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[Museum] Gestão Museológica do Património hoje

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Gestão Museológica do Património hoje
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Wed, 26 Sep 2007 10:44:24 +0100

Assunto: Desafios da Gestão Museológica do Património

 

Quando se exige aos museus que sigam um determinado tipo de Desenvolvimento, talvez se torne necessário proceder a uma análise cuidada. Preferencialmente sustentada por uma abordagem mais científica do que moral, sobre a relação entre o Desenvolvimento e a Museologia. Cyril Simard em 1989 apresentaria um interessante resumo do paradigma de várias lógicas do trabalho museológico.

 

Essa análise comparativa talvez ajude a recuperar a noção de desenvolvimento museal como um caminho autónomo. Não como a defesa de uma determinada opção ou visão particular. Mas o de uma Museologia concebida como uma nova estratégia de intervenção humana, que integra diferentes tipos de procedimentos de gestão para os bens e valores patrimoniais. Permitindo perspectivar a adopção de várias metodologias consoante as características do património a musealizar, e consoante as situações contextuais de cada sociedade onde esses bens patrimoniais se encontrem.

 

Alguns exemplos poderão ilustrar esta perspectiva. Num contexto social desenvolvido, onde o principal factor de desenvolvimento tivesse sido a dinâmica autárquica e a afirmação das identidades regionais e/ou municipais, seria natural aceitar que a estratégia de gestão dos bens e valores patrimoniais mais adequada pudesse ser a preconizada pela “nova museologia” e pelo “desenvolvimento sustentável”. Nesse contexto faria sentido promover a “iniciativa e participação comunitária” a partir dos recursos musealizados pela comunidade, adoptando-se um procedimento museológico mais liberal e participativo. Não sendo prejudicial para o património transformá-lo em instrumento directo do desenvolvimento geral (educação não-formal, turismo, reafirmação da identidade local, etc.). Todavia, bastaria que um desses “novos museus” ou “ecomuseus” recebesse inesperadamente uma colecção de renome mundial, ou descobrisse restos fossilizados de uma espécie única a nível mundial, para que os procedimentos de gestão museológica tivessem que mudar. Por exemplo em relação aos que se utilizavam habitualmente com “os moinhos de maré”, ou com os “vestígios arqueológicos a céu aberto” (casos de Machu Pichu, Partenón, Lascaux, etc.). E bastaria também que uma mudança social exógena (a construção de um aeroporto internacional, de uma auto-estrada, a construção de um grande empreendimento industrial e turístico, a alteração da posição geo-estratégica, etc.) transformasse uma pequena vila numa grande urbe, para que os valores de identificação e de representação social dos habitantes passassem a rever-se não apenas num “ecomuseu” ou num “economuseu”. Mas certamente num museu de âmbito nacional ou/e internacional, com procedimentos de gestão museológica mais tradicionais e conservadores, que exigiriam a aquisição de bens patrimoniais não originados na comunidade. O museólogo/a talvez pudesse dar-se ao luxo de pensar que nada nessa mudança exógena o obrigaria a modificar a sua intervenção programática. Que, em nome do que pensava ou defendia, podia continuar a pensar e a defender a sua museologia. Mas duvidamos que as populações, chamadas a participar, não quisessem transformar-se noutra coisa mais “glocal”. Serem aquilo que é próprio da humanidade: ― o desejo e a liberdade de não se ser sempre aquilo que se é, ou se foi. Na actualidade o desenvolvimento, sobretudo o dito “sustentável”, provavelmente será mais uma dessas tentativas ideológicas para se alcançar esse desejo de transformação. E é por essa razão que a Museologia deve estar alerta, na defesa da ética e do estatuto da sua profissão.

 

Os objectivos do desenvolvimento museal poderiam entrar outra vez em confronto e contradição com os objectivos que caracterizam o desenvolvimento geral, em caso de guerra ou de conflito armado. Como foi possível aliás observar na última década do século XX na ex-Jugoslávia, onde existia até património classificado pela UNESCO de interesse mundial (Saravejo). Ou, outra vez, em 12 de Abril de 2003, após os bombardeamentos do exército anglo-americano em Bagdad, ao assistimos em directo pela televisão à tentativa de pilhagem do Museu Nacional do Iraque, ameaçando “objectos” que testemunhavam os primórdios da civilização humana. Se o programa e a filosofia de desenvolvimento museal coincidissem apenas com as do “desenvolvimento geral”, o/a museólogo/a seria impedido de adoptar outra estratégia de gestão dos bens e valores patrimoniais que não fosse a propagandeada por esse tipo particular de “desenvolvimento”. Ora esse fechamento programático, preconizado explicitamente pelo ICOM desde a Conferência de 1998 em Melbourne (ver Programa e Conclusões), e expresso nas últimas conferências internacionais, juntamente com a tentativa de uniformizar toda a filosofia do trabalho museológico com base no desenvolvimento sustentável, pura e simplesmente não faria sentido. E seria mesmo prejudicial naquele contexto social. Em casos como aquele, um procedimento de gestão museológica mais conservador, até mesmo a restrição do acesso ao património, talvez contribuísse melhor para o desenvolvimento museal do que um procedimento baseado e decalcado das características do desenvolvimento geral. O que justificará, porventura, continuarmos a manter a distinção entre ambos os conceitos de Desenvolvimento. E continuarmos também a manter um olhar crítico, perante a actual tendência para desvalorizar o objecto e as funções tradicionais do museu. Em nome muitas vezes de noções vagas e de entusiasmos militantes, nos quais o património é considerado um mero instrumento de uma manipulação hedonista decidida pelos presentes.

 

Em suma, poderíamos colocar em debate se a formação e os curricula em Museologia, no domínio da Gestão, não deveriam preparar os futuros profissionais para estes vários tipos de procedimentos de gestão dos bens e valores patrimoniais?

 

26/09/2007

Pedro Manuel Cardoso

 


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