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O Museu da Gestualidade tem o grato prazer
de informar que o trabalho intitulado “Projecto
e Programa museológico para o Museu…”, de autoria do seu
Director, foi escolhido para integrar as especificações e condições técnicas do
Caderno de Encargos e do Programa Preliminar do concurso público
para a selecção dos Gabinetes Projectistas para a construção e instalação de um
Museu em Portugal. O trabalho
baseou-se numa investigação científica, nas áreas da antropologia e da
museologia; e seguidamente, na aplicação de uma solução técnica, expressa nos
referidos projecto e programa museológico. A relevância
desta notícia para a [Museum] não
está tanto na informação de quem foi a entidade ou o autor. Mas no facto de nos
podermos congratular por, em Portugal, o nascimento deste museu pertencer a uma
nova geração de projectos. Onde o contributo da museologia foi tido em consideração a montante. Na fase de
concepção e de definição dos objectivos estratégicos, operacionais e de gestão.
É certo que são
ainda uma muito escassa minoria, os museus e instituições museológicas
portuguesas a usufruírem desta possibilidade. Não tanto pela ausência de
projectos e programas museológicos. Mas sobretudo porque a intervenção da museologia ocorre a jusante. Ou após as
decisões sobre o espaço (arquitectura e design)
e sobre a tecnologia (engenharia, equipamentos e “projectos de
execução”). Depois de já se terem escolhido, por vezes à sua revelia,
todas as condições infraestruturais e técnicas inerentes ao processo de preservação, ao processo de documentação, ao processo de comunicação, ao processo de gestão e sustentabilidade e ao processo de
gestão da relação com a comunidade.
Quantas vezes não acontece constatarmos que, no processo de decisão, “o edifício tinha que ser aquele, naquele lugar, por
causa de justificações não-museológicas” ? Basta consultar
os “cadernos de encargos” e os “programas preliminares”
de todos os museus portugueses. E observar o percurso das pessoas e decisões
que foram sendo tomadas. E comparar com o local onde estão na actualidade
implantados; e com os arranjos e remendos a que foram sujeitos. São uma leitura
e uma pesquisa dolorosas. Mas é aí, mais
do que noutros locais e noutros conflitos, que encontraremos a
“verdadeira política patrimonial e museológica portuguesa” e o seu
percurso. Não aquela que é dita nos discursos e nas intenções. Quase sempre
cheias de razões científicas e técnicas. E feitas quase sempre pelos mesmos
responsáveis, pelos mesmos departamentos e pelas mesmas entidades. É aí, nesses
documentos de acesso restrito, que a realidade se pode constatar
objectivamente. Todavia, como
constatamos actualmente nos museus cuja tutela é do Estado (central ou local),
as consequências desta lacuna repercutem-se em problemas gravíssimos de gestão,
de sustentabilidade, de acréscimos de custos; e na inadequação entre a procura real e a oferta de condições para acolher o
crescente interesse do público pelo património e pelos museus. Esta notícia é
relevante também por sabermos que este será um caminho árduo a percorrer para a
museologia. Difícil, perante o estatuto que a arquitectura ou a engenharia
possuem na sociedade, e junto dos donos-das-obras, em relação à museologia. A qual aparece não como a
definidora dos projectos museológicos mas, paradoxalmente, como uma
especialidade subsidiária da arquitectura ou da engenharia. Basta consultar os
tais “cadernos de encargos” e os “projectos
preliminares” dos concursos para, em 99% dos casos, se perceber a origem
dos muitos problemas com que se defrontam a museologia e os museus em Portugal.
Há muitos
discursos após, e muitas soluções
miraculosas depois. Depois das
obras estarem feitas, e das lacunas e dos problemas práticos provocarem os seus
efeitos. Discursos e “soluções iluminadas” feitas quase sempre em
“reuniões”, “jornadas” e “congressos”,
tidos como “históricos” ou “muito importantes”. Mas
que, de facto, teimam em não resolver esses problemas. Os museólogos
não esquecem duas das maiores e mais significativas exposições realizadas em
Portugal, que revelaram bem esta assimetria de poder.
Uma no CCB em 2001, e a outra na Culturgest em 2007. Intituladas pomposamente
“Os Museus para o Novo Milénio -
Conceitos, Projectos, Edifícios” e “Museus do século XXI - Conceitos, Projectos,
Edifícios”. Que se
anunciaram a si mesmas como “exposições sobre museologia e museus”,
mas que eram afinal, apenas, “exposições de arquitectura e de
engenharia”, cujas obras por acaso recaíam sobre “museus”. Ao consultarmos
os documentos que deram origem a essas realizações percebemos, claramente, que
na sua génese não estava um documento orientador proveniente da museologia. E que o discurso dito
“museológico” era, na maioria das vezes, uma fantasia literária, ou
uma especulação estética ou filosófica sobre o “espaço
arquitectónico”. Primavam pela
ausência de um corpo de saber, estruturado e sistemático, sobre o modo como as
soluções técnicas se adequavam à principal finalidade da Museologia, na gestão
do Património nas sociedades humanas. Para não falar da ausência das soluções
em relação às outras quatro sub-funções museológicas. Portanto, fantásticos
projectos de arquitectura e de engenharia, mas sem qualquer vestígio de
museologia. Sobre parte deste problema, já tínhamos enviado uma mensagem para a
[Museum] no dia 8 de Janeiro de
2008. A museologia, para poder ser encarada como
uma disciplina autónoma do saber aplicado, e os museólogos reconhecidos como
profissionais com capacidade para serem responsáveis pelas instituições
museológicas, devem saber ganhar o seu lugar. Devem conquistar um papel central
e coordenador na definição das condições técnicas das diferentes especialidades
que contribuem interdisciplinarmente para dar existência aos museus e às
instituições museológicas. Razão pela qual
consideramos relevante anunciar um caso que, em nossa opinião, se foi pelo
caminho certo. 08/10/2008 |
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