Por considerar importante - pelo que compromete o Estado no domínio da protecção do Património Cultural Subaquático - aqui deixo o discurso proferido a 19 de Julho pelo Primeiro Ministro, aquando da cerimónia evocativa do afundamento do caça-minas "Roberto Ivens":
"Senhor Ministro da Defesa Nacional
Senhor Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas
Senhora Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Senhor Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada
Senhores Presidentes das Câmaras Municipais de Almada e de Cascais
Demais oficiais, sargentos e praças da Armada
Familiares dos militares aqui falecidos há cem anos
Minhas senhoras e meus senhores
Render homenagem aos que perderam a vida combatendo ao serviço do País é um imperativo do Estado e é um dever cívico.
Desde há milénios que os povos compreenderam a importância da exaltação dos seus combatentes, não só porque entendem ser justiça destacar a entrega total de alguns em prol do bem colectivo, mas também pelo o que a sua imolação representa na construção de uma identidade própria que os distingue dos demais.
É, pois, por dever institucional e com profundo respeito pessoal que presido a esta singela mas pungente cerimónia, evocativa do afundamento do caça Minas “Roberto Ivens”, ocorrido há 100 anos, em que pereceram 15 dos seus 22 elementos da sua guarnição.
Embora a maioria dos relatos históricos da Primeira Grande Guerra tenha o seu principal enfoque nos dramáticos acontecimentos em terra, e que a chamada guerra das trincheiras é dos seus elementos mais presentes, dando lugar de destaque ao Exército, para quem já pude invocar bem recentemente em La Coture e no cemitério de Richebourg, a verdade é que a guerra no mar e o trabalho da Marinha e da Armada portuguesa foi igualmente recheado de episódios dolorosos, muito devido à emergência da arma submarina e ao emprego de minas marítimas destinadas a bloquear os portos.
Uma e outra tidas então por armas infames e traiçoeiras porque invisíveis aos olhos dos opositores e porque a sua cegueira destruidora não fazia distinção entre a navegação militar e a navegação mercante. Foram deste modo afundados 10.000 navios durante a Primeira Grande Guerra Mundial. Só na zona do porto de Lisboa terão sido colocadas cerca de 100 minas. Na ausência de unidades navais dedicadas, Portugal, a exemplo de outros países, requisitou a empresas pesqueiras nove arrastões, adaptando-os para missões de protecção e rocega das minas.
Essas missões eram difíceis e de grande risco, agravadas pelas fortes correntes marinhas no local, requerendo grande atenção e perícia das guarnições, mas também uma grande dose de coragem e determinação e, sobretudo, um profundo sentido patriótico do dever. Virar a cara ao perigo, camuflado no fundo do mar, mas a presença incessante era dar campo à disrupção do tráfego marítimo de pessoas e bens e era pôr em causa o abastecimento de Lisboa e do conjunto do país, incluindo as suas colónias.
Foi neste contexto que o antigo arrastão “Lordelo”, adaptado a caça minas com uma guarnição militar, realizou a sua derradeira missão no dia 26 de Julho de 1917.
A explosão e o efeito da colisão com uma mina partiu o navio ao meio, que afundou num ápice. Levou consigo 15 vidas, cujas famílias nunca puderam verdadeiramente fazer o seu luto. É assim como os que na guerra morrem no mar, não têm lápides nem epitáfios, mas o seu luto persiste, teimosamente, no pensamento das famílias, que vão passando o testemunho de geração em geração, assim formando também a nossa memória coletiva.
Por isso aqui estamos hoje, acompanhados por alguns dos familiares que felizmente se encontram entre nós, destes desditosos marinheiros que para isso se uniram os esforços de investigadores e técnicos, da academia, da Marinha e do Instituto de História Contemporânea numa realização oportuna, e bem sucedida, que permitiu identificar a verdadeira localização dos destroços do “Roberto Ivens”. Podemos, finalmente, prestar de perto a homenagem devida aos que aqui pereceram no cumprimento do dever e podemos finalmente dedicar-lhes a nossa gratidão e o pensamento aos que aqui jazem.
Há ainda um longo caminho a percorrer na salvaguarda do nosso património histórico, que jaze no fundo do mar, com a adoção pela UNESCO da Convenção para a Protecção do Património Cultural Subaquático, retificada por Portugal em 2006, foram estabelecidos os princípios enformadores da preservação deste património.
Ao Estado, cabe agora a responsabilidade por agir e encontrar os mecanismos de cooperação e as parcerias indispensáveis para satisfazer este desiderato. Desde logo, mapear com exactidão os vestígios arqueológicos de que há conhecimento e determinar o seu estado de conservação.
Não será possível a preservação de todos, alguns já não serão sequer identificáveis. Mas há que não regatear esforços para, na medida do possível, prevenir os efeitos das ameaças que impendem sobre estas riquezas históricas, desde logo a degradação natural dos materiais e a decorrente atividade humana, a atuação de caçadores de relíquias e a proveniente de grandes quantidades de munições e armas desactivadas.
Para além disso, importa recalcular a dimensão humana presente na memória na maioria dos destroços de navios naufragados e evitando a prática de comportamentos indignos da memória dos que com eles se afundaram.Creio que com este exemplo, com o esforço da nossa Marinha, com o esforço da nossa academia, com o esforço e o engenho de investigadores como o Dr. Paulo Costa, temos boas condições para podermos estar confiantes de que saberemos no futuro desempenhar esta missão.
Cumprem-se 100 anos deste momento trágico, deste passado histórico profusamente preenchido por feitos heroicos que contribuíram para a fundação e manutenção da nacionalidade portuguesa.
É nosso dever, é nossa obrigação não permitir, que sobre eles alguma vez, desça o manto do esquecimento.
Cem anos volvidos, não estamos em guerra mas em paz. A Alemanha não é nossa inimiga, mas nossa aliada. Juntos, partilhamos na União Europeia uma Europa de paz e de prosperidade mas, como há cem anos, como desde a fundação da nossa nacionalidade, as nossas Forças Armadas aqui continuam e, como sempre, assegurando a independência e integridade do território nacional.
A honrar a memória daqueles que pereceram ao serviço da pátria, elogiamos aqueles que hoje continuam a servir a nossa nação.
Obrigado"
https://www.youtube.com/watch?v=-dfC28nau-o&t=421s