|
ASSUNTO A relação da Museologia com o Espaço e a Arquitectura: ― O Princípio da Dupla Responsabilidade pelo Espaço em Museologia.
INTRODUÇÂO Com o que decorre actualmente em Lisboa já são dois os Actos. Os actos de afirmação pública da arquitectura sobre a museologia neste início do século XXI. Para além das exposições e conferências que deles fizeram parte houveram as respectivas itinerâncias internacionais, todas com a mesma proveniência helvética, de Suzanne Greub e Thierry Greub, patrocinados pelo Art Centre Basel. Passaram por Portugal em 2001, no Centro Cultural de Belém, e agora na Culturgest até ao dia 3 de Fevereiro de 2008. Foram publicados dois livros que podem ser lidos em edições da Prestel em língua portuguesa, respectivamente “Museus para o Novo Milénio, Conceitos-Projectos-Edifícios” (ISBN 3-7913-2353-9) e “Museus do século XXI, Conceitos-Projectos-Edifícios” (ISBN 978-7913-6111-6). Assistimos aos dois. São actos, sem dúvida, muito poderosos e sedutores.
DISCUSSÃO Perante este acontecimento qual foi a reacção dos museólogos em Portugal? Perante a completa ausência de uma perspectiva museológica nas decisões sobre a quase totalidade desses museus (conceitos, projectos e edifícios) ali apresentados, qual foi a reacção dos museólogos em Portugal? Perante a subordinação, sem diálogo nem compromisso, da museologia (i.e, do projecto e da orientação museológica) à arquitectura, qual foi a reacção dos museólogos em Portugal? Perante a colocação do “programa museológico” apenas como uma tarefa de “indicação da tipologia dos espaços e do percurso”, qual foi a reacção dos museólogos em Portugal? Compreendemos que os “donos-das-obras” e os arquitectos troquem os cheques sem necessitarem da intermediação dos museólogos. Sabemos que, perante o seu status social e económico, nada os impede de afastarem dos museus os museólogos e a museologia. Mas a responsabilidade que nos parece estar a ser subvertida com este comportamento, não são esses aspectos relativos ao poder económico ou à vaidade corporativa do status (uma obra para ficar sobretudo no portofolio ou no catálogo de uma carreira). O que está a ser subvertido é a responsabilidade social pela Cultura e pelo direito às decisões que as comunidades deviam ter sobre ela num contexto de Cidadania e Democracia. Na Polis da Cultura não devíamos poder ser todos atenienses? E essa cidadania não terá apenas sustentabilidade a longo prazo se não for apenas um privilégio dos mais poderosos? É para garantir esse acesso aos bens culturais e patrimoniais que a museologia serve. Para não deixar subverter a finalidade museológica dos “projectos chamados museus”, sobretudos aqueles que são pagos com terrenos e espaços públicos e/ou com o dinheiro dos contribuintes.
O PROBLEMA O que está em causa aqui é a relação da Museologia com o Espaço e a Arquitectura. Permitam-me afirmar o seguinte: ― O Espaço não tem donos nem proprietários que não sejam a legitimidade pública de todos os cidadãos. A permissão legal para desenhar os desenhos técnicos que permitem as construções foi dada, num determinado período histórico, pelo Estado, a um grupo de profissionais designados por “arquitectos”. São duas responsabilidades e dois territórios muito diferentes. Essa permissão legal não cobre nem inviabiliza as decisões sobre a forma, o conteúdo e o usufruto do Espaço. Muito menos o deve ser em Cultura, quando as decisões se referem aos bens patrimoniais e aos museus. Que têm a ver, como dizem, com a identidade e a afirmação colectiva dos Povos. Para este debate, e para se procurar as fontes do conhecimento que nos permitem falar em termos técnicos e científicos sobre o Espaço, sugiro que nos coloquemos no patamar dos conhecimentos actualmente disponíveis sobre a sua realidade física, matemática e filosófica. E depois façamos a comparação antropológica e etnográfica dos tipos, formas e modos de produção e reprodução do Espaço entre as sociedades humanas desde o Paleolítico. Poderíamos assim perceber melhor quem foram os autores e os decisores sobre aquilo que o Espaço era, foi e é. E com isso, neste debate, talvez encontrar a proporção certa para a harmonia de responsabilidades que deve existir ― e que defendemos que haja para benefício mútuo ― entre a museologia e a arquitectura na actualidade.
CONTRIBUTO PARA UMA SOLUÇÃO Permitam-me apresentar uma proposta. Também na passagem do penúltimo para o último século, quando houve um conflito fratricida sobre “o lugar dos objectos nos museus” se propôs um Princípio como orientação museológica geral para esse problema. A proposta que sugiro é do mesmo tipo lógico: ― Que se adopte como orientação museológica geral, para a relação da Museologia com o Espaço e a Arquitectura, o “Princípio da Dupla Responsabilidade pelo Espaço em Museologia”. Em termos simplificados, em que consistiria este Princípio? Que o “exterior” e a “infra-estrutura” sejam da responsabilidade de um autor por arquitectura. E que o “interior” (conteúdos, mensagens, percursos, exposições, etc.) seja da responsabilidade das sucessivas decisões dos museólogos e das sucessivas arquitecturas dos sucessivos arquitectos durante o resto de toda a história do museu. Que não possa haver ― por princípio geral de orientação da museologia ― um condicionamento do “exterior” (arquitectura) sobre o “interior” (museologia) como aquele que as duas edições da Prestel defendem. Refiro-me ao condicionamento que, com bonitas frases como “modéstia clássica”, “nova transparência”, “novas missões”, “novo simbolismo” e “nova referência ao corpo”, Thierry Greub pretende que seja a “nova” relação da arquitectura com a museologia para o século XXI.
CONCLUINDO Em suma esta nossa proposta ― que poderíamos também tornar mais espalhafatosa dizendo dela que seria um “Manifesto para um princípio da dupla responsabilidade pelo espaço nos museus” ― seria o contra-argumento e a acção prática que contraporíamos a este saudável “ataque” da arquitectura à museologia, patente nas exposições e conferências promovidas por Suzanne Greub e Thierry Greub, e patrocinados pelo Art Centre Basel, que já duas vezes nos visitam.
Pedro Manuel Cardoso 08/01/2008
|
| Mensagem anterior por data: [Museum] Arte & ciência em Família - Visitas-oficina no MNAA | Próxima mensagem por data: [Museum] Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria, Carregal do Sal - Exposição Temporária de Escultura "Os Matarrachos" de Sérgio Amaral |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] “O QUE SE PASSA COM O JARDIM BOTÂNICO?” | Próxima mensagem por assunto: [Museum] Em S. Brás de Alportel - Coro na igreja e... fado no museu! |