Os diferentes estudos realizados até ao momento sobre o convento de Vilar de Frades têm permitido demonstrar a complexidade inerente à sua análise, não só por se tratar de uma construção que foi sendo sucessivamente alterada desde a sua origem, mas também pela escassez e carácter fragmentário das fontes disponíveis para o seu estudo.
Na realidade, do referido convento, datado de meados do século XI, é atualmente possível identificar um complexo que seria composto por diferentes edifícios e espaços, onde se incluem a igreja e dois claustros, sucessivamente alterados aos longos dos séculos.
Entre os principais estudos realizados acerca deste convento destacam-se os estilísticos, que associam os elementos arquitetónicos e escultórios a diferentes fases e estilos artísticos, centrados maioritariamente na igreja e de forma muito residual nos restantes edifícios. Entre estes estudos desacataríamos, a primeira iniciativa que é elaborada pelo cónego Aguiar Barreiros ainda em 1919, as obras de síntese produzidas pelos historiadores da arte, na década de 80 do século XX, bem como os trabalhos académicos produzidos a partir da última década do século XX. Entre estes últimos salientam-se a abordagem ao processo construtivo do convento de vilar de frades, na perspetiva da história da arte (Vinhas, 1998), assim como estudos parcelares, que incidem maioritariamente sobre a igreja do convento de Vilar de Frades.
Esta igreja, normalmente identificada como um dos exemplares mais expressivos da arquitetura manuelina no norte de Portugal, conheceu um processo bastante mais complexo, desde a sua fase românica até à fase neoclássica, quando são extintas as ordens religiosas. Na realidade, a igreja do convento de Vilar de Frades conhece todo um percurso construtivo que abrange uma escala cronológica, pelo menos, desde o século XII até ao século XIX, que só muito recentemente começou a ser explorada de forma diacrónica (Vinhas, 1998).
Todavia, a generalidade dos estudos tendem a centrar-se num período específico, destacando a igreja do restante conjunto edificado, numa abordagem que a associa invariavelmente ao período manuelino. De facto, nos inícios do século XVI, a igreja do convento de Vilar de Frades conheceu uma intervenção de fundo que implicou a sua reconstrução integral. Todavia, apesar da coerência da linguagem arquitetónica do conjunto, a investigação tem demonstrado que alguns dos componentes são já de uma fase posterior, como é o caso da abobada do corpo da igreja. De facto, apesar de este elemento manter uma coerência artística com os manuelinos, nomeadamente com a capela-mor e o transepto, a abobada do corpo da igreja encontra-se documentalmente datada como tendo sido construída no século XVII (Vinhas, 1998).
De igual modo, a atribuição ao estilo manuelino da abobada do corpo da igreja tem originado dificuldades ao nível da interpretação do conjunto, que se estendem aos restantes elementos do corpo, assim como à questão da planimetria e esquema pensados para o corpo da igreja no século XVII. Na realidade, os estudos têm apontado para o facto do corpo da igreja do século XVII traduzir o esquema pensado no século XVI e, deste modo, a sua atribuição ao estilo manuelino (Dias, 1988; Ramos, 1990; Vinhas, 1998).
Deste modo, algumas interpretações realizadas têm tido como referência o caracter artístico desta abobada e, por conseguinte, condicionado a restante interpretação do corpo da igreja, por vezes, preterindo o contexto histórico-cultural da sua execução. Importa, deste modo, valorizar todas as questões relacionadas com a construção da abobada do corpo da igreja e não apenas o seu caracter artístico.
De facto, para a compreensão do processo construtivo da igreja do convento de Vilar de Frades, torna-se necessário perceber a forma como foi executada a igreja no século XVI, bem como alterações ocorridas no século XVII. De igual modo, importa analisar os diferentes aspetos relacionados com a história da sua construção, desde o projeto e execução da obra, até aos acabamentos e decoração.
Neste sentido, este trabalho pretende, por um lado, salientar a importância de uma abordagem metodológica centrada no estudo do edificado atual, e nas valências de uma perspetiva multidisciplinar, privilegiando o cruzamento de diferentes tipos de fontes. Por outro, destacar a importância de uma análise que valorize o contexto histórico-cultural inerente à construção da igreja, entre os séculos XVI e XVII.
Deste modo, pretende-se demonstrar as possibilidades e as valências analíticas relativas aos elementos construídos em elevação, por via da análise arqueológica (Pereira, 2016). No âmbito interpretativo, torna-se igualmente relevante uma caracterização ao nível das técnicas presentes na fase construtiva do século XVII da igreja de Vilar de Frades, bem como lançar hipóteses quanto ao conjunto de efeitos produzidos especificamente pela construção da abobada da nave, contrapondo as suas diferenças arquitetónicas com as do século XVI. Na realidade, o projeto quinhentista levanta igualmente dificuldades interpretativas.
Acessível para download: http://hdl.handle.net/1822/44830
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