Ontem desceu à terra um homem. Outros haverão de ter descido, mas eu não estava lá, não os conhecia. Este Homem chama-se Carlos Goes e ficou ali, perto da entrada, no cemitério de Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, a caminho de S. Cucufate.
Foi Presidente de Câmara Municipal durante 20 anos (1981-2001) e as terras de pão e as gentes de paz que ele homenageou nas placas que durante o seu mandato inauguram as entradas das povoações do município conheceram pela sua mão, finalmente, a felicidade do desenvolvimento.
Era um Homem muito alto e forte; andava com passos firmes e falava com ideias decididas. E trabalhava. Trabalhava muito. Desde cedo, todos os dias, estava onde se reuniam todos os trabalhadores antes de partirem para as suas tarefas. E quantas vezes partia com eles para lançar mãos à obra. Sabia fazer tudo e tudo fazia; era apenas uma questão de haver necessidade.
Ele, que se deslocava no seu próprio carro, um R.12, não dava tréguas aos que pretendessem aproveitar-se com a construção dos meios e das condições de vida digna das suas gentes de paz. Falava-lhe alto e expulsava-os.
No momento em que as suas prioridades eram gerar condições para a sua população, criou na Câmara de Vidigueira o lugar de Arqueólogo Municipal. Quando ninguém falava em património e na cultura como motores de desenvolvimento ele imaginou o que hoje se teoriza em textos aos milhares. E foi nessa condição que aos 23 anos, quando todo o sangue da contestação e a energia do trabalho moldavam as minhas atitudes, que tomei o lugar do primeiro arqueólogo municipal de Portugal.
Soube, desde o primeiro dia, que a minha vida mudaria para sempre. “Amanhã, às 7 horas, nos casões da Câmara”. Foi assim, a primeira explicação sobre o trabalho. As 7 horas nos casões, eram o ponto de reunião de todos os empregados da Câmara que não trabalhavam no edifício. Eu ia para S. Cucufate; Portanto, às 7 horas iria encontrar os que comigo iriam para a escavação.
Sabem os que me conhecem, a não mensurável gratidão que tenho para com o Senhor Presidente; pelo que me fez aprender e crescer nas múltiplas às 7 horas nos casões.
Eram lições escritas pela prática do trabalho honesto e partilhado com um único objectivo: serviço público inclusivo. O Senhor Presidente estava lá todos os dias. Incluindo naqueles em que os autocarros partiam para os passeios ao fim de semana. Porque era necessário acautelar que nesses dias de cor de lágrimas nos olhos, por ser primeira vez que alguns iam ver o mar, nada faltava. Acompanhado por muitos, ontem ficou em Vila de Frades. Ficou como sempre foi: Forte na decisão, silencioso na promoção.
S. Cucufate está a dois passos a caminhar . Guardião de muitos passados, o casarão é devedor da sua existência actual à visão e trabalho de Carlos Goes. O Senhor Presidente.
E o poder Municipal, o do povo, ficou muito mais pobre.
Maria da conceição Lopes
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