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[Museum] Ainda a propósito do Museu dos Coches

To :   Museum <Museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Ainda a propósito do Museu dos Coches
From :   jarnaud@sapo.pt
Date :   Wed, 23 Jan 2008 08:29:56 +0000


Caros Colegas e Amigos:

Na sequência do recente apelo que fiz à Comunidade Museológica para que se mobilizasse em torno da projectada desinstalação do Museu dos Coches edifício histórico em que se encontra instalada desde 1905, para aí instalar a Escola Portuguesa de Arte Equestre, quero, antes de mais registar com agrado as escassas, mas significativas, reacções que recebi, a maior parte das quais veiculadas de forma privada, como a delicadeza do assunto requere. Essas reacções permitiram-me também fazer uma avaliação menos emotiva e mais racional da situação.

Assim, tendo em consideração que a Escola Portuguesa de Arte Equestre se encontra digna e apropriadamente instalada, desde 1996, no Palácio Nacional de Queluz, onde foram feitos avultados investimentos na reconstrução da Cavalariça "Rainha D. Amélia, na construção de novas cavalariças e de pistas de treino, entendo ser completamente inaceitável e até contraproducente para a pretendida valorização do Cavalo Lusitano a sua transferência para Belém, ainda que tal não implicasse a igualmente inaceitável desmontagem do actual Museu dos Coches.

Seria não só um grave atentado ao património cultural do país, cometido pelo próprio Ministério da Cultura (!), e uma péssima gestão dos alegadamente escassos recursos disponíveis, por parte de um governo que não se cansa de exigir sacrifícios aos portugueses, em nome da racionalização da administração pública e do equilíbrio orçamental.

Assim, considerando que:

1. O Ministério da Cultura "adquiriu" ao Exército/Estado (!!!) em 1996, o terreno das antigas Oficinas Gerais do Exército; 2. Existem inúmeros museus mal instalados ou localizados, nomeadamente o dos Coches, que precisa de espaço para reservas, exposições temporárias, laboratórios e serviços de apoio ao visitante; 3. O Ministério da Cultura pretende desmontar o Museu de Arte Popular, após anos de obras, para aí instalar o tal "Museu da Língua Portuguesa"; 4. Existem avultadas verbas, provenientes do Casino de Lisboa, disponíveis para a requalificação da área nascente de Belém, tendo já sido convidado um prestigiado arquitecto para o efeito;

Proponho à Comunidade Museológica que se mobilize no sentido de solicitar ao Ministério da Cultura e ao Governo que tenha a coragem de reequacionar os projectos que tem para aquela área, antes que seja demasiado tarde (tal como o Ministério das Obras Públicas fez em relação à Ota...) de modo a construir novas dependências para o Museu dos Coches, cuja casa-mãe se deverá manter no local original, com as peças mais importantes, devidamente valorizadas, para os apressados turistas aí diariamente despejados pelas agências, bem para construir de raiz, no restante espaço, o tal "Museu da Língua Portuguesa", mantendo, e requalificando o Museu de Arte Popular, no local em que se encontra, com um programa mais adequado aos tempos actuais, valorizando as obras de Manuel Lapa, Carlos Botelho, Eduardo Anahory, e outros pintores da época, cujo projectado "emparedamento" se afigura um igualmente inaceitável atentado ao património cultural do país.

Haveria decerto muitas outras alternativas, como a instalação naquele local nobre da cidade do Museu Nacional de Arqueologia (impedido de expor a sua colecção permanente) ou até do Museu Nacional de Arte Antiga (entalado numa zona de acessibilidade limitada), mas isso implicaria estudos mais aprofundados e demorados, incompatíveis com o curto prazo da acção governativa...

É evidente que com estas considerações não tenho a vã e desprositada pretensão de me substituir aos órgãos competentes nesta matéria, nomeadamente o Instituto dos Museus e da Conservação e o Conselho Nacional de Cultura, mas tão só contribuir, como cidadão, técnico de património, dirigente associativo, e responsável eleito pelo mais antigo museu do país, para um urgente e necessário debate construtivo sobre os museus portugueses, na actual conjuntura.

Com as melhores saudações,

José Morais Arnaud


P.S.: Devo esclarecer que considero o "Cavalo Lusitano", (que me habituei a admirar desde criança, nas propriedades de familiares próximos, e quando visitava a Coudelaria de Alter do Chão em companhia de meu Avô, Júlio de Morais, médico veterinário e então Director-Geral dos Serviços Pecuários, e grande impulsionador da revitalização dessa coudelaria, nos anos 40 e 50), tal como a própria Escola Equestre Portuguesa, como um património que importa proteger e valorizar, mas nos lugares adequados, para bem estar das instituições, das pessoas e dos próprios animais.


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