|
De quem é a responsabilidade
pela gestão dos museus e do património português? Nesta discussão
sobre a “gestão” seria sensato não deixar que o ónus da culpa e da
responsabilidade fosse invertido. De quem é a responsabilidade
pela gestão dos museus e do património português? É de todos na mesma proporção
e da mesma forma? E qual é o histórico de quem mais falhou? De um lado temos
a seguinte evidência: Os museus têm funcionado ao longo dos anos, têm prestado
serviços e benefício a milhares de milhares e cidadãos. Têm “preservado,
documentado e comunicado” o património e as colecções que possuem. Com
estas ou aquelas deficiências, com mais ou menos recursos, com estas ou outras
leis, etc., têm sido quem tem gerido na prática o património português. E do outro lado
da evidência? Do lado dos Secretários de Estado, dos Ministros, dos
directores/as dos Institutos do Estado que tutelam os museus e o património
português? Sim, daqueles que fizeram as leis que sucessivamente mudaram; os que
provocaram as sucessivas fusões, divisões e aglomerações; os que têm o poder
das contratações e de dar ou tirar o emprego; os que têm os Orçamentos maiores
ou menores; os que têm a responsabilidade de obter recursos para financiar os
museus e o património português? E deste lado? A pergunta que um
ingénuo faria é simples: A quem é mais necessária a gestão? E quem mostrou ao
longo do tempo que tinha falta dela? Nos museus e no
património português há diferentes níveis de gestão. Uns cabem aos guardas e
vigilantes, outros cabem aos funcionários/as administrativos, outros aos
técnicos e especialistas, outros aos dirigentes intermédios, outros aos
directores/as, outros aos departamentos do Estado que têm a tutela, outros aos
Secretários/as de Estado e aos Ministros, etc. Régis Debray tem
um texto muito curioso sobre esta questão da inversão da culpa. Refiro-me
à famosa noção de ideologia, em
“La fonction d’une illusion”
in “Critique de la Raison Politique” (1981). Tal como nessa
noção de ideologia, o interesse
actual pela “gestão atirada contra os
que trabalham nos museus e no património há anos” pode advir
de funcionar como duplo registo: simultaneamente de causalidade e de
responsabilidade. E neste caso cairia na categoria daquelas noções que permitem
passar de uma imputação (tu erraste, nós estamos a errar, etc.) para uma
explicação (por não estarem a “gerir”). O autor afirma
que este tipo de noções é paradigmático do modelo que serve de base à
“mentalidade animista”, porque, como refere a propósito da magia,
“transportam a solução no próprio problema”. Dão a ilusão de que se
compreende e soluciona a priori.
Este tipo de discurso acrítico, historicamente propício em tempo de crise e de
anomia, remete para a função chamânica do discurso político. No qual, de modo
teatralizado, os autores dos erros dirigem a lógica de inculpação para os que
lhes estão próximos. Como refere Paul
Ricoeur “o específico da promessa é
construir, no dizer-se, o fazer da promessa. Prometer é colocar-se a si próprio
na obrigação de fazer o que se diz hoje que se fará amanhã”. Parece-me que não
devemos deixar, que esta cerimónia mágica da “arte de fazer com o
dizer”, se realize. Não devemos deixar que a tutela exorcize a sua
não-gestão com o atirar da culpa para os outros. Esta função chamânica da
promessa, de um “desenvolvimento a partir da gestão”, talvez
corresponda mais a um desejo do que à efectiva procura das causas da falta de
Orçamento disponível para cumprir a responsabilidade do Estado por parte de
quem tem a tarefa de a cumprir. Desconfio que
este coelho tirado da cartola, dito “gestão”, não sirva para
“curar”, mas outrossim, para reduzir a ansiedade e garantir a
homoestase do público. A quem, aliás, a mensagem verdadeiramente se dirige. A este respeito
Régis Debray sugere que a magia
talvez tivesse sido a primeira “teoria da prática humana”. Porque
permite aos seus autores (por exemplo, os detentores do poder) perpetuarem a realidade (por
exemplo, a falta de vontade política em gastar dinheiro com a Cultura, os
museus e o Património) com a promessa. A função da
ilusão seria condicionar efectivamente qualquer possibilidade de mudança. Esta “discussão
sobre a gestão” não terá essa função de perpetuar o que diz querer mudar?
Pelo que se pode
ler no n.º 2 da “Museologia.pt” parece que sim. Agora é que
descobriram a gestão? O curioso é todos nós nos conhecermos há anos, e serem,
ainda os mesmos, a trabalharem há anos nos museus portugueses. A minha opinião é
a seguinte: - A “gestão museológica” deve estar contida no
“saber da Museologia”. E não deve ser um ente estranho, como
propõem. É esta a orientação actual da Museologia a nível internacional. Como é possível
virem agora, esses responsáveis e esses textos, afirmar que Portugal vai
regredir nessa orientação? Sugiro aos
responsáveis, pelo Orçamento e pela tutela, um encontro. Entre si, uns com os
outros. Para reflectirem no que acabaram de fazer com este anúncio da
“gestão”. Tendo como pontos da ordem-de-trabalho, no mínimo dois
assuntos: i) Análise do n.º 2, do artigo 6.º, da Lei n. 47/2004, de 19 de
Agosto; ii) Lerem e estudarem o que a Museologia é hoje na actualidade. Estou certo que
seria um bom começo e um caminho profícuo. Pedro Manuel Cardoso Museu da Gestualidade 11/12/2008 |
| Mensagem anterior por data: [Museum] RE: FW: RE: Não. Não é de "GESTORES" que os museus precisam ! O que faz falta é ... | Próxima mensagem por data: [Museum] Novo Portal IMC |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] De preto e branco - Fátima Rodrigues expõe em Mangualde | Próxima mensagem por assunto: [Museum] De que têm medo Canavilhas e Summavielle ? |