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Assunto: Museologia e Gestualidade Diálogo com o Professor Vítor Oliveira Jorge
Na continuação da pergunta do Professor Vítor Oliveira Jorge de 2 de Agosto sobre “Museu da Gestualidade como?”, e do projecto museológico que o guia, permito-me colocar em debate as seguintes considerações:
1 — A operação de classificação e de categorização da gestualidade, para que seja possível alcançar um resultado sobre a sua identidade factual (para o “objecto” ser reconhecido como um “facto”), repousa – para o estado actual do que é reconhecido como conhecimento/saber/evidência – no paradigma ideológico da ciência.
Mas essa parte é a menos complexa do problema. Já que a parte da gestualidade que nos interessa musealizar será a que, por um lado, será visível e percebida do exterior (por parte dos indivíduos e das colectividades); e, por outro lado apenas aquela que se torne significativa do ponto de vista social e cultural. Portanto, uma gestualidade consciente e intencional, praticada pelos seres humanos em situação social, que lhes sirva de instrumento quer para comunicarem; quer para construírem, reproduzirem e ou manterem as relações sociais; quer ainda de instrumento para construírem as técnicas e os objectos. O “objecto” a musealizar seria esse Património. Não apenas o gesto fisiológico ou biomecânico, mas sobretudo as coreografias gestuais escolhidas por uma Cultura “para significar”, “para fabricar” e “para comunicar” (é por isso que escolhemos o significante “gestualidade” e não “gesto ou gestos”). Sendo por terem uma intenção consciente, possível de objectivar sociologicamente “fora” da subjectividade pessoal; e por terem uma “forma” e um “movimento” possíveis de objectivar espacialmente, também “de fora”, que justificariam a pretensão de poderem ser musealizáveis.
2 — Portanto, a parte mais complexa do problema é alcançar essa dimensão cultural e social da “identidade do objecto sujeito a musealização” (gestualidade). Sendo necessário para isso incluir as respostas dadas actualmente pela comunidade científica. Mas o projecto museológico, tal como o entendemos em Museologia, exige que essas “respostas” sejam dadas cumprindo um núcleo mínimo de três exigências:
3 — Para não tornar a mensagem muito extensa irei socorrer-me de um conjunto de interrogações que servirão para resumir de modo sintético e incompleto o projecto museológico do Museu da Gestualidade: --- Como teriam sido executados os gestos dos humanos no tempo Paleolítico e Neolítico? Poderíamos, em termos de inteligibilidade científica, aceitar o modelo filotécnico proposto por Sophie A. de Beaune (Beaune, 2000) para a percepção global da gestualidade humana nesses períodos? Certamente influenciada pela frase-chave funcionalista de A. Leroi-Gourhan, “o objecto só tem existência no gesto que o torna tecnicamente eficaz” (Leroi-Gourhan, 1965,1983) --- Poderíamos aceitar a comparação evolucionista proposta por Charles Darwin (1872, 1874) para as expressões do ser humano e dos outros animais ? Ou o percurso filogenético da função comunicativa e expressiva do corpo proposto por Michel Bernard (1986) ? Ou aceitar um fundo genético para as emoções básicas do ser humano, proposto por Irenaus Eibl-Eibesfeldt (1987), Paul Ekman e outros? --- Poderíamos aceitar a gestualidade de Giotto, proposta por Moshe Barasch (1990) ? --- E poderíamos aceitar o modelo da disciplina monástica proposto por Jean-Claude Schmitt (Schmitt, 1990) como modelo da percepção da gestualidade na Idade Média do Ocidente ? Tendo sido a definição de Hugues de Saint-Victor em 1130, no capítulo XII da obra De Institutione Novitiarum: «gestus est motus et figuratio membrorum corporis ad omne habendi et agendi modum», a primeira definição de “gestualidade” ocorrida na “cultura ocidental” ? Exactamente na acepção em que hoje a utilizamos por distinguir o motus e o figuratio de gestus (Schmit, 1990:177). --- Poderíamos aceitar que a laicização desse modelo monástico, operada pela aristocracia medieval (Schmitt, 1990), teria feito emergir um novo modelo gestual dominante no Antigo Regime. Primeiro o da cortesia, depois o da civilidade (Erasmo “Civilidade Pueril) e finalmente o da gentileza (Philipe Ariès, 1978 in Prefácio a Erasmo) ? --- Poderíamos aceitar que a influência destes modelos de configuração gestual dos comportamentos foram a estrutura básica que moldou o próprio “processo civilizacional”, como defende N. Elias (1990) ?. Tendo como referência empírica na sua investigação o estudo dos comportamentos gestuais na Corte de Luís XIV em França, numa fase de consolidação do poder absoluto e centralizador do Rei, na passagem do Antigo Regime para a Idade Moderna. --- Poderíamos aceitar a tese de Michel Focault (1975) ? De que esse modelo gestual seria outra vez substituído quando outra classe social conquistou o poder económico e político? Nomeadamente a Burguesia, no contexto do processo de centralização dos Estados-Nação. Em que vigiar “panopticamente” e punir “publicamente” constituiriam ferramentas essenciais para a concretização “invisível” de uma organização minuciosa da disciplina. E de toda a espécie de controlos (educativos, militares, desportivos e punitivos) sobre a gestualidade do corpo, que garantiriam o poder nessa “sociedade moderna”. No contexto da qual haveria de surgir o modelo de “hygiene e revigoramento do corpo” proposto, entre outros, por G. Vigarello (Vigarello, 1988) ?. --- Poderíamos aceitar a teorização da gestualidade humana proposta por R. Schechner (Schechner, 1989) para modelo ou paradigma da gestualidade das actuais sociedades informacionadas, televisionadas e globalizadas? E outra vez uma laicização, agora operada pela ideologia democrática e pelo cientismo? --- Poderíamos aceitar a perspectiva biomecânica da gestualidade, que tenta estabelecer uma ligação entre a termodinâmica e a bioenergética, através de entidades conceptuais como o rendimento e a potência ? Definindo-a como “a ciência que examina as forças internas e externas que actuam sobre o corpo humano e os efeitos que elas produzem” (Hay, 1978:3) ? Ou, numa perspectiva mais abrangente do que a humana, como “a ciência que examina as forças que actuam sobre e no interior de uma estrutura biológica e os efeitos produzidos por essas forças.” (Nigg, 1994:29) ? Entendendo o organismo biológico humano como um sistema termodinâmico, e a gestualidade como uma optimização energética face a uma eficiência adaptativa bio-socio-cultural (Hudson, 1991:3-6) ? --- Poderíamos, para explicar este “objecto” aceitar a hipótese da origem mimética da linguagem, proposta por Merlin Donald, e apresentada por W. Noble e L. Davidson em 1996 ? Ou a hipótese da origem gestual da linguagem, proposta por Michael Corballis (2001) ? Ou a hipótese de um “instinto de linguagem”, proposto por Steven Pinker (1994) ? Ou a hipótese de síntese entre a tese culturalista e inatista, proposta por Terrence Deacon (1997) ? Ou a tese iconicista de Ch. Cuxac (2001) ?
4 — O Visitante de um museu poderia perguntar onde estaria arquivada (ou musealizada), de forma objectiva e re-verificável, a parte gestual dos artefactos, dos objectos e das construções humanas dessas épocas e dessas teorias. E questionar-se acerca da identidade factual desse “objecto”. Poderia perguntar, por exemplo, baseando-se numa epistemologia das ciências, ou num “regime de prova”, no qual a validade científica resulta da possibilidade de se poderem re-verificar e de re-experimentar os resultados (Dortier, 1998:18), que registos e que tipos de descrições dessa gestualidade disporiam os museus, para confirmar a percepção que aqueles autores nos tinham dado dela? Que qualidade científica teriam as descrições dos comportamentos humanos, apenas baseadas nas palavras escritas ou na oralidade? Por exemplo quando lesse, num painel no espaço expositivo, a seguinte frase: “(...) a cultura do Antigo Regime era uma cultura “mestiça”, resultante das permutas entre a oralidade e a escrita” (Ariès 1978:20). Ou, “os vestígios da cultura oral, ainda vivos no Séc. XIX, foram apagados” (Ariès, 1978:20). Ou, quando analisasse a maioria dos trabalhos dos etnólogos sobre os comportamentos nas “sociedades sem escrita”, dando porventura razão à crítica etnológica feita por Favret-Saada (1977:54) ? Serviriam esforços como o de Franz Boas na imitação e na reprodução teatralizada, por ele próprio, das danças dos caçadores Kwakiult, enquanto conservador do Museu Americano de História Natural (Teixido, 2003:45) ?
5 — Na maioria desses registos o Visitante provavelmente constataria a fragilidade da base descritiva dos comportamentos a que se referiam. A grande maioria desses resultados não lhe forneceriam uma base suficientemente credível, em termos científicos, para conseguir re-verificar as descrições da gestualidade associadas à parte “dura” dos objectos que pretendia visitar. Poderia então questionar-se sobre a factualidade e a credibilidade da evidência possíveis de alcançar para esses “objectos”. Poderia perguntar qual seria, de facto, a percepção possível de alcançar, sendo o objecto a musealizar um gesto, ou uma coreografia de gestos, cuja materialização ou a “colecção”, simultaneamente da forma e do movimento, apenas podia ser captada através da gravação num suporte. Um “objecto” que ocorria num espaço que se desfazia e refazia à velocidade da dinâmica e da efemeridade das próprias práticas quotidianas, como nas doze categorias gestuais que mencionámos num trabalho anterior e que não importa referir agora. Como poderiam ser reconstituídas pelo museu, tal e qual como ocorreram ?. Qual seria o espaço e o tempo desses actos humanos? Onde teriam sido ? Onde estariam agora? Quanto tempo teriam demorado ? Como se poderia, por exemplo, aceder à compreensão da “cultura portuguesa” se a opinião de Vitorino Magalhães Godinho (1985) estivesse correcta ao afirmar, “Portanto, vamo-nos dirigir a um povo cujas formas de criação passam quase sempre mais pela oralidade e a gestualidade do que pela mensagem escrita e pela leitura” (1985:8) ?.
6 — E aí o Visitante poderia compreender que o estatuto de “facto”, que este Museu da Gestualidade lhe oferecia para o “objecto”, constituía uma “construção” não isenta de variabilidade. Que esse objecto museológico não poderia ser senão um “objecto construído”.
7 — Mas, poderia agora abandonar esse exemplo, tentando fazer as mesmas perguntas a outros tipos de “objectos” e de património que outros museus lhe ofereciam para visitar. E a primeira pergunta talvez fosse a seguinte: --- Se, “(...) l’outil n’est réellement que dans le geste qui le rend techniquement efficace.” (Leroi-Gourhan, 1965:35), como vi na expografia do Museu da Gestualidade, então onde está a gestualidade nos “objectos” dos outros museus ? Compreenderia, deste modo, que faltaria pelo menos um porção de 50 % aos “objectos” que iria visitar nesses outros museus. Que esses outros objectos eram só meia parte do “objecto”. Objectos que sempre vira como sendo a totalidade do “objecto” que via. O que forçosamente o levaria a concluir que, também nesses museus, o objecto museológico era “construído”. Porque o fora com essa exclusão, apesar de, depois de ter consciência disso, achar porventura que nunca o deveriam ter sido.
Esta é uma outra parte da resposta sobre o Museu da Gestualidade.
Obrigado.
23/08/2007 Pedro Manuel Cardoso
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