Prof. Vítor Oliveira Jorge,
Pergunta: “Museu da Gestualidade como?”. A resposta ao “como?” poderá ser dada nos vários planos que encerra. Desde o plano teórico aos planos conceptual, metodológico e prático. Em termos práticos o Museu da Gestualidade tem existência legal. Tem a definição de objectivos e de identidade. Tem definido o dito Programa Museológico. Possui um espólio/acervo de vários milhares de “documentos”. Tem parcerias com “instituições” e “pessoas”.
Respondo-lhe agora (para não exceder os bytes) apenas no plano prático. Mas a questão teórica e conceptual é mais interessante. Pois questiona o conceito de objecto em Museologia, e consequentemente o processo de trabalhar nos museus. SINOPSE: MUSEU DA GESTUALIDADE
O MUSEU DA GESTUALIDADE corresponde a um projecto de antropologia e de museologia, tendo por objecto “a investigação, a recolha e a divulgação da gestualidade humana, em particular aquela que for expressão da cultura portuguesa e do seu património” (Artigo 2º dos Estatutos).
A finalidade que subjaz a este projecto etno-museológico poderá ser resumida do seguinte modo:
1 - Ainda que vivida e apresentada como sendo “natural” a gestualidade constitui um produto cultural --- talvez mesmo um “artefacto” --- que encerra uma dimensão ritualizada, provavelmente transmitida de geração em geração pela aprendizagem. A gestualidade varia com o local, a idade, o género, o momento, a circunstância, o estatuto, o papel, a etnia, a época, a cultura, o poder e a ideologia. Constitui um dos principais instrumentos da construção cultural das “relações com o Outro”, sobretudo as trocadas nas interacções face-a-face no quotidiano. Naquelas onde o corpo dos indivíduos não pode deixar de estar presente, ou onde a imagem do corpo se torna imprescindível à relação e à comunicação.
2 - No percurso histórico de todas as sociedades existe um modo peculiar de se construírem as interacções sociais, sobretudo em situações de comunicação. Porém, só muito recentemente, se passou a ter um conhecimento sistemático sobre o sistema de modalidades gestuais (quinésico, táctil, proxémico, para-linguístico ou vestimentar) utilizado nessas situações interactivas e comunicativas. Esse sistema gestual exprime de modo objectivo o modo como cada sociedade entra em contacto consigo mesma e com o “exterior” de si própria. Mas, simultâneamente, constitui um modo de abordar a realidade que a perspectiva mais pela performance e pelo desempenho/acção em vez de a abordar intermediada pelo texto/escrita ou pela linguagem verbal.
Todavia, por detrás da sua aparente efemeridade, protegido pela frequência de uso, desvalorizado pela proximidade, esse processo social --- muito mais perene do que a percepção deixa entrever --- permanece um Património esquecido. E pouco investigado em Portugal de forma sistemática na sua significação antropológica.
A pertinência deste Projecto etno-museológico residirá, porventura, na enorme probabilidade de a sociedade portuguesa possuir um modo peculiar de “construir” as interacções que troca no quotidiano, sobretudo em situações de comunicação.
Essa etno-géstica, de primordial importância para o estabelecimento concreto das relações sociais, constitui o objecto deste Museu da Gestualidade. Ele permitirá, de um modo sistemático, que ela seja investigada, recolhida e documentada. Para posteriormente, poder ser preservada, divulgada e comunicada aos presentes e aos vindouros, como um Património da Cultura Portuguesa.
Muito Obrigado pelo diálogo, Professor Vítor Oliveira Jorge.
02/08/2007 Pedro Manuel Cardoso
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