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[Archport] "Se somos perfeitos? Não, não somos, mas não estamos parados.”

To :   archport <archport@ci.uc.pt>
Subject :   [Archport] "Se somos perfeitos? Não, não somos, mas não estamos parados.”
From :   Alexandre Monteiro <no.arame@gmail.com>
Date :   Wed, 11 Oct 2017 20:55:58 +0100

Como diria o outro, correr sem rumo é esperar em movimento. Eu
acrescento: falar por falar, mais vale ir ao dicionário procurar o
termo "referência". E calar-se.




PATRIMÓNIO

Dentro de um ano haverá em Xabregas um “centro de referência” para a
arqueologia náutica?

"PATRIMÓNIO
Direcção-Geral do Património responde aos que a acusam de faltar às
suas responsabilidades no que toca ao antigo Centro de Arqueologia
Náutica e Subaquática – não há bens em risco, o que há é uma mudança
complicada. E, constatou o PÚBLICO, incógnitas na conservação de
alguns materiais.

Público, LUCINDA CANELAS 11 de Outubro de 2017, 7:32

A situação das reservas da arqueologia náutica e subaquática
instaladas há dez anos no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa
(MARL) continua a opor arqueólogos de universidades, associações,
museus e centros de investigação ao Ministério da Cultura e à sua
Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC). Pelo meio há um pedido
do PCP para que o ministro vá explicar aos deputados o que se passa
com os bens depositados naquele armazém nos arredores de Lisboa e uma
carta aberta dirigida ao mesmo Luís Filipe Castro Mendes assinada por
20 arqueólogos que em Portugal e lá fora se ocupam da história que
ficou debaixo de água.

Dizem os arqueólogos que o Estado deixou arrastar ao longo de dez anos
uma situação que devia ser “provisória” e que lhe custou mais de um
milhão de euros (o valor em rendas não andará longe dos 1,4 milhões),
que depois agiu tarde e a más horas quando foi informado de que tinha
de abandonar os 3200 metros quadrados que ocupava no MARL, e que
continua a não perceber a importância do património que tem em mãos
nas instalações de Loures, deixando em risco bens que tem por missão
proteger nesta fase em que a casa da arqueologia náutica e subaquática
está em obras e se prepara a mudança para uma nova, na antiga Fábrica
de Tabacos de Xabregas.

Uma reserva debaixo de água
A DGPC defende-se, garantindo que nada está ameaçado e dispôs-se a
esclarecer jornalistas e arqueólogos, caso raro numa instituição que
tantas vezes se remete ao silêncio ou opta por declarações sumárias,
começando por enviar para as redacções, no final de Setembro, um
comunicado em que, em 15 pontos, reagia a declarações feitas ao
PÚBLICO por José Arnaud, presidente da Associação de Arqueólogos
Portugueses (AAP), depois de uma visita ao MARL. Agora, abriu as
portas do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS)
– para efeitos práticos, continuamos a usar esta designação porque o
meio do património o faz, embora na orgânica da DGPC ele não exista
desde a extinção do Instituto Português de Arqueologia, em 2007 – para
mostrar, diz o seu subdirector, que “não há nada em risco de se
perder”, o que há é uma “mudança extremamente complexa em termos
logísticos” e que “obriga à imposição de alguns constrangimentos”.

“As pessoas têm de compreender isto e pensar que é uma mudança para
melhor. Nós começámos a  tratar da saída [do MARL] em Junho e neste
espaço de tempo já temos um novo local [para o CNANS], um projecto
para esse local e vamos lançar agora o concurso para a obra”, garante
João Carlos Santos. O que os arqueólogos que têm vindo a falar com o
PÚBLICO não compreendem é por que é que não se agiu atempadamente,
minimizando os ditos constrangimentos, quando a administração central
sabia, desde Dezembro de 2016, que a sociedade a que o MARL pertence
queria pôr fim ao contrato de arrendamento. Por que razão não começou
a DGPC a trabalhar logo numa alternativa, já que a de Xabregas parece
ter surgido de imediato mal pegou no assunto?

O CNANS tem agora um “calendário apertado” para a mudança, reconhece
João Carlos Santos, mas “executável”: concurso para a empreitada até
meados de Outubro, obras concluídas até ao fim do primeiro semestre de
2018 e uma previsão de três meses para a mudança. Contas feitas, a
casa nova deverá estar pronta dentro de um ano e custará 1,4 milhões
de euros (número avançado pelo ministro da Cultura).

Um laboratório embrulhado
Património arqueológico de grande valor no meio das obras no armazém do MARL
Património arqueológico de grande valor no meio das obras no armazém do MARL
É fácil adivinhar os constrangimentos a que se refere o subdirector do
Património quando se visita hoje o CNANS. A DGPC já libertou metade do
espaço do armazém que ocupou na última década – ali estavam também o
seu arquivo-morto e o depósito de objectos para vender nas lojas dos
seus museus e monumentos –, mas a reserva arqueológica continua no
lugar onde estava, só que agora parece, em parte, embrulhada e pronta
a levar, como uma refeição num take-away.

O laboratório de conservação e restauro, que esteve mais de um ano sem
técnico, está todo encaixotado e envolto em plásticos; os 30 tanques
de imersão onde repousam madeiras de embarcações naufragadas ao largo
da costa portuguesa, de Norte a Sul, algumas com mais de 400 anos,
estão no meio de uma estrutura de andaimes erguida para que os
operários da construção que trabalham no armazém possam aceder à
cobertura e melhorar os sistemas de iluminação e de detecção de
incêndios; e há porta-paletes e empilhadores de um lado para o outro,
a pôr em camiões materiais do arquivo e das lojas.

A parede que foi derrubada para instalar um portão de carga já está
arranjada, mas isso não impede que tenhamos a sensação de estar no
meio de uma obra – andaimes, barulho, pó, caixas e caixotes
empilhados.

O subdirector do Património reconhece que esta não é a situação ideal
para se fazer uma mudança, mas rejeita qualquer acusação de
irresponsabilidade: “O armazém esteve sem portão dois dias, não mais
do que dois dias, mas teve sempre, como agora, segurança 24 horas. E
apesar de isto ser uma obra e de ter pessoas exteriores à DGPC, nada
está abandonado. Ninguém entra aqui sem ser identificado e ninguém
externo se vai pôr a abrir caixotes ou a mexer nas coisas.”

Ministro da Cultura garante que solução para património subaquático
vai valorizá-lo
Ministro da Cultura garante que solução para património subaquático
vai valorizá-lo
Não são os furtos que mais preocupam os arqueólogos, mas a forma como
as obras estão a afectar os materiais ali guardados nos tanques de
imersão e impregnação – duas fases distintas do processo de
tratamento, a primeira de conservação preventiva, a segunda já
curativa e indispensável ao processo de secagem que levará a que os
materiais possam ser expostos fora de água.

Por baixo da estrutura de andaimes que só deverá ser retirada no final
de Novembro (entretanto deverá ser erguida uma divisória de metal para
separar o CNANS da empresa que virá ocupar a outra parte do armazém)
estão 30 tanques de imersão que deviam ter água corrente, mas não têm.
Têm, sim, coberturas de plástico individuais e uma adicional, no
andaime, mas que só foi colocada depois de este ter sido montado, o
que não impediu que as águas se sujassem.

Conservação complexa
Quando retiradas do fundo do mar, onde estiveram durante séculos,
nalguns casos milénios, as madeiras não podem secar ao ar
naturalmente, explica o único técnico de conservação e restauro, José
António Gonçalves, o último a integrar a equipa de cinco elementos do
CNANS (chegou em Julho e juntou-se a dois arqueólogos, Pedro Barros e
Adolfo Martins). Daí serem colocadas em tanques de imersão até que
possam ser tratadas convenientemente. Nesses tanques a água deve ser
corrente para que nela não se acumulem sujidades e organismos que
degradem a madeira.

PCP questiona Governo sobre a mudança da arqueologia náutica para Xabregas
PCP questiona Governo sobre a mudança da arqueologia náutica para Xabregas
“É difícil estimar que tipo de degradação a falta de água corrente vai
causar nestas madeiras. Mas terá certamente consequências o facto de
ela estar desligada durante dois meses”, diz.

O que José António Gonçalves e o técnico operacional que o assiste vão
fazer é tentar minimizar o impacto das águas paradas nestes materiais:
“Vamos fazer a monitorização visual de todos os tanques e mudar a água
sempre que possível.” Mas com os andaimes montados não será tarefa
fácil. “Mudar a água a um tanque leva um dia, é um processo demorado.”
Um dia para cada um dos 30 tanques equivale a dizer que trocar a água
a todos apenas uma vez demora mais de um mês.

“Não posso prever hoje que efeito terá nos materiais. Não posso”,
repete o técnico. Quem será, então, responsabilizado se a obra no MARL
conduzir a perdas patrimoniais? Mesmo que o técnico garanta que é
impossível determinar hoje se haverá ou não danos, o subdirector-geral
recusa-se a colocar essa possibilidade: “Não pusemos sequer esse
cenário porque não vai haver nenhuma perda patrimonial aqui. Não vai.”

Entre as jóias do CNANS estão seis pirogas com mais de dois mil anos
que foram resgatadas do Rio Lima e que estão entre as embarcações mais
antigas do mundo. Duas foram intervencionadas em Cartagena (Espanha),
uma foi deixada a secar livremente (processo que acelerou a sua
degradação mas que trouxe informação relevante) e três estão em
tratamento desde a década de 1990. Estas peças são as que requerem
mais cuidados e estão numa sala à parte onde tudo está precisamente
como estava antes de começarem as obras.

Ministro da Cultura diz que património subaquático estará em Xabregas
até Junho de 2018
Ministro da Cultura diz que património subaquático estará em Xabregas
até Junho de 2018
“É preciso dizer, para que fique bem claro, que não se passou nada com
as peças mais importantes. Não houve nenhuma alteração. Estão
rigorosamente protegidas”, assegura o subdirector-geral, respondendo
aos arqueólogos José Arnaud e Luís Raposo, que tinham manifestado ao
PÚBLICO a sua preocupação em relação a estas e outras peças.

Nas grandes caixas desta sala especial, para além das pirogas – há uma
com um banquinho e outra com uma proa em forma de ave – há também
madeiras da Ria de Aveiro que “terão pertencido a um exemplar que é o
mais próximo que temos em território português de uma caravela dos
Descobrimentos”, diz o também arqueólogo Adolfo Martins. “Se
estivessem ao ar apodreciam.”

Nos tanques de impregnação onde estão as madeiras do século XVI de
Aveiro faz-se a dita conservação curativa, explica José António
Gonçalves, recorrendo ao Polietilenoglicol (PEG), um químico que
também é usado em shampôs e pastas de dentes.

“O PEG serve para consolidar as paredes da estrutura celular da
madeira e para substituir a matéria perdida” –um processo que era
feito pela água quando as peças estavam em contexto arqueológico,
explica. Depois de consolidadas com PEG as madeiras já podem ser
sujeitas à liofilização, um processo de desidratação que decorre numa
câmara onde são primeiro congeladas e depois aquecidas em vácuo para
sublimar a água sem que esta passe pela fase líquida. “A liofilização
é mais célere (dias em vez de meses) do que a secagem à pressão
atmosférica normal.”

A arqueologia náutica e subaquática portuguesa está a naufragar?
A arqueologia náutica e subaquática portuguesa está a naufragar?
No CNANS não há uma liofilizadora e comprar uma, adverte o
conservador-restaurador, requer um grande investimento. “Uma pequena
custa 90 mil euros, mas se quisermos comprar uma onde caiba uma piroga
com sete ou oito metros, por exemplo, já custa meio milhão.”

Comprar este tipo de equipamento, no entanto, permitirá à DGPC cumprir
melhor a sua missão no que toca à náutica e subaquática a três níveis,
reconhece o subdirector-geral: “Acolher espólio, tratá-lo e devolvê-lo
às comunidades a que pertence. O que for de excepção ficará nas
colecções nacionais [no Museu Nacional de Arqueologia]. Com esta
mudança queremos aproveitar para devolver muito espólio que estava à
nossa guarda aos municípios.”

Para já, nada está ainda decidido sobre o que adquirir nem quando.
“Este equipamento não será comprado na fase de empreitada. Primeiro
precisamos de analisar o que têm os outros laboratórios europeus e ver
o que compensa comprar em função das nossas necessidades e pensando na
prestação de serviços a outros. Tem de haver uma lógica de
complementaridade.”

Na mudança que deverá estar concluída até Outubro de 2018 o mais
sensível será a transferência dos grandes tanques de impregnação onde
estão as madeiras de Aveiro. “Estão ligados a um sistema de circulação
de águas fixo e a temperatura lá dentro tem de ser constante”, diz o
conservador-restaurador. As madeiras terão de ser retiradas dos
tanques e embaladas para transporte porque não podem viajar dentro do
líquido. Para dificultar algo já de si difícil, “os tratamentos não
podem estar suspensos mais do que 48 horas porque a partir daí o PEG
pode cristalizar e causar danos físicos à madeira”.

Um “centro de referência”
A equipa do CNANS tem hoje cinco elementos, mais dois do que em Maio,
quando o PÚBLICO fez um retrato da arqueologia náutica e subaquática
na DGPC. Agora, os seus arqueólogos já podem mergulhar, contando que
se aluguem embarcações ou que apanhem boleia de alguém – os sete
barcos do antigo centro continuam impedidos de ir para a água (faltam
licenças, vistorias, equipamento, manutenção) e quatro deles irão
mesmo para abate.

Diz João Carlos Santos que, nas novas instalações, em Xabregas, a
equipa e os meios deverão ser reforçados, até porque a DGPC pretende
ali acolher investigadores e ter um espaço onde se possam fazer
conferências e pequenas exposições capazes de “devolver às pessoas o
trabalho que o Estado faz nesta área”. E isto sem esquecer a aposta na
conservação e restauro. A ideia, diz, é fazer uma candidatura ao Fundo
EEA Grants (mecanismo financeiro do Espaço Económico Europeu
destinado a reduzir as disparidades sociais e económicas na Europa e a
reforçar a cooperação entre os países) e passar a integrar uma rede
europeia de laboratórios semelhantes ao que Portugal usou em
Cartagena.

“Já disse e repito, o novo espaço da arqueologia náutica e subaquática
será um centro com condições de referência nacional e internacional”,
garante ao PÚBLICO. E as reservas poderão vir a ser visitáveis, como
já acontece em alguns museus portugueses. A nova casa do CNANS
permitirá ainda, acrescenta, requalificar um imóvel do Estado “muito
interessante” que estava até aqui desocupado e a precisar de
intervenção. Um imóvel público onde, apesar de tudo, a lei determina
que a DGPC, um organismo da administração central, pague renda – cerca
de oito mil euros por mês.

“Os arqueólogos protestam, mas nós estamos a arrumar a casa. Há aqui
muito material arqueológico que nem sequer devia estar aqui. O
Laboratório de Arqueociências [Larq], por exemplo, não devia ter aqui
nada. Estamos neste momento a fazer obras num edifício na Ajuda para
lhes dar instalações condignas. E com Xabregas vamos resolver um
problema que se arrasta há dez anos. Se somos perfeitos? Não, não
somos, mas não estamos parados.”

O tempo dirá se os prazos de execução da mudança são cumpridos e se o
“centro de referência” para a arqueologia subaquática que deverá
nascer em Xabregas é mais do que um projecto bem-intencionado.




PATRIMÓNIO

Uma reserva debaixo de água

Sesimbra poderá vir a ter um parque de âncoras e canhões subaquático.
Projecto está ainda no papel.

LUCINDA CANELAS
11 de Outubro de 2017, 7:38


Entre os muitos materiais que estão hoje no MARL há âncoras e peças de
artilharia de grandes dimensões que deverão regressar ao fundo do mar.
Em colaboração com a autarquia, e também com escolas de mergulho,
associações de pescadores e o Parque Natural da Arrábida, a equipa do
CNANS está a trabalhar na criação de uma reserva subaquática visitável
em Sesimbra. “A ideia é mostrar que a arqueologia não é um exclusivo
do Estado e das universidades, dos investigadores, dos museus”, diz
Pedro Barros, arqueólogo da DGPC. “A sociedade civil, o turismo, podem
ter aqui um papel muito importante na aproximação das pessoas ao
património, na sensibilização.”

Criar esta reserva visitável traz também vantagens para a preservação
destes bens, já que fora de água os processos para atrasar a sua
degradação são demorados e dispendiosos, acrescenta o técnico de
conservação José António Gonçalves.

A diferença entre uma reserva visitável como a que está prevista para
Sesimbra e os naufrágios que integram o roteiro subaquático dos
Açores, explica Barros, é que na primeira as peças são ali depositadas
propositadamente e continuarão a ser monitorizadas e protegidas. “Não
vamos abandonar as peças mergulhadas e vamos criar conteúdos para que
as pessoas aprendam com elas.”


https://www.publico.pt/2017/10/11/culturaipsilon/noticia/dentro-de-um-ano-havera-em-xabregas-um-centro-de-referencia-para-a-arqueologia-nautica-1788378?page=/&pos=8&b=feature_b





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