[Museum] Ainda a propósito do Museu dos Coches
Caros Colegas e Amigos:
Na sequência do recente apelo que fiz à Comunidade Museológica para
que se mobilizasse em torno da projectada desinstalação do Museu dos
Coches edifício histórico em que se encontra instalada desde 1905,
para aí instalar a Escola Portuguesa de Arte Equestre, quero, antes de
mais registar com agrado as escassas, mas significativas, reacções que
recebi, a maior parte das quais veiculadas de forma privada, como a
delicadeza do assunto requere. Essas reacções permitiram-me também
fazer uma avaliação menos emotiva e mais racional da situação.
Assim, tendo em consideração que a Escola Portuguesa de Arte Equestre
se encontra digna e apropriadamente instalada, desde 1996, no Palácio
Nacional de Queluz, onde foram feitos avultados investimentos na
reconstrução da Cavalariça "Rainha D. Amélia, na construção de novas
cavalariças e de pistas de treino, entendo ser completamente
inaceitável e até contraproducente para a pretendida valorização do
Cavalo Lusitano a sua transferência para Belém, ainda que tal não
implicasse a igualmente inaceitável desmontagem do actual Museu dos
Coches.
Seria não só um grave atentado ao património cultural do país,
cometido pelo próprio Ministério da Cultura (!), e uma péssima gestão
dos alegadamente escassos recursos disponíveis, por parte de um
governo que não se cansa de exigir sacrifícios aos portugueses, em
nome da racionalização da administração pública e do equilíbrio
orçamental.
Assim, considerando que:
1. O Ministério da Cultura "adquiriu" ao Exército/Estado (!!!) em
1996, o terreno das antigas Oficinas Gerais do Exército; 2. Existem
inúmeros museus mal instalados ou localizados, nomeadamente o dos
Coches, que precisa de espaço para reservas, exposições temporárias,
laboratórios e serviços de apoio ao visitante; 3. O Ministério da
Cultura pretende desmontar o Museu de Arte Popular, após anos de
obras, para aí instalar o tal "Museu da Língua Portuguesa"; 4. Existem
avultadas verbas, provenientes do Casino de Lisboa, disponíveis para a
requalificação da área nascente de Belém, tendo já sido convidado um
prestigiado arquitecto para o efeito;
Proponho à Comunidade Museológica que se mobilize no sentido de
solicitar ao Ministério da Cultura e ao Governo que tenha a coragem de
reequacionar os projectos que tem para aquela área, antes que seja
demasiado tarde (tal como o Ministério das Obras Públicas fez em
relação à Ota...) de modo a construir novas dependências para o Museu
dos Coches, cuja casa-mãe se deverá manter no local original, com as
peças mais importantes, devidamente valorizadas, para os apressados
turistas aí diariamente despejados pelas agências, bem para construir
de raiz, no restante espaço, o tal "Museu da Língua Portuguesa",
mantendo, e requalificando o Museu de Arte Popular, no local em que se
encontra, com um programa mais adequado aos tempos actuais,
valorizando as obras de Manuel Lapa, Carlos Botelho, Eduardo Anahory,
e outros pintores da época, cujo projectado "emparedamento" se afigura
um igualmente inaceitável atentado ao património cultural do país.
Haveria decerto muitas outras alternativas, como a instalação naquele
local nobre da cidade do Museu Nacional de Arqueologia (impedido de
expor a sua colecção permanente) ou até do Museu Nacional de Arte
Antiga (entalado numa zona de acessibilidade limitada), mas isso
implicaria estudos mais aprofundados e demorados, incompatíveis com o
curto prazo da acção governativa...
É evidente que com estas considerações não tenho a vã e desprositada
pretensão de me substituir aos órgãos competentes nesta matéria,
nomeadamente o Instituto dos Museus e da Conservação e o Conselho
Nacional de Cultura, mas tão só contribuir, como cidadão, técnico de
património, dirigente associativo, e responsável eleito pelo mais
antigo museu do país, para um urgente e necessário debate construtivo
sobre os museus portugueses, na actual conjuntura.
Com as melhores saudações,
José Morais Arnaud
P.S.: Devo esclarecer que considero o "Cavalo Lusitano", (que me
habituei a admirar desde criança, nas propriedades de familiares
próximos, e quando visitava a Coudelaria de Alter do Chão em companhia
de meu Avô, Júlio de Morais, médico veterinário e então Director-Geral
dos Serviços Pecuários, e grande impulsionador da revitalização dessa
coudelaria, nos anos 40 e 50), tal como a própria Escola Equestre
Portuguesa, como um património que importa proteger e valorizar, mas
nos lugares adequados, para bem estar das instituições, das pessoas e
dos próprios animais.