[Archport] a língua portuguesa como património
Title: a língua portuguesa como
património
Ângelo
Cristóvão da Associação da Amizade Galiza-Portugal
escreveu:
Date: Tue, 09 Oct
2007 22:31:39 -0000
Subject: [dialogos_lusofonos] Evanildo Bechara e Malaca Casteleiro em
Santiago
Caros, reproduzo a
nota de imprensa (relatório) que resume o evento da Segunda-feira 8
de Outubro, em Santiago, com os académicos Evanildo Bechara e Malaca
Casteleiro. O texto está redigido com alguns galeguismos de uso
corrente no português da Galiza, e que os leitores atentos
perceberão.
TÍTULO:
Os professores
Evanildo Bechara e Malaca Casteleiro em Compostela, 8 de Outubro de
2007, em apoio da integração da Galiza na lusofonia.
TEXTO:
O primeiro acto
público da Comissão Promotora da Academia Galega da Língua
Portuguesa decorreu no salão de actos da Faculdade de Filologia
(Letras) da Universidade de Santiago de Compostela (Galiza, Europa).O
evento foi apresentado polo catedrático de língua portuguesa da
Universidade de Santiago e Presidente da Comissão Linguística da
AGAL, José Luís Rodrigues, que numas breves palavras soube
desenhar a essência do acto a realizar.
O Professor da
Universidade de Vigo e porta-voz da Comissão Promotora da Academia
Galega da Língua Portuguesa, Martinho Montero Santalha, fez
um
fermoso e breve
pormenor biográfico do professor Evanildo Bechara, da Academia
Brasileira de Letras, em que ocupa actualmente a função de
Tesoureiro, e repassou a sua importante obra com um especial destaque
para a sua Moderna Gramática Portuguesa, que já regista a 37
edição, revista e ampliada.
O Professor Bechara
tratou na sua intervenção dous interessantíssimos assuntos: a
história da Academia Brasileira das letras, fundada no ano 1886 no
Rio de Janeiro, e que teve de primeiro Presidente Machado de Assis até
ao seu falecimento em 1908.
Falou também do
conteúdo dos estatutos, citando o Artigo 1º, referido ao
"cultivo da língua e literatura nacional", onde o singular
de nacional faz referência à literatura brasileira, pois a
língua, para a ABL, é uma só. Falou-nos também do papel de
António Morais Silva, o seu dicionário e a relação com a ABL;
dos objectivos actuais da ABL e da disponibilização de recursos;
sua composição, os trabalhos que nela se fazem, e da
incorporação da componente linguística e filológica em anos
recentes.
Passou logo o
académico brasileiro a falar dos problemas do Acordo Ortográfico, e
fez um repasso das distintas tentativas de chegar a um consenso entre
o Brasil e Portugal. Expus uma opinião sobre a parte mais
problemática do acordo de 1990: a pretensão fazer um modelo de
acentuação com base na fonologia, sob o princípio de que a
escrita corresponda à fala; sugeriu como solução ideal a
redução dos acentos muito significativamente, mas não como
proposta a realizar de imediato. Disse o professor que o português
tem em toda a parte uma mesma morfossintaxe, e mais dum noventa por
cento de coincidência. Infelizmente, com menos do dez por cento de
discrepância fonológica, fazemos grandes problemas. Ele proporia,
como ideal, começar de novo a discutir o acordo ortográfico
partindo de bases novas, pois só pode haver unidade da escrita se
esta for repensada sob outros critérios.
Por último,
salientou a importância de conceber a Lusofonia como uma unidade na
diversidade. Anunciou que vai propor à Academia Brasileira de Letras
um alargamento a toda a lusofonia, e defendeu a necessidade de essa
instituição prestar uma maior atenção à Galiza.
A Catedrática da
Universidade de Vigo Maria do Carmo Henriquez Salido fez a
apresentação do professor Malaca Casteleiro, da Academia de
Ciências de Lisboa, assinalando a sua importância no campo da
lexicografia e na elaboração do dicionário da ACL, que tão
útil está a ser para os seus trabalhos no âmbito da linguagem
jurídica, que é, aliás, um dicionário com "exemplos
vivos". Lembrou a sua relação pessoal com Casteleiro, um
"firme e ferrenho defensor da unidade da
língua".
Começou o
professor Malaca agradecendo o convite da organização. Assinalou
conceitos indicados por Bechara, afirmando que: "temos que ser
políglotas dentro da própria língua", e sabermos inserir a
diversidade na unidade. Logo as palavras do professor mergulharam-nos
em dous projectos lexicográficos nada contrários entre si, mas
complementares: o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa,
com 70.000 unidades lexicais, no que se recolhe a língua portuguesa
dos séculos XIX e XX e no que se incorporam Brasileirismos,
africanismos e asiatismos. Por outro lado o dicionário Houaiss, com
218.000 unidades lexicais, onde se recolhe o português dos séculos
XVI a XX. Foi Casteleiro que dirigiu a equipa que preparou a
edição portuguesa deste dicionário, editada polo Círculo de
Leitores e da que já foram vendidos sessenta mil exemplares. Em 16
meses revisaram o dicionário na sua totalidade e até corrigiram
alguns erros que nele havia, mudanças serão incorporadas na
próxima edição brasileira.
Casteleiro delineou
a seguir uma história da Academia de Ciências de Lisboa e dos seus
dicionários ou tentativas de dicionários, e as peripécias da sua
génese. Como director da equipa realizadora do dicionário da ACL,
o atento e entusiasmado público ficou deliciosamente informado da
intra-história dessa publicação.
Lembrando que os
dicionários Houaiss e o da Academia partem de perspectivas
filosofias distintas, trata-se de duas excelentes obras nada
contraditórias entre si. Anunciou que no futuro vai haver nova
edição do dicionário e que os galeguismos poderiam também ser
incorporados. Também está em perspectiva a edição de um
dicionário abrangende dos séculos XVI a XVIII.
O académico da ACL
tratou a seguir o assunto do acordo ortográfico e os problemas que
enfrenta, ao ser a ortografia "um campo da soberania política"
no mundo lusófono. Manifestou-se bastante pessimista sobre a
possibilidade de o acordo vigorar em Portugal no curto prazo, e até
deu a entender os problemas isto poderia provocar. Casteleiro realizou
uma revisão da história dos acordos ortográficos, complementado
nalguns aspectos a magnífica exposição do professor
Bechara.
FIM DA NOTA DE IMPRENSA
Finalmente, posso
informar que já estamos trabalhando na edição do DVD do evento,
que estará disponível em Portugal e no Brasil através de
universidades.
Grato pola atenção,
Ângelo Cristóvão
"A proposta de
criação da Academia Galega da Língua Portuguesa defende que esta
exerça um papel de representação da lusofonia galega em
organismos como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa; que
tenha por valores fundamentais a investigação rigorosa, o fomento
da unidade da língua, a inserção da Galiza na Lusofonia e a
defesa dos direitos dos utentes"
Ângelo Cristovão,Secretário da Associação de Amizade
Galiza-Portugal