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[Museum] De quem é a responsabilidade pela gestão dos museus e do património português?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] De quem é a responsabilidade pela gestão dos museus e do património português?
From :   "Pedro Manuel Cardoso" <pcardoso@sejd.gov.pt>
Date :   Thu, 11 Dec 2008 11:55:37 -0000

De quem é a responsabilidade pela gestão dos museus e do património português?

Nesta discussão sobre a “gestão” seria sensato não deixar que o ónus da culpa e da responsabilidade fosse invertido.

De quem é a responsabilidade pela gestão dos museus e do património português? É de todos na mesma proporção e da mesma forma? E qual é o histórico de quem mais falhou?

De um lado temos a seguinte evidência: Os museus têm funcionado ao longo dos anos, têm prestado serviços e benefício a milhares de milhares e cidadãos. Têm “preservado, documentado e comunicado” o património e as colecções que possuem. Com estas ou aquelas deficiências, com mais ou menos recursos, com estas ou outras leis, etc., têm sido quem tem gerido na prática o património português.

E do outro lado da evidência? Do lado dos Secretários de Estado, dos Ministros, dos directores/as dos Institutos do Estado que tutelam os museus e o património português? Sim, daqueles que fizeram as leis que sucessivamente mudaram; os que provocaram as sucessivas fusões, divisões e aglomerações; os que têm o poder das contratações e de dar ou tirar o emprego; os que têm os Orçamentos maiores ou menores; os que têm a responsabilidade de obter recursos para financiar os museus e o património português? E deste lado?

A pergunta que um ingénuo faria é simples: A quem é mais necessária a gestão? E quem mostrou ao longo do tempo que tinha falta dela?

Nos museus e no património português há diferentes níveis de gestão. Uns cabem aos guardas e vigilantes, outros cabem aos funcionários/as administrativos, outros aos técnicos e especialistas, outros aos dirigentes intermédios, outros aos directores/as, outros aos departamentos do Estado que têm a tutela, outros aos Secretários/as de Estado e aos Ministros, etc.

Régis Debray tem um texto muito curioso sobre esta questão da inversão da culpa. Refiro-me à famosa noção de ideologia, em “La fonction d’une illusion” in “Critique de la Raison Politique” (1981).

Tal como nessa noção de ideologia, o interesse actual pela “gestão atirada contra os que trabalham nos museus e no património há anos” pode advir de funcionar como duplo registo: simultaneamente de causalidade e de responsabilidade. E neste caso cairia na categoria daquelas noções que permitem passar de uma imputação (tu erraste, nós estamos a errar, etc.) para uma explicação (por não estarem a “gerir”).

O autor afirma que este tipo de noções é paradigmático do modelo que serve de base à “mentalidade animista”, porque, como refere a propósito da magia, “transportam a solução no próprio problema”. Dão a ilusão de que se compreende e soluciona a priori. Este tipo de discurso acrítico, historicamente propício em tempo de crise e de anomia, remete para a função chamânica do discurso político. No qual, de modo teatralizado, os autores dos erros dirigem a lógica de inculpação para os que lhes estão próximos.

Como refere Paul Ricoeur “o específico da promessa é construir, no dizer-se, o fazer da promessa. Prometer é colocar-se a si próprio na obrigação de fazer o que se diz hoje que se fará amanhã”.

Parece-me que não devemos deixar, que esta cerimónia mágica da “arte de fazer com o dizer”, se realize. Não devemos deixar que a tutela exorcize a sua não-gestão com o atirar da culpa para os outros. Esta função chamânica da promessa, de um “desenvolvimento a partir da gestão”, talvez corresponda mais a um desejo do que à efectiva procura das causas da falta de Orçamento disponível para cumprir a responsabilidade do Estado por parte de quem tem a tarefa de a cumprir.

Desconfio que este coelho tirado da cartola, dito “gestão”, não sirva para “curar”, mas outrossim, para reduzir a ansiedade e garantir a homoestase do público. A quem, aliás, a mensagem verdadeiramente se dirige.

A este respeito Régis Debray sugere que a magia talvez tivesse sido a primeira “teoria da prática humana”. Porque permite aos seus autores (por exemplo, os detentores do poder) perpetuarem a realidade (por exemplo, a falta de vontade política em gastar dinheiro com a Cultura, os museus e o Património) com a promessa.

A função da ilusão seria condicionar efectivamente qualquer possibilidade de mudança.

Esta “discussão sobre a gestão” não terá essa função de perpetuar o que diz querer mudar?

Pelo que se pode ler no n.º 2 da “Museologia.pt” parece que sim. Agora é que descobriram a gestão? O curioso é todos nós nos conhecermos há anos, e serem, ainda os mesmos, a trabalharem há anos nos museus portugueses.

A minha opinião é a seguinte: - A “gestão museológica” deve estar contida no “saber da Museologia”. E não deve ser um ente estranho, como propõem. É esta a orientação actual da Museologia a nível internacional.

Como é possível virem agora, esses responsáveis e esses textos, afirmar que Portugal vai regredir nessa orientação?

Sugiro aos responsáveis, pelo Orçamento e pela tutela, um encontro. Entre si, uns com os outros. Para reflectirem no que acabaram de fazer com este anúncio da “gestão”. Tendo como pontos da ordem-de-trabalho, no mínimo dois assuntos: i) Análise do n.º 2, do artigo 6.º, da Lei n. 47/2004, de 19 de Agosto; ii) Lerem e estudarem o que a Museologia é hoje na actualidade.

Estou certo que seria um bom começo e um caminho profícuo. 

 

Pedro Manuel Cardoso

Museu da Gestualidade

11/12/2008

 


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