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[Archport] Há um navio quinhentista "praticamente intocado" na costa de Esposende

To :   archport <archport@ci.uc.pt>
Subject :   [Archport] Há um navio quinhentista "praticamente intocado" na costa de Esposende
From :   Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Date :   Sun, 6 Aug 2017 09:00:31 +0100

REPORTAGEM
Há um navio quinhentista "praticamente intocado" na costa de Esposende

Arqueólogos chegaram primeiro que os caçadores de tesouros a um navio
do século XVI, que será um dos mais importantes achados a nível
mundial, pelas condições em que se encontra.

ABEL COENTRÃO  , Público, 6 de Agosto de 2017, 7:25

Uma equipa de investigadores descobriu na costa de Esposende a
localização exacta de um navio, provavelmente ibérico, do século XVI,
que, desde 2014, vem fascinando a comunidade científica internacional.
O estudo das centenas de peças encontradas na praia de Belinho ao
longo destes anos, e que incluem objectos da carga e madeiras da
embarcação, já deixava antever que se estava perante um achado muito
importante para a arqueologia naval, mas a equipa envolvida acabou por
ser surpreendida com muito mais do que isso. No fundo do mar, não
muito longe da língua da maré, jaz um navio “praticamente intocado” de
cerca de 30 metros de comprimento, protegido por uma camada de
sedimentos.

Os banhistas que, por estes dias, se deleitam ao sol e arriscam um
mergulho nas águas frias da praia de Belinho não imaginam que, há
cerca de 500 anos, o mar atraiçoou um navio, afundando-o a poucos
metros deles. Desconhece-se de onde vinha ou para onde ia, sabe-se
algo, mas ainda pouco, sobre a carga que transportava e nada sobre o
que aconteceu à sua tripulação, mas sabem os arqueólogos que, junto às
rochas, na zona de rebentação das ondas, jaz o que resta desse
naufrágio, situado, para já, num período entre 1520 e 1580, e do qual
foram já recolhidas centenas de peças.

E o que ali está, visto, com os seus próprios olhos, pelo arqueólogo
Alexandre Monteiro a 24 de Abril deste ano, num curto mergulho de uma
hora e um quarto, e de novo esta semana que passou, não é pouco.
“Estamos perante o primeiro naufrágio quinhentista em águas
portuguesas a ser encontrado praticamente intocado desde a sua perda”,
assinala, num artigo na revista Al-Madan de Julho, o quarteto que vem
liderando a investigação, e que inclui Ana Almeida, arqueóloga da
Câmara de Esposende, Ivone Magalhães, historiadora, da mesma
instituição, e o arqueólogo Filipe Castro, que lidera o ShipLab da
Universidade do Texas A&M. “A ser ibérico, tratar-se-á de um dos mais
completos sítios desta tipologia e cronologia a ser encontrado a nível
mundial”, alertam.

No mês passado, durante a cerimónia que assinalou o centenário do
afundamento, na I Grande Guerra, do Roberto Ivens — um navio da armada
portuguesa cuja localização descobriu, com Paulo Costa —, Alexandre
Monteiro bem dizia ao primeiro-ministro que "o grande museu dos
Descobrimentos portugueses e da Expansão — e que ainda não está feito
— está todo no fundo do mar". Envolvido em vários projectos de
arqueologia subaquática, este investigador do Instituto de Arqueologia
e Paleociências da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa identificou parte do costado deste navio
em quatro conjuntos de madeiras ainda articuladas entre si, viu quatro
canhões, em ferro e em bronze, uma âncora, fragmentos de placas de
chumbo que serviriam para protecção do casco e mais pratos em estanho
semelhantes aos que vêm sendo recolhidos, na praia, desde 2014.

Esta semana, Alexandre Monteiro e Filipe Castro voltaram ao local, na
companhia de John Sexton, um experiente instrutor de mergulho e
fotógrafo subaquático a viver há alguns anos em Portugal, que voltou a
captar imagens do sítio, bastante mais coberto, desta vez, por areia.
Monteiro não tem dúvidas de que o que testemunhou em Abril, altura em
que parte do madeirame estava bem à vista, foi uma excepção, o que
explica, na sua perspectiva, a preservação deste navio naufragado a
salvo da pilhagem mais ou menos organizada. “Se não estivesse
habitualmente coberto, o sítio já teria sido saqueado”, afirma. Em
todo o caso, com boa visibilidade, puderam fazer algumas medições e
perceber que a operação de levantamento dos canhões vai ser complexa.

O grupo de investigadores, que envolve ainda uma equipa com submarinos
autónomos do Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática (LSTS)
da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, chegou a
programar para estes dias uma operação para retirar aquelas peças, mas
o mar, que tem ditado o ritmo das descobertas em Belinho, fez-se
difícil. Filipe Castro regressou assim aos EUA sem ver, fora de água,
as colubrinas que, acredita, podem conter inscrições que ajudem a
determinar o fabricante e o momento de fabrico, e a encurtar, dessa
forma, a datação possível para este naufrágio do qual, para já, não
encontraram registos.

“Este navio saiu de algum porto, e não chegou ao destino. Tem de
haver, algures, um registo dessa viagem”, nota Ana Almeida. Alexandre
Monteiro corrobora. Afinal, na investigação ao naufrágio do navio
Nuestra Señora del Rosario (Tróia, Grândola, 1598) encontrou 600
páginas de documentação, oficial e até pessoal, em arquivos
portugueses e espanhóis. E ninguém acredita que a perda de um navio
que, pelas dimensões de algum do seu madeirame, teria cerca de 30
metros de eslora, da proa à popa, passasse despercebida.

Dentro deste período há o registo do afundamento do Nossa Senhora da
Rosa, perdido em 1577 “através de Esposende”, quando carregava vinho e
breu das Canárias para o porto de Vila do Conde, situado poucas milhas
a sul, mas os investigadores que se debruçam sobre o naufrágio de
Belinho consideram que não será essa a embarcação que encontraram,
pois este “tem um porte bem maior do que a maioria dos navios que
percorriam as rotas das Canárias, Madeira e Açores no século XVI”.

A equipa espera que, sob a camada de sedimentos, que Filipe Castro
gostaria de limpar, com recurso a uma bomba de sucção, se houvesse
recursos para isso, o navio de Belinho tenha muito mais a contar. Ao
contrário do que acontecia em naufrágios perto da praia e de
povoações, em que nem as madeiras resistiam aos actos de pilhagem — o
que explica o uso de partes dos cascos nas casas mais antigas de Angra
do Heroísmo, assinala Alexandre Monteiro —, esta embarcação parece ter
resistido à cupidez dos seus, e dos nossos, contemporâneos. Que,
podendo, nunca deixariam no mar colubrinas em bronze semelhantes à que
foi encontrada no navio português Bom Jesus, descoberto em Oranjemund,
na costa da Namíbia, e que têm mercado no sector das antiguidades.

“Se encontrássemos objectos pessoais, seria muito importante” para a
investigação, assume o director do ShipLab, que desde 2015, através do
projecto europeu ForSeaDiscovery, do qual faz parte com Alexandre
Monteiro, participa no estudo dos achados arrojados à praia. O
material encontrado já lhes dá água pela barba e abriu portas a vários
projectos de investigação, como o de Adolfo Martins, que está a fazer
doutoramento na Universidade de Gales Trinity Saint David sobre a
morfologia das 80 peças de madeira recolhidas. Os seus anéis,
analisados com recurso à dendrocronologia, permitiram excluir a
hipótese de provirem de árvores do Norte da Europa, e as técnicas de
construção naval são semelhantes às usadas por cá naquele período, mas
é preciso mais informação para se poder confirmar a origem deste
navio.

Sobre este naufrágio há imensas perguntas ainda sem resposta — e
muitas perguntas por fazer —, mas, neste momento, uma das dificuldades
é garantir uma equipa baseada no Norte do país, que consiga continuar,
de perto e com maior regularidade, este projecto de investigação
arqueológica que seria impossível sem o empenho da autarquia. Para lá
dos elementos do município, e dos achadores, que vivem em Esposende,
todos os que, até agora, participaram na recolha e estudo destes
achados estão envolvidos em múltiplos projectos, em várias partes do
mundo, e não é fácil mobilizá-los para Belinho, para situações de
emergência ou, por exemplo, para uma campanha de mergulho, caso o mar
o permita.

O mar tem sido o marca-passo desta investigação. Foi ele que denunciou
o naufrágio, atirando despojos para a praia em 2014, mas esta semana
não deixou que lhe levassem os canhões que guarda ciosamente, há cinco
séculos. Aliás, uma tentativa de mergulho de Alexandre Monteiro ia
correndo muito mal, no domingo passado. “O naufrágio de Belinho esteve
quase a fazer a sua última vítima” dizia, já meio a brincar, passado
este episódio em que se viu atirado contra as pedras, e se teve de
livrar do cinto de lastro e das botijas de ar, antes de ser salvo por
João Sá. O escultor que alertara, em 2014, as autoridades para a
importância destes achados, que encontrara, com familiares, na praia,
voltou a ser fulcral para esta história. Ou não fosse ela um exemplo
de cooperação entre cidadãos e a comunidade científica.


FEUP tem submarinos apontados à história

Há mais, na costa de Belinho, do que aquilo que se vê a olho nu (e o
mar nem sempre está límpido para ajudar). Sob um manto de sedimentos e
pedras há um navio inteiro por descobrir, e a detecção da área por
onde se espalham os destroços deste naufrágio do século XVI seria
impossível sem o apoio da tecnologia do Laboratório de Sistemas e
Tecnologia Subaquática (LSTS) da Faculdade de Engenharia da
Universidade do Porto.

A instituição, referência mundial no desenvolvimento, construção e
operação de submarinos autónomos, é um dos parceiros desta
investigação, à qual José Pinto, gestor de projectos no LSTS, foi
atraído por causa de Alexandre Monteiro. A convite da Câmara de
Esposende, este organizou um workshop de arqueologia subaquática no
qual o engenheiro participou, por curiosidade em relação a uma área
para a qual os submarinos com que trabalha são de grande utilidade. E
a verdade é que, encantado com as histórias relatadas pelo arqueólogo,
não saiu dessas sessões sem manifestar o interesse do laboratório em
apoiar o seu trabalho.

Belinho, onde o LSTS está a utilizar sonares de varrimento lateral,
capazes de ler o fundo do mar, mesmo abaixo da camada de sedimentos,
fornecendo preciosas imagens tridimensionais dos sítios, e
magnetómetros que detectam a presença de materiais ferrosos, como os
pregos e cavilhas usados na construção naval, âncoras ou, neste caso,
canhões, é só um dos projectos em que o laboratório está a colaborar
com a arqueologia. José Pinto tem visitado outros locais, aconselhado
por Alexandre Monteiro, e mesmo nas sessões de campo realizadas em
Esposende recolheu dados sobre outros possíveis naufrágios, ou não
fosse esta uma costa rica em vestígios que vão desde a época romana às
décadas mais recentes.

O trabalho do LSTS tem sido tão profícuo que, na Universidade do Texas
M&D, Filipe Castro, o português que ali dirige o ShipLab, já convenceu
o responsável pelo departamento de Engenharia Oceânica local a estudar
a possibilidade de parcerias com este grupo da FEUP, considerado,
naquela universidade texana, “os melhores do mundo no que fazem”,
garante o professor de Antropologia, explicando que já houve contactos
no sentido de se avançar com um acordo de cooperação.

Envolver a comunidade na arqueologia subaquática

Num país em que a arqueologia subaquática foi recentemente notícia por
ter chegado a situação de emergência, fruto de um desinvestimento do
Estado, a equipa que está a investigar o navio descoberto na praia de
Belinho quer fazer deste projecto um exemplo internacional de boas
práticas e o arqueólogo Alexandre Monteiro pretende, a partir deste
trabalho, criar no Norte do país uma rede que envolva investigadores,
técnicos municipais, clubes de mergulho e pescadores na salvaguarda de
um património que está praticamente todo por descobrir.

A história recente do naufrágio de Belinho é já exemplar. Desde logo
pela forma como os achadores das peças que o mar atirou para a praia
em 2014, um quarteto de pessoas da localidade, entre os quais estão o
escultor João Sá e o filho Alexandre, alertaram o Instituto de Gestão
do Património Cultural — que comunicou com o município —, mantendo
depois, ao longo destes anos, uma vigilância informal do local dos
achados. Exemplar ainda foi a forma como a Câmara de Esposende,
alicerçada nas competências e na rede de contactos de duas das suas
técnicas, a arqueóloga Ana Almeida e a historiadora Ivone Magalhães,
tomou em mãos a salvaguarda dos achados, convocando para o projecto
saberes sedeados em várias universidades da Europa e dos EUA.

No início desta semana apanhámo-los na praia, entre os banhistas que,
humores do mar, têm areia onde se sentar, no Verão, na maré baixa,
numa praia que, fruto da erosão costeira, ficou quase toda ela sem
areal e preenchida por enormes seixos rolados. Na penedia, a equipa
que vigia de perto o navio quinhentista que jaz não muito longe dali
faz alguns trabalhos, impedida que fora, de manhã, pela ondulação, de
levar a cabo uma operação de levantamento dos quatro canhões e da
âncora já descobertos.

Na praia, para além de Ivone Magalhães e Ana Almeida está um antigo
engenheiro civil atraído para a arqueologia, Filipe Castro,
ex-responsável pelo Centro Nacional de Arqueologia Subaquática e hoje
director do ShipLab da Universidade de Texas A&M, e um antigo
engenheiro zootécnico, Alexandre Monteiro, com um chapéu à Indiana
Jones. Desde que se estreou no mergulho, nos Açores, este investigador
do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa mudou de vida e vem
participando em inúmeros projectos de identificação, estudo e
salvaguarda de património marítimo em vários pontos do mundo, e está a
fazer doutoramento sobre o naufrágio de um navio português na costa da
Austrália.

Para além deste investigador, estão o americano John Sexton, um
bem-humorado e experiente instrutor de mergulho que, na reforma,
escolheu Portugal para viver, um piloto de aviação civil, Flávio
Biscaia, voluntário com imenso jeito para o desenho, que já fora
responsável por representações minuciosas das madeiras encontradas, e
um dos achadores, o jovem designer gráfico Alexandre Sá, que por obra
de um acaso — e dos mergulhos que faz com o pai — se viu também metido
nestas andanças. Ah, e é preciso não esquecer José Pinto, o engenheiro
informático do Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática, da
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que coordena a
operação dos submarinos não tripulados envolvidos nesta pesquisa e que
não esconde o entusiasmo pelo contributo que a engenharia está a dar
para a arqueologia.

A conversa em torno das múltiplas proveniências dos membros da equipa
veio à tona no final dessa tarde solarenga, em que se discutia a
dificuldade de manter, em Esposende, um grupo permanente capaz de,
rapidamente, aproveitar as abertas concedidas pelo mar para estudar
este e outros locais de naufrágios já identificados na costa Norte.
Depois da experiência da criação de um centro dedicado à arqueologia
náutica em Alcácer do Sal, parceria entre este município e a
universidade de Alexandre Monteiro, este gostaria de ver o modelo
replicado no Norte, onde há um trabalho reconhecido na arqueologia
feita em terra, mas faltam, neste momento, investigadores dispostos a
“mergulhar” na história, explica.

Alexandre Monteiro, um crítico da “inoperância” do Estado na defesa do
cumprimento da Convenção sobre a Protecção do Património Subaquático,
da UNESCO, acredita que uma das formas de se avançar no estudo dos
inúmeros naufrágios ocorridos na costa Norte do país passa pelo
desenvolvimento de um projecto capaz de envolver pescadores, senhores
de um conhecimento do terreno que poucas vezes chega à comunidade
científica, técnicos municipais, com Esposende na linha da frente,
voluntários e clubes de mergulho como o da associação Amigos do Mar,
de Viana do Castelo, que ainda esta semana participou numa visita ao
navio. O arqueólogo acredita que, com acompanhamento e formação, é
possível transformar estes clubes em defensores dos fundos marinhos
ricos em história mas, tantas vezes, alvo fácil de saqueadores de
tesouros. Esses que, desta vez, parece que foram ultrapassados pelos
arqueólogos na corrida ao navio de Belinho.

https://www.publico.pt/2017/08/06/culturaipsilon/noticia/ha-um-navio-quinhentista-praticamente-intocado-na-costa-de-esposende-1781444



Na praia, à espera que o mar melhore

Desde 2014, a praia de Belinho tem sido sítio fértil para os
arqueólogos. Aqui, ao longo destes três anos, o mar tem arrojado
centenas de objectos, desde madeira a peças da carga, cuja origem, um
navio de cerca de 30 metros de eslora (comprimento medido de proa à
popa) provavelmente ibérico, do século XVI, foi descoberta em Abril
deste ano. Esta semana, a equipa que está a investigar este achado de
importância mundial voltou ao mar, e à praia, para continuar os
trabalhos de estudo e salvaguarda deste património subaquático, mas
teve de abortar uma operação de recolha de alguns achados, por causa
das condições do mar."

http://www.publico.pt/multimedia/fotogaleria/na-praia-a-espera-que-o-mar-melhore-376104#/0



Um navio no fundo do mar

John Sexton, um experiente instrutor de mergulho, está a acompanhar as
operações de identificação, estudo e salvaguarda de um navio
quinhentista de grandes dimensões, ibérico, muito provavelmente,
descoberto em Abril deste ano na costa de Esposende, em Belinho por
uma equipa de arqueólogos. Esta semana, a equipa, que falhou uma
tentativa de recolher quatro canhões e uma âncora deste naufrágio,
devido às condições desfavoráveis de mar, conseguiu, na passada
quarta-feira, mergulhar com boas condições de visibilidade, o que
permitiu a este texano a viver em Portugal obter novas imagens destes
achados, que partilhou com o PÚBLICO.


http://www.publico.pt/multimedia/fotogaleria/um-navio-no-fundo-do-mar-376103#/0


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