[Archport] Monte dos Castelinhos: à procura da cidade “perdida” de Ierábriga
VILA FRANCA DE XIRA
Monte dos Castelinhos: à procura da cidade “perdida” de Ierábriga
Sítio arqueológico do norte do concelho de Vila Franca de Xira já é o
mais importante da Região de Lisboa e Vale do Tejo para o conhecimento
da presença romana. Escavações já descobriram fortificação, casas,
ruas e um escudo romano único na Península Ibérica.
Publico, JORGE TALIXA 1 de Outubro de 2017, 8:06
O monte dos Castelinhos, uma espécie de promontório que se eleva sobre
a Estrada Nacional n.º 1 (EN1), perto da entrada sul do Carregado, já
estava referenciado como sítio arqueológico importante. Mas só nos
últimos dez anos avançaram campanhas de escavação arqueológica
regulares, que começaram por descobrir uma grande fortificação da
época romana e muitos objectos de cariz militar. Este Verão, uma nova
campanha de escavação pôs a descoberto casas, ruas, muita cerâmica,
moedas e outros objectos de uso comum, que reforçam a tese dos
arqueólogos responsáveis de que ali se situava a cidade romana de
Ierábriga, considerada a mais importante entre as antigas Lisboa
(Olissipo) e Santarém (Scallabis). Ierábriga é referida em textos
clássicos como estando situada a cerca de 30 milhas romanas (perto de
45 quilómetros) de Olissipo. A distância corresponde e há novos dados
que suportam essa forte possibilidade de estar ali esta importante
cidade romana “desaparecida” há muitos séculos.
Certo é que o sítio do monte dos Castelinhos (situado no extremo norte
do concelho de Vila Franca de Xira, na freguesia de Castanheira do
Ribatejo), pelos achados arqueológicos e pelo seu grau de preservação,
já é considerado o mais importante da época romana em toda a região de
Lisboa e Vale do Tejo. O monte, muito pedregoso, não teve praticamente
exploração agrícola e todos estes vestígios estão muito bem
preservados, permitindo reconstituir muito do que foi a vivência
romana neste ponto estratégico que era, então, sobranceiro ao Tejo e à
principal estrada romana que atravessava o território da Lusitânia.
João Pimenta e Henrique Mendes, arqueólogos do município, têm liderado
estas escavações e sublinham que o foco principal não é confirmar que
Ierábriga se situava ali, mas pôr progressivamente a descoberto e
estudar um local da maior importância para o conhecimento da presença
romana na Península Ibérica. Depois, o sítio do monte dos Castelinhos
terá todas as condições para ser classificado como Monumento Nacional
e a Câmara de Vila Franca pretende, no futuro, desenvolver ali
projectos educativos e até mesmo turísticos.
Todo o espaço do sítio arqueológico estende-se por mais de dez
hectares inseridos na Quinta da Marquesa e os arqueólogos abriram,
este ano, uma segunda área de escavação, a oeste (sentido do Tejo) da
primeira. “Este ano a área investigação foi outra, decidimos apontar
noutra direcção para resolvermos um problema. Já se tinha arrumado a
questão da importância do monte dos Castelinhos durante a fase da
conquista romana, no período republicano (século I antes de Cristo) e
é nesse período que a investigação tem vindo a ser desenvolvida,
porque estamos perante um sítio com uma grande fortificação, que teve
uma forte presença militar no período de Júlio César”, explica João
Pimenta, em declarações ao PÚBLICO, frisando que havia, contudo,
“indícios de que este sítio também tinha sido importante em épocas já
do alto império romano (séculos I e II depois de Cristo), numa altura
em que Roma já se tinha implantado neste território e que este
território estava na província romana da Lusitânia”.
De acordo com o arqueólogo vila-franquense, o objectivo era confirmar
se, de facto, no monte dos Castelinhos, para além da comprovada
presença militar, tinha havido em paralelo ou posteriormente um
desenvolvimento urbano importante. “E isso prende-se com uma das
questões a que o projecto esteve sempre ligado, embora não seja isso
que nos move, mas que é perceber se o monte dos Castelinhos poderá ser
a Ierábriga referida em várias fontes clássicas. Abrimos esta nova
frente de escavação e os resultados surpreenderam-nos de uma forma
assaz relevante, com o estado de conservação das estruturas da época
romana já do tempo do imperador Augusto. Temos vários edifícios, temos
uma rua, que indica que nessa altura o sítio foi reconstruído e tinha
uma grande importância económica. Era um sítio rico, com uma grande
dinâmica comercial, o que poderá contribuir realmente para ser a
cidade de Ierábriga”, acrescenta João Pimenta, explicando que foi
encontrada muita cerâmica do tipo terra sigillata (objectos pintados
com um verniz vermelho que têm marcas que permitem localizar e datar a
sua produção), uma grande quantidade de ânforas, moedas da época de
Augusto, fíbulas e outros materiais. Esta campanha permitiu apenas
escavar a parte superficial e ainda não chegou aos pavimentos das
casas.
Poderão estes dados corresponder a uma importante villa (quinta)
romana e não a uma cidade? Henrique Mendes garante que não. “Pensamos
que seja uma coisa maior estamos perante uma nova área com alguma
sumptuosidade, algo de grande dimensão. Temos já inclusivamente
escavada uma rua em lajado e terra batida. Com esta dimensão e com
este tipo de construções em termos de urbanismo não seria compatível
com uma villa, é compatível com algo de dimensão diferente”, sublinha.
Ierábriga é referida em várias fontes clássicas desde o “Itinerário de
Antonino” (século I dC) a textos do geógrafo grego Ptolomeu, que falam
numa cidade localizada na zona do estuário do Tejo a 30 milhas romanas
de Olissipo, que tinha grande importância económica, também porque era
ali que quem viajava a partir da antiga Lisboa (Olissipo) parava para
pernoitar, comer, mudar de cavalos ou fazer compras nos mercados. Um
marco miliário recentemente descoberto junto a Alenquer (ver caixa)
veio reforçar a tese de que “Ierábriga” ficava mesmo na zona do actual
monte dos Castelinhos. Falta descobrir vestígios mais precisos que
confirmem esta informação e encontrar explicações definitivas para o
“abandono” posterior da cidade. João Pimenta e Henrique Mendes
acreditam que a falta de água no topo do monte tenha feito,
progressivamente, com que as populações se tenham deslocado para zonas
mais baixas, mais próximas do Tejo e do seu afluente rio da Pipa. E,
de facto, no sopé do monte também já foram encontrados vestígios da
época visigótica.
“Estes dados já são suficientemente tangíveis para podermos afirmar
que há aqui um sítio importante do tempo do imperador Augusto e que,
possivelmente, não há outra candidatura tão boa como esta, há fortes
probabilidades de estarmos aqui perante a antiga Ierábriga”, assegura
João Pimenta.
Henrique Mendes salienta que decorre, agora, um trabalho aturado de
investigação de todos os materiais encontrados e que, no próximo
Verão, à mesma em parceria com o Curso de Arqueologia da Faculdade de
Letras de Lisboa, haverá nova campanha de escavações neste local.
“Estamos a falar de um sítio com mais de dez hectares, por muito que
consigamos escavar vai sempre ficar em aberto uma janela de
interpretação. Resta-nos esperar que, à medida que vamos escavando,
nos sejam reveladas pistas sobre esta grande ocupação e sobre o porquê
do abandono deste sítio”, concretiza. “Estamos em crer que o monte dos
Castelinhos já reúne todas as condições para vir a ser classificado
como Monumento Nacional”, acrescenta Henrique Mendes, até porque em
toda a Região de Lisboa e Vale do Tejo “não há nada da época romana
com este estado de preservação, as características geológicas do local
permitiram isso. A exploração agrícola que teve não foi muito
intrusiva e isso permitiu que este sítio esteja muito bem preservado”,
conclui João Pimenta.
Marco miliário de Alenquer ajuda a confirmar localização de Ierabriga
Nos últimos meses foi, também, descoberto na Quinta de Santa Teresa
(junto ao Centro Escolar de Alenquer) um marco miliário romano
importante para confirmar a tese de que Ierabriga pode estar mesmo no
monte dos Castelinhos. Dizem as fontes clássicas que Ierabriga distava
30 milhas romanas de Olissipo. Ora, este marco miliário diz que a zona
de Alenquer estava a 35 milhas romanas de Olissipo. Se tivermos em
conta que entre Alenquer e o monte dos Castelinhos distam cerca de 5-6
quilómetros, este é um novo dado para confirmar esta forte
possibilidade. Por outro lado, afastará uma tese anterior que situava
Ierabriga nos arredores de Alenquer, facto que não foi confirmado por
escavações. “É mais um indicador de que Castelinhos possa ser
efectivamente Ierábriga”, sustenta João Pimenta.
Escudo único na Península Ibérica
Entre milhares de objectos já recolhidos nas escavações do monte dos
Castelinhos destaca-se um escudo militar romano com um grau de
preservação único na Península Ibérica. Tanto assim é que este escudo
já foi cedido para exposições em Espanha. “É uma peça única a nível do
património nacional, que já foi requerida para várias exposições,
inclusivamente em Mérida e em Madrid. E que já esteve por duas vezes
no Museu Nacional de Arqueologia. A par do escudo, o mais importante é
o conjunto de materiais de cariz militar, que é raro. E depois, temos
um conjunto numeroso de cerâmicas e de recipientes metálicos, que
também são raros. E temos estiletes de osso que querem dizer que quem
ali vivia eram pessoas que sabiam escrever e escreviam em tabuinhas de
cera, muito típicas da época romana”, remata João Pimenta.
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