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[Archport] A Lusa e três textos sobre o afundamento do "Roberto Ivens"

To :   archport <archport@ci.uc.pt>
Subject :   [Archport] A Lusa e três textos sobre o afundamento do "Roberto Ivens"
From :   Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Date :   Tue, 25 Jul 2017 23:50:41 +0100

Neta do comandante do Roberto Ivens diz que Portugal lida mal com tragédias

Lisboa, 25 jul (Lusa) – A neta do comandante do navio caça-minas
Roberto Ivens, afundado por uma mina alemã à entrada da barra do Tejo,
durante a Grande Guerra, disse à Lusa que Portugal  “ainda lida mal”
com momentos difíceis.

“Portugal está como estava há cem anos e não lida bem com estas coisas
estranhas do ‘inimigo às portas’, como aconteceu com o submarino que
pôs bombas à porta de Lisboa. O que quiseram fazer foi não criar
pânico. Não deixar saber-se …”, disse Maria Fernanda Gargaté Cascais,
neta mais velha do primeiro-tenente Raul Cascais, que comandava o
caça-minas que naufragou ao colidir com uma mina alemã.

Na quarta-feira assinalam-se os cem anos do afundamento do navio
caça-minas Roberto Ivens que explodiu ao embater numa mina colocada
por um submarino alemão à entrada de Lisboa, tendo morrido 15 dos 22
tripulantes que se encontravam a bordo.

“A minha mãe tinha seis anos quando o meu avô morreu. O meu avô era
muito novo, tinha 36 anos. O corpo nunca foi encontrado e quando
faleceu deixou seis filhos: o mais velho teria oito anos e a mais nova
tinha poucos meses”, conta a neta mais velha do comandante Raul
Cascais.

“A minha mãe lembrava-se do pai e fazia muita questão de dizer o que
lhe tinha acontecido. Tinha a farda do meu avô que sempre nos mostrou.
Fui criada com a fotografia do meu avô e que esteve sempre presente na
sala dos meus pais e com os meus tios sempre a falarem do Roberto
Ivens”, recorda Maria Fernanda Cascais.

A localização exata dos destroços do caça- minas ocorreu apenas em
2015 tendo o Instituto Hidrográfico da Marinha colaborado com os
trabalhos de investigação do arqueólogo Alexandre Monteiro, do
Instituto de Arqueologia e Paleociências e do investigador Paulo
Costa, do Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de
Lisboa.

Uma das fontes decisivas para detetar o Roberto Ivens foi a descoberta
e a análise do diário de guerra do submarino alemão UC54 que lançou as
várias minas a apenas quatro milhas náuticas a sul do forte do Bugio,
na foz do rio Tejo.

A versão oficial, logo após a explosão, indicava que o campo de minas
alemão estava mais afastado, a cerca de 12 milhas náuticas ao largo de
Cascais.

O diário de bordo do Bérrio, o outro navio que participa na mesma
operação de desminagem e que recolheu os sete sobreviventes do Roberto
Ivens na tarde de 19 de julho de 1917, desapareceu apesar do relato de
um dos tripulantes.

“Eu tinha uma carta de um dos marinheiros (o então grumete Tiago Gil)
e que pedia uma homenagem aos mortos. Ele bateu-se a vida toda, para
se fazer isto que se fez agora”, conta Maria Teresa Cascais,
referindo-se ao funeral militar organizado pela Marinha no passado dia
19 de julho.

Um século após o afundamento, realizou-se o funeral militar, a bordo
da fragata Bartolomeu Dias, no local da explosão, com deposição de
flores, pelo primeiro-ministro, e os disparos de três tiros de salva
em memória das vítimas, efetuados a partir da corveta João Roby e na
presença dos descendentes das vítimas.

“Nunca pensei assistir ao funeral do meu avô e dos outros marinheiros.
Estou muito grata para com a Marinha e para com os investigadores. A
minha avó morreu há dez anos. Teria sido uma grande emoção para ela,
como foi para nós”, disse referindo-se ao funeral militar que
considera inédito.

“O país ainda não está muito preparado para fazer estas homenagens e
há tanta gente que morre ingloriamente”, afirma frisando o
“sofrimento” das famílias das vítimas.

“Eu sei o que a minha avó passou e não sei se os portugueses não
continuam a passar pelo mesmo. Muito morrem a defender a população,
sejam eles bombeiros, polícias, médicos ou militares. Sabemos que as
dificuldades que os familiares enfrentam são muito grandes e nisso
ainda estamos aquém do que devíamos estar. É o que temos”, conclui.

PSP // SB

Lusa/fim

http://www.dn.pt/lusa/interior/neta-do-comandante-do-roberto-ivens-diz-que-portugal-lida-mal-com-tragedias-8661220.html





Investigador prepara tese de mestrado sobre naufrágio do Roberto Ivens


Lisboa, 25 de julho (Lusa) – O investigador Paulo Costa, que
participou na localização do navio caça-minas Roberto Ivens prepara
uma tese de mestrado sobre o naufrágio provocado por uma mina alemã na
barra do Tejo, em 1917, e em plena crise política e social.

 “A minha tese de mestrado conclui que o caça-minas Roberto Ivens não
está onde se pensava e é contextualizada no ambiente que se vivia em
julho de 1917, um mês complicadíssimo para o governo de Afonso Costa,
em Lisboa” explica o historiador, um dos responsáveis pela localização
exata dos destroços do navio da Marinha Portuguesa durante a Grande
Guerra.

Na quarta-feira, assinalam-se os cem anos do afundamento do navio caça
minas Roberto Ivens (antigo arrastão Lordelo), que naufraga ao colidir
com uma mina lançada por um submarino alemão à entrada de Lisboa,
tendo morrido 15 dos 22 tripulantes, incluindo o comandante, o
primeiro-tenente Raul Cascais.

O historiador recorda que no mês de julho de 1917 decorrem sessões
secretas no Parlamento, “porque havia muitas complicações na gestão de
Portugal” e com a oposição a pedir também satisfações ao governo sobre
o Corpo Expedicionário Português em França.

No mesmo mês verificam-se “revoltas em Lisboa e há fome”.

Na Câmara dos Deputados há sessões à porta fechada em que participa
como membro do Partido Democrático (mo Governo) o comandante Leote do
Rego, da Divisão da Marinha, ocorrendo uma “guerra de tinteiros” e
insultos entre os deputados.

No dia 25 de julho de 1917 a oposição abandona o Câmara criticando a
falta de diálogo do governo e no dia 26 de julho o caça minas Roberto
Ivens afunda-se às portas de Lisboa.

“Foi a pior altura possível. Os jornais da época dizem-nos que Leote
do Rego foi imediatamente à Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara,
receber os sobreviventes. No mesmo dia sai uma nota da Marinha que diz
que o afundamento ocorreu ‘a 12 milhas ao sul de Cascais, um pouco ao
norte do Cabo Espichel’”, sublinha Paulo Costa.

Na tarde do dia 26 de julho, o Roberto Ivens estava a navegar com o
rebocador Bérrio, porque nas operações de desminagem participavam
sempre dois navios, mas o diário de bordo não existe.

“Do Bérrio, existem os diários anteriores e os posteriores, mas o
diário do dia da explosão da mina alemã não existe. Nunca entrou no
arquivo histórico”, sublinha o autor do estudo.

“Eu penso que era muito complicado assumir-se perante o público e a
oposição que submarinos alemães tinham entrado no Tejo, até ao Bugio.
A informação foi ocultada e se lermos os diários de guerra dos
submarinos alemães ficamos a saber que o inimigo navega à superfície e
à vista de terra”, diz Paulo Costa acrescentando que o “assunto
Roberto Ivens” acaba por cair no esquecimento com o passar do tempo.

A localização exata dos destroços do caça-minas ocorreu apenas em 2015
tendo o Instituto Hidrográfico da Marinha colaborado com os trabalhos
de investigação do arqueólogo Alexandre Monteiro, do Instituto de
Arqueologia e Paleociências e do investigador Paulo Costa, do
Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.

Uma das fontes para detetar o Roberto Ivens foi a descoberta e a
análise do diário de guerra do submarino alemão UC54 que lançou as
várias minas a apenas quatro milhas náuticas a sul do forte do Bugio,
na foz do rio Tejo.

“Eu penso que dificilmente haverá outro episódio que possa ter tantos
aspetos diferentes: História da Grande Guerra (1914-1918); História da
Primeira República (1910-1926); destroços; património cultural
subaquático; arqueologia subaquática; investigação em arquivo;
memória, tradição oral da comunidade piscatória. Tudo no mesmo tema.
Não sei se nos voltamos a cruzar com uma história desta dimensão”,
refere o historiador que defende igualmente o estudo da memória dos
factos junto dos descendentes.

“Há muito trabalho a fazer a esse nível: um sobrinho de um dos
sargentos com quem já falei várias vezes conta que o tio morreu uma
semana antes do casamento. Foi esta a memória que ficou na família: a
noiva que ficou viúva antes de se casar. Espero desenvolver os aspetos
relacionados com as memórias das famílias”, diz Paulo Costa
acrescentando que os investigadores foram convidados pela Marinha a
publicar uma monografia sobre o Roberto Ivens, em 2018.

No passado dia 19 de julho realizou-se o funeral militar, a bordo da
fragata Bartolomeu Dias, no local da explosão, com deposição de
flores, pelo primeiro-ministro, e os disparos de três tiros de salva
em memória das vítimas, efetuados a partir da corveta João Roby e na
presença dos descendentes das vítimas.


PSP // SB

Lusa/fim


http://www.dn.pt/lusa/interior/investigador-prepara-tese-de-mestrado-sobre-naufragio-do-roberto-ivens-8661225.html



Roberto Ivens: 100 anos do naufrágio do caça-minas à entrada de Lisboa

Lisboa, 25 jul (Lusa) – A partir de quarta-feira os destroços do navio
Roberto Ivens, naufragado em 1917 à entrada de Lisboa ao chocar com
uma mina alemã, ficam protegidos pela convenção da UNESCO sobre
património subaquático, disse à Lusa o arqueólogo Alexandre Monteiro.

“O interesse deste naufrágio que vai fazer 100 anos na quarta-feira
tem um interesse simbólico e legal. A partir do dia 26 de julho fica
sob a proteção da Convenção da UNESCO sobre Património Cultural
Subaquático. Portugal subscreveu a convenção para proteger todos os
naufrágios, tenham ou não tesouros a bordo, porque pretende
privilegiar o naufrágio como um testemunho”, disse à Lusa Alexandre
Monteiro, um dos investigadores que localizou o navio caça-minas à
entrada do Tejo, em 2015.

O caça-minas Roberto Ivens naufragou ao embater, “pelas 15:15” de 26
de julho de 1917, numa mina lançada por um submarino alemão a quatro
milhas náuticas a sul do forte do Bugio, "à entrada" de Lisboa.

“Há naufrágios que são praticamente anónimos, com história
desconhecida, mas neste caso, temos o caso inverso do que é costume em
Portugal, onde os naufrágios são encontrados de uma forma inopinada ou
em contexto de obra. Neste caso, partimos de investigação em arquivo e
fomos à procura do destroço”, disse o arqueólogo.

A localização do navio foi durante muitas décadas assunto de debate
entre investigadores, marinheiros e pescadores, apesar da versão
oficial que situava o local do naufrágio a 12 milhas náuticas ao largo
de Cascais.

“Chegou a pensar-se que o destroço era de uma traineira (Maria
Eduarda), de madeira, que naufragou nos anos 1950 e que na verdade
está perto, mas foi só quando nós nos apercebemos de que o que ali
estava era um navio de ferro com um motor a vapor é que começamos a
duvidar”, recorda Alexandre Monteiro acrescentando que a existência de
minas inimigas às portas da capital foram um "assunto sensível" para o
poder político.

“Há um logro que o governo de então fez passar para a opinião pública
para encobrir a falta de preparação para enfrentar a nova ameaça dos
submarinos e das minas”, admite o arqueólogo que participou na
investigação.

A posição exata dos destroços do caça-minas ocorreu em 2015 tendo o
Instituto Hidrográfico da Marinha colaborado com os trabalhos de
investigação do arqueólogo Alexandre Monteiro, do Instituto de
Arqueologia e Paleociências e do investigador Paulo Costa, do
Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.

Uma das fontes decisivas para detetar o Roberto Ivens foi a descoberta
e a análise do diário de guerra do submarino alemão UC54 que lançou as
várias minas a apenas quatro milhas náuticas a sul do forte do Bugio,
na foz do rio Tejo.

“Este naufrágio atirou o navio para o fundo. Parte da popa foi
volatizada na explosão e, por isso, é que só temos a casa das
máquinas, incluindo a câmara dos oficiais que está no local, além de
vários destroços espalhados à volta”, relata Alexandre Monteiro que
conhece os destroços do caça minas, atualmente uma sepultura de guerra
da Marinha.

“As sepulturas de guerra têm um estatuto especial. Não é por estar no
fundo que o Roberto Ivens não deixa de ser uma unidade da Marinha de
Guerra Portuguesa”, frisa o arqueólogo,

No passado dia 19 de julho o funeral militar dos tripulantes do
Roberto Ivens tombados num ato de guerra - morreram 15 dos 22
tripulantes - realizou-se a bordo da fragata Bartolomeu Dias, na
presença de descendentes, com deposição de flores no local do
afundamento e disparos de tiros de salva efetuados pela corveta João
Roby.

“Foi importante do ponto de vista simbólico porque foi o último grande
conflito internacional em que Portugal participou de forma ativa e
numa altura em que se assinala o centenário da entrada de Portugal na
Grande Guerra (1914-1918)”, frisa Alexandre Monteiro.

O Augusto Castilho foi o outro navio da Marinha portuguesa afundado
durante I Guerra Mundial, após um combate com um submarino alemão ao
largo dos Açores, em 1918, tendo morrido o comandante, o
primeiro-tenente Carvalho Araújo e cinco membros da guarnição.

PSP // SB

Lusa/fim

http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/roberto-ivens-100-anos-do-naufragio-do-caca-minas-a-entrada-de-lisboa


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