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[Museum] Perder o Património de Portugal? Ética e Património segundo Hugues de Varine.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Perder o Património de Portugal? Ética e Património segundo Hugues de Varine.
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Mon, 17 Sep 2007 16:24:59 +0100

Assunto: Perder o Património de Portugal? Ética e Património segundo Hugues de Varine. Ou, outra vez o estado da relação entre a Museologia e o Património que referimos em 20/08/2007. Ou ainda, a responsabilidade pela perda do Património — que identifica para os presentes e vindouros Portugal — a propósito de mais uma visita de Hugues de Varine a Portugal.

1 – Em 2005, Hugues de Varine escreveu: — “Depuis plus longtemps encore, les pays qui ont perdu, pour diverses raisons (guerres, vols, trafics, ignorance, pauvreté des paysans, convoitise des collectionneurs), des témoins importants, voire des pans entiers de leur patrimoine national, chercent à juste titre à les récupérer, d’autant qu’ils peuvent s’en occuper eux-mêmes, ayant développé des politiques du patrimoine efficaces. Mais depuis toujours, les riches volent les pauvres, les conquérants emportent le butin pris aux vaincus, les pauvres survivent en vendant ce qu’ils peuvent, et pourquoi pas des pièces archéologiques qui ne leur coûtent rien. On porrait donc dire que les efforts de l’UNESCO, de l’ICOM et des professionnels les plus responsables du monde muséal sont et seront toujours infructueux, que les biens culturels les plus précieux circuleront toujours à sens unique et finiront dans des collections «inaliénables», ce qui est un alibi commode pour ne jamais les rendre à leurs propriétaires culturellement légitimes.” (Hugues de Varine, “La décolonisation de la muséologie”, Les Nouvelles de L’ICOM n.º 3/2005, pág. 3).

De quem seria a responsabilidade pela perda do Património que identifica Portugal para os presentes e vindouros? Qual a consequência se ocorresse a perda? Com que responsabilidade se corre o risco, utilizando o “Índice de Avaliação do Trabalho Museológico” (ITM)? Qual a informação dada aos portugueses desse risco para cada objecto patrimonial itinerado tendo por referência esse Índice ITM?

2 – Em 20 de Agosto de 2007 na Lista Museum propusemos o seguinteÍndice de avaliação do trabalho museológico para cada objecto patrimonial”:

ITM =ƒ { IP . ID . IC }

                   C.T + C.R

ITM – Índice da avaliação do trabalho museológico para cada objecto patrimonial.

IP – Índice de Preservação.

ID – Índice de Documentação.

IC – Índice de Comunicação.

C.T – Coeficiente de transmissão.

C.R – Coeficiente de restituição/reconstituição.

E escrevemos: — Se amanhã soubéssemos que ocorria um sismo que destruiria alguns dos bens culturais que identificam e afirmam a Cultura Portuguesa, em que estado estavam neste momento os objectos museológicos correspondentes a cada um desses objectos patrimoniais?

Tinham lá o modo (as instruções) que permitiam a outros reconstituir e restituir o objecto patrimonial? Apesar das inúmeras visitas, das inúmeras exposições, das inúmeras intervenções preventivas e curativas, das fotografias, das fichas de inventário, etc. o objecto museológico era suficiente para não permitir a perda do Património para os presentes e para os vindouros?

3 – No sentido do que Hugues de Varine escreveu em 2005 não será legítimo perguntar?: — A parte que levamos para fora do País é igual à parte que as actuais grandes potências culturais trazem para Portugal? Em caso de perda, e relativamente aos bens mais preciosos e exclusivos, o que sobrava era equivalente entre quem troca?

4 – Não haverá um outro modelo e outras alternativas para comunicar e divulgar o Património sem o sujeitar a este risco máximo? A política museológica e patrimonial, no contexto da actual ciência e tecnologia, não terá ao seu dispor as necessárias ferramentas (nanotecnologia, maquetagem, modelação e simulação, física da reconstituição, etc.) para adoptar outro caminho e outra táctica? A questão do original e da cópia é um debate museológico do séc. XIX, mas o turismo que traz pessoas, bens e divisas aos “originais” não é necessário nem aconselhável que seja feito com os originais de que não há substitutos “lá”, porque desse modo quem já viu os originais não virá “cá” ver o que já “lá” viu.

5 – A política museológica e patrimonial não deveria reflectir sobre o “modelo pelo qual se comunica o Património” num presente e num futuro onde a competição globalizada entre os países se fará no contexto de uma fortíssima concorrência comunicacional? Quanto cada modelo — “o que se está a utilizar” vs. “o que se podia utilizar em alternativa” — é mais eficiente e eficaz a ganhar recursos, divisas e prestígio para a marca Portugal? Em que medida os perigos de perda referidos por Hugues de Varine não se revestem de outras vestes e disfarces na actualidade face aos avanços tecnológicos e científicos?

6 – Será desprezível o Índice de avaliação do trabalho museológico para cada objecto patrimonial” para conseguirmos — Todos — consensualizar e partilhar a responsabilidade social da divulgação e da itinerância do Património que os nossos antepassados nos legaram? Não é necessário iniciar uma nova etapa na reforma do trabalho e da política museológica e patrimonial para que este objectivo seja alcançado? Sobretudo num presente e num futuro onde a competição globalizada entre os países se fará no contexto de uma fortíssima concorrência comunicacional?

Será legítima a questão assim lançada para o debate? Ou não? Estarei a colocar as coisas de modo errado?

17/09/2007

Pedro Manuel Cardoso

 

 


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