[Archport] Notícia: "Como o genoma de 14 esqueletos portugueses antigos conta a história das invasões na Idade do Bronze"
Como o genoma de 14 esqueletos portugueses antigos conta a história
das invasões na Idade do Bronze
Através da sequenciação dos primeiros genomas completos de amostras
pré-históricas portuguesas, uma equipa repleta de cientistas
portugueses fez a reconstituição histórica das misturas populacionais
na Península Ibérica há cerca de 4000 anos, na transição para a Idade
do Bronze.
Teresa FirminoTeresa Firmino
27 de Julho de 2017, 22:50
Há cerca de 7500 anos, os primeiros agricultores estavam a chegar à
Península Ibérica, vindos da Anatólia – e estes, por sua vez, tinham
vindo do Crescente Fértil, onde a agricultura foi inventada há cerca
de dez mil anos. Esses primeiros agricultores ibéricos foram-se
misturando com os caçadores-recolectores que já cá viviam. Depois, há
cerca de 4500 anos, chegavam à Europa do Norte e do centro cavaleiros
nómadas vindos das estepes da Europa de Leste e da Ásia, onde se
dedicavam à pastorícia. A questão era: será que os cavaleiros-pastores
das estepes euro-asiáticas também vieram para a Península Ibérica e se
reproduziram com as populações que aí se encontravam – por exemplo,
com os primeiros agricultores, que se pensa terem vindo por mar,
viajando junto à costa?
PUB
Tenham viajado de barco ou a cavalo, tenham sido
caçadores-recolectores, agricultores ou pastores, a história
populacional da Península Ibérica e das suas migrações pode ser
desvendada com a ajuda da genética. Foi isso que aconteceu agora com o
trabalho do geneticista português Rui Martiniano desenvolvido durante
o seu doutoramento no Trinity College de Dublin (Irlanda) e que
actualmente trabalha no Instituto Sanger, em Cambridge (Reino Unido).
O resultado é a reconstituição da história genética da Península
Ibérica na transição para a Idade do Bronze, num artigo científico
publicado esta quinta-feira na revista PLOS Genetics em que Rui
Martiniano, de 31 anos, é o primeiro autor e inclui arqueólogos e
antropólogos de várias universidades portuguesas (de Coimbra, Lisboa e
Algarve), bem como de duas empresas, a Palimpsesto – Estudo e
Preservação do Património Cultural e a ERA Arqueologia.
Esta viagem ao passado populacional do território onde fica agora
Portugal foi possível porque, antes de mais, foi sequenciado o genoma
de 14 esqueletos antigos. Estes esqueletos, de oito sítios
arqueológicos (da região de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo e
Algarve), datam desde o Neolítico Médio (4200-3500 a.C.) até à Idade
do Bronze Média (1740-1430 a.C.). Dito de outra forma, têm desde 6200
até 3430 anos. Para fazer comparações, a equipa usou ainda dados
publicados sobre genomas antigos de humanos da Eurásia (incluindo
amostras de Espanha), com idades que iam desde os 27 mil até aos 2000
anos. E, ainda, dados públicos do genoma de quase duas mil pessoas
actuais de todo o mundo.
PÚBLICO -
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O ADN dos 14 esqueletos foi descodificado no Trinity College de
Dublin: “Das 14 amostras sequenciadas, foi possível obter genomas
completos de sete amostras. Isto significa que sete amostras tiveram
cerca de 100% do seu genoma sequenciado pelo menos uma vez”, conta ao
PÚBLICO Rui Martiniano. “Apresentamos pela primeira vez genomas
completos de amostras pré-históricas ‘portuguesas’”, frisa o
investigador, dizendo que os restos mais antigos sequenciados têm à
volta de seis mil anos. “Esta investigação, além de revelar os
primeiros genomas completos da pré-história portuguesa, reflecte o
potencial de abordagens interdisciplinares na reconstrução da história
genética das migrações humanas, ao envolver investigadores de várias
áreas: geneticistas, antropólogos e arqueólogos”, diz a bioantropóloga
Ana Maria Silva, da Universidade de Coimbra e também da equipa, citada
num comunicado sobre o trabalho.
Migrações a cavalo
Genética: Os primeiros agricultores chegaram à Península Ibérica pelo mar
Viajemos agora até ao final do Neolítico e o início da Idade do
Bronze, que na Península Ibérica foi há cerca de 4000 anos. Nessa
altura, a Europa do Norte e do centro já estava a receber uma migração
maciça de pessoas das regiões das estepes da Europa de Leste e da
Ásia. Por essa altura também, já estava a ser domesticado o cavalo na
Ásia Oriental e nos territórios que hoje fazem parte do Sul da Rússia
(pensa-se que o antepassado selvagem do cavalo doméstico foi o tarpã,
já extinto).
“Quando os cavalos foram domesticados no final do período Neolítico,
provavelmente eram criados como animais que forneciam alimento, uma
vez que foram encontrados em locais arqueológicos ossos partidos,
juntamente com vestígios de outros restos de comida. Mas não deve ter
demorado muito até os primeiros agricultores [e pastores] descobrirem
que os cavalos podiam ser montados, carregados com bens para
transportar e treinados para puxar carroças”, escreveu a zooarqueóloga
Juliet Clutton-Brock, especialista em domesticação, no seu livro
História da Domesticação dos Animais – Dos Primórdios à Actualidade,
de 1999.
“É provável que os bovinos tenham sido utilizados antes dos cavalos
para arar e também para a tracção, mas assim que o cavalo se
estabeleceu como meio de transporte o modo de vida dos seres humanos
foi alterado. Isto aconteceu, segundo parece, surpreendentemente
tarde, durante o segundo milénio antes de Cristo [há cerca de quatro
mil anos] e apenas um milénio antes [há cerca de cinco mil anos] no
Sul da Rússia e na Ásia Oriental”, contextualiza o livro. “O mundo
estava aberto aos cavaleiros que podiam viajar para toda a parte e,
com a ajuda dos desenvolvimentos posteriores nas técnicas de guerra,
podiam conquistar novas terras para onde se deslocassem.”
Por isso, quando perguntamos a Rui Martiniano se as pessoas das
estepes vieram para a Europa de cavalo, ele responde: “Sim, terem o
cavalo domesticado foi o que lhes permitiu viajarem distâncias tão
grandes.”
Da genética às línguas
Ora o que conta o genoma dos 14 esqueletos antigos “portugueses”, bem
como a sua comparação com as outras amostras pré-histórias
euro-asiáticas e modernas de todo o mundo, é precisamente que aqueles
invasores provenientes das estepes ficaram-se mais pelo Norte e pelo
centro da Europa, em vez de virem para a Península Ibérica.
Estudos genéticos de outras equipas já tinham revelado, em 2015, a
existência dessas grandes migrações das estepes para o Norte e centro
da Europa. Essas pessoas que migraram contribuíram bastante o genoma
das populações que viviam ali. Agora, o novo estudo mostra que, na
Península Ibérica, essas migrações das estepes foram muito mais
reduzidas. “Em contraste com outras regiões europeias”, refere Rui
Martiniano, segundo o comunicado, “apenas detectámos uma mudança
genética muito subtil durante a transição do Neolítico para a Idade do
Bronze, em resultado de migrações ou do contacto com outros povos fora
da Península Ibérica”.
PÚBLICO -
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O geneticista Rui Martiniano
Portanto, nesta história de migrações e invasões chegaram novas
pessoas e os seus genes a algumas regiões – o que significa que houve
sexo para que tivessem ocorrido trocas genéticas visíveis agora nas
amostras de ADN analisadas, pelo menos em algumas. Mas as migrações
populacionais também podem conter uma história de transmissão
cultural, de tecnologias e conhecimento. Neste caso agora, a equipa
sustenta que a presença dos invasores das estepes mais no Norte e
centro da Europa e menos na Península Ibérica terá tido implicações na
transmissão das línguas.
“Pensa-se que estas migrações da Idade do Bronze espalharam as línguas
indo-europeias por toda a Europa”, diz Rui Martiniano, de que são
exemplos o inglês, alemão, espanhol, português ou o mirandês. “Tendo
em conta que essas migrações foram reduzidas na Península Ibérica,
este fraco fluxo populacional poderá explicar a permanência de línguas
não indo-europeias nesta região, como o euskera no País Basco, que
ainda é falado actualmente”, acrescenta o geneticista. “As línguas
indo-europeias não foram espalhadas na Península Ibérica com tanta
intensidade naquela altura.”
Como sabemos, as línguas indo-europeias acabaram por se disseminar
pelo mundo, mas o euskera sobreviveu até hoje na fronteira entre
Espanha e França como uma língua pré-indo-europeia. “Tem sido sugerido
que as línguas indo-europeias se espalharam através de migrações pela
Europa a partir da região central das estepes, um modelo que encaixa
nestes resultados”, refere um outro comunicado sobre este trabalho.
De todo este manancial genético, a equipa também extraiu informações
sobre a evolução da estatura das populações humanas. Para isso,
regressemos aos primeiros agricultores do Neolítico. Este ano, uma
equipa liderada por cientistas do Instituto de Investiga��ão e
Inovação em Saúde (i3S), da Universidade do Porto, e da Universidade
de Huddersfield, no Reino Unido, avançou com um artigo sobre a rota
“marítima” seguida pelos agricultores do Neolítico até à Península
Ibérica. Em diversas bases de dados genéticas, esta equipa, de que
Luísa Pereira (do i3S) foi uma das coordenadoras, procurou marcas nos
nossos genes (que continuam presentes) da chegada à Península Ibérica
de populações vindas do Médio Oriente.
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E concluiu que um pequeno grupo veio do Médio Oriente e chegou
primeiro à Península Itálica, onde se misturou com as populações
locais. Depois, viajou pela costa, até chegar à Península Ibéria há
cerca de 7500 anos, onde voltou a misturar-se com as populações que aí
viviam e iniciar a substituição da cultura dominante dos
caçadores-recolectores pela agricultura e a domesticação de animais.
Baseando-se em achados de cerâmica, o arqueólogo português João
Zilhão, da Universidade de Barcelona, também já tinha defendido a
importância do Mediterrâneo para a entrada do Neolítico na Península
Ibérica e que a Península Itálica teria servido de interposto. Essa
rota de expansão da agricultura foi assim diferente da que seguiu por
terra para o resto da Europa, onde há cerca de quatro mil anos já
estava disseminada.
Pela genética, pôde então ver-se que a revolução da agricultura no
Neolítico na Península Ibérica foi iniciada com a chegada de gente
nova e dos seus genes. “Houve uma migração pronunciada, que veio da
Anatólia. Não foi [só] uma transmissão cultural: não foram os
caçadores-recolectores a adoptar a agricultura”, diz Rui Martiniano.
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Acontece que os primeiros agricultores da Anatólia tinham uma
predisposição genética para serem mais baixos do que os
caçadores-recolectores, que existiam na Europa. Por outro lado, os
cavaleiros das estepes euro-asiáticas da Idade do Bronze tinham uma
predisposição para serem mais altos.
“As populações de hoje em dia na Europa têm alturas marcadamente
diferentes. Os portugueses, espanhóis ou italianos – as populações do
Sul europeu – tendem a ser mais baixas. As populações do Norte,
especialmente os holandeses e alemães, tendem a ser muito altas. Isto
depende de factores ambientais, como a alimentação, mas também
factores genéticos”, refere Rui Martiniano. “O nosso estudo diz que as
migrações do Neolítico provenientes da Anatólia são responsáveis por
uma estatura mais baixa. Note-se que as populações do Sul europeu têm
mais ancestralidade do Neolítico do que as populações do Norte da
Europa.” Este trabalho também confirma os resultados da equipa de Iain
Mathieson, da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA), na revista
Nature em 2015, como conta o investigador português: “As populações da
estepe durante a Idade do Bronze tiveram um papel fundamental no
aumento da estatura aquando da sua expansão para a Europa.”
E é assim que uma parte da história dos movimentos migratórios na
Europa, dos primórdios da agricultura, da expansão de línguas e da
estatura das populações ficou agora um pouco mais esclarecida, graças
ao contributo do ADN de 14 esqueletos antigos de Portugal.
Fonte:
https://www.publico.pt/2017/07/27/ciencia/noticia/como-o-genoma-de-14-esqueletos-portugueses-antigos-conta-a-historia-das-invasoes-na-idade-do-bronze-1780549