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[Museum] Museologia e Museus em Portugal

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museologia e Museus em Portugal
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Wed, 8 Oct 2008 12:27:45 +0100

O Museu da Gestualidade tem o grato prazer de informar que o trabalho intitulado “Projecto e Programa museológico para o Museu…”, de autoria do seu Director, foi escolhido para integrar as especificações e condições técnicas do Caderno de Encargos e do Programa Preliminar do concurso público para a selecção dos Gabinetes Projectistas para a construção e instalação de um Museu em Portugal.

O trabalho baseou-se numa investigação científica, nas áreas da antropologia e da museologia; e seguidamente, na aplicação de uma solução técnica, expressa nos referidos projecto e programa museológico.

A relevância desta notícia para a [Museum] não está tanto na informação de quem foi a entidade ou o autor. Mas no facto de nos podermos congratular por, em Portugal, o nascimento deste museu pertencer a uma nova geração de projectos. Onde o contributo da museologia foi tido em consideração a montante. Na fase de concepção e de definição dos objectivos estratégicos, operacionais e de gestão.

É certo que são ainda uma muito escassa minoria, os museus e instituições museológicas portuguesas a usufruírem desta possibilidade. Não tanto pela ausência de projectos e programas museológicos. Mas sobretudo porque a intervenção da museologia ocorre a jusante. Ou após as decisões sobre o espaço (arquitectura e design) e sobre a tecnologia (engenharia, equipamentos e “projectos de execução”). Depois de já se terem escolhido, por vezes à sua revelia, todas as condições infraestruturais e técnicas inerentes ao processo de preservação, ao processo de documentação, ao processo de comunicação, ao processo de gestão e sustentabilidade e ao processo de gestão da relação com a comunidade. Quantas vezes não acontece constatarmos que, no processo de decisão, “o edifício tinha que ser aquele, naquele lugar, por causa de justificações não-museológicas” ?

Basta consultar os “cadernos de encargos” e os “programas preliminares” de todos os museus portugueses. E observar o percurso das pessoas e decisões que foram sendo tomadas. E comparar com o local onde estão na actualidade implantados; e com os arranjos e remendos a que foram sujeitos.

São uma leitura e uma pesquisa dolorosas.

Mas é aí, mais do que noutros locais e noutros conflitos, que encontraremos a “verdadeira política patrimonial e museológica portuguesa” e o seu percurso. Não aquela que é dita nos discursos e nas intenções. Quase sempre cheias de razões científicas e técnicas. E feitas quase sempre pelos mesmos responsáveis, pelos mesmos departamentos e pelas mesmas entidades. É aí, nesses documentos de acesso restrito, que a realidade se pode constatar objectivamente. 

Todavia, como constatamos actualmente nos museus cuja tutela é do Estado (central ou local), as consequências desta lacuna repercutem-se em problemas gravíssimos de gestão, de sustentabilidade, de acréscimos de custos; e na inadequação entre a procura real e a oferta de condições para acolher o crescente interesse do público pelo património e pelos museus.

Esta notícia é relevante também por sabermos que este será um caminho árduo a percorrer para a museologia. Difícil, perante o estatuto que a arquitectura ou a engenharia possuem na sociedade, e junto dos donos-das-obras, em relação à museologia. A qual aparece não como a definidora dos projectos museológicos mas, paradoxalmente, como uma especialidade subsidiária da arquitectura ou da engenharia. Basta consultar os tais “cadernos de encargos” e os “projectos preliminares” dos concursos para, em 99% dos casos, se perceber a origem dos muitos problemas com que se defrontam a museologia e os museus em Portugal.

Há muitos discursos após, e muitas soluções miraculosas depois. Depois das obras estarem feitas, e das lacunas e dos problemas práticos provocarem os seus efeitos. Discursos e “soluções iluminadas” feitas quase sempre em “reuniões”, “jornadas” e “congressos”, tidos como “históricos” ou “muito importantes”. Mas que, de facto, teimam em não resolver esses problemas.

Os museólogos não esquecem duas das maiores e mais significativas exposições realizadas em Portugal, que revelaram bem esta assimetria de poder. Uma no CCB em 2001, e a outra na Culturgest em 2007. Intituladas pomposamente “Os Museus para o Novo Milénio - Conceitos, Projectos, Edifícios” e “Museus do século XXI - Conceitos, Projectos, Edifícios”.

Que se anunciaram a si mesmas como “exposições sobre museologia e museus”, mas que eram afinal, apenas, “exposições de arquitectura e de engenharia”, cujas obras por acaso recaíam sobre “museus”.

Ao consultarmos os documentos que deram origem a essas realizações percebemos, claramente, que na sua génese não estava um documento orientador proveniente da museologia. E que o discurso dito “museológico” era, na maioria das vezes, uma fantasia literária, ou uma especulação estética ou filosófica sobre o “espaço arquitectónico”.

Primavam pela ausência de um corpo de saber, estruturado e sistemático, sobre o modo como as soluções técnicas se adequavam à principal finalidade da Museologia, na gestão do Património nas sociedades humanas. Para não falar da ausência das soluções em relação às outras quatro sub-funções museológicas. Portanto, fantásticos projectos de arquitectura e de engenharia, mas sem qualquer vestígio de museologia. Sobre parte deste problema, já tínhamos enviado uma mensagem para a [Museum] no dia 8 de Janeiro de 2008.

A museologia, para poder ser encarada como uma disciplina autónoma do saber aplicado, e os museólogos reconhecidos como profissionais com capacidade para serem responsáveis pelas instituições museológicas, devem saber ganhar o seu lugar. Devem conquistar um papel central e coordenador na definição das condições técnicas das diferentes especialidades que contribuem interdisciplinarmente para dar existência aos museus e às instituições museológicas.

Razão pela qual consideramos relevante anunciar um caso que, em nossa opinião, se foi pelo caminho certo.

 

08/10/2008

Pedro Manuel Cardoso


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