construída uma central termoelétrica nas imediações do Couto Mineiro do Pejão – Central Termoelétrica Tapada do Outeiro – que foi o motor e o suporte de toda a atividade das Minas do Pejão nos anos seguintes.

 

Em 1974, com a mudança de regime político em Portugal, o Estado decide ser o gestor direto do seu património mineiro e adquire a Empresa Carbonífera do Douro, que passou a ser administrada pelo Instituto de Participações do Estado (IPE-EP), em 1978. A partir desta década as ameaças de encerramento das Minas do Pejão foram constantes, quer pela elevada despesa que a exploração criava ao Estado, quer pela existência de produtos mais rentáveis, quer pela falta de estruturas no subsolo que permitissem a continuação da lavra.Apesar do elevado investimento realizado em 1985, com a construção de um novo poço, conhecido por PGII (ícone das Minas do Pejão), em que assinalava uma nova era na indústria extrativa ao permitir a exploração em maior profundidade (cerca de 600 m), as Minas do Pejão vieram a fechar 9 anos mais tarde, em 1994. Este acontecimento encerrou o “ciclo do carvão” em Portugal, deixando vários trabalhadores no desemprego e um conjunto de estruturas e espaços que suportavam esta atividade ao abandono. Contudo, é necessário compreender esta ocorrência tendo em conta não apenas o quadro nacional, mas também a conjuntura mundial, em que muitas minas de carvão europeias se encontravam a encerrar por estas décadas.

 

O carvão que ainda reside no subsolo do Couto Mineiro do Pejão encontra-se em reserva nacional. No ano seguinte, em 1995, houve lugar a planos de recuperação paisagística e a planos de demolição de equipamentos e instalações mineiras que pudessem causar impactos ambientais na paisagem, salvaguardando o património mineiro.

Saúde e fraternidade,
António Correia
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