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Re: [Museum] [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério?
From :   "Isabel Luna" <misabel.luna@gmail.com>
Date :   Wed, 18 Nov 2009 01:00:13 -0000

            A propósito desta questão, refiro o exemplo do Museu Municipal Leonel Trindade, em Torres Vedras. Algumas das epígrafes romanas em exposição foram "avivadas", há mais de uma década, através da sua pintura a vermelho "pompeiano".

Sabia-se que muitas inscrições romanas eram pintadas, para uma boa visualização do seu texto, e conheciam-se os valores de autenticidade postulados pelos critérios de conservação patrimonial internacionalmente reconhecidos, com que esta prática poderia colidir. No entanto, algumas das peças torrienses eram de tal modo ilegíveis, que inviabilizavam o desempenho do seu papel museológico fundamental, na comunicação com os visitantes.

A eventual pintura de inscrições deve ser analisada casuisticamente, devendo apenas ser assumida quando as peças não são legíveis de outra forma e quando se encontram em determinados contextos museológicos ou pedagógicos, como é o caso de Idanha a Velha. Mas mesmo nestes casos, é necessário garantir, de acordo com a análise individualizada das peças, que toda a intervenção é passível de total reversibilidade. O que implica, para além de técnicas de intervenção apropriadas (utilizando produtos isoladores) que as epígrafes possuam adequadas condições intrínsecas (não pintámos peças em arenito) e se encontrem em ambientes perfeitamente controlados.

Em Torres Vedras contámos com o apoio técnico do Museu de Conímbriga, ponderando sempre as vantagens e desvantagens do procedimento. Apesar de uma ou duas vozes discordantes, o processo foi praticamente pacífico.

 

Isabel Luna

 
 
To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Archport] Inscrições romanas pintadas. Será sério?
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Mon, 9 Nov 2009 15:14:05 -0000

        Aproveito para responder de imediato a Joaquim Baptista, que, além do adjectivo «pintadas», usa no seu blogue a curiosa expressão «epigrafia travestada», seguramente inspirado em célebre frase que correu pelos noticiários no final da anterior legislatura.
        E apresso-me a responder, porque sou eu um dos responsáveis (se não mesmo o principal responsável) pela 'pintura' daquelas epígrafes que se mostram no Arquivo Epigráfico de Idanha-a-Velha e que J. Baptista mostra no seu blogue. Por outro lado, permita-se-me que o faça através da lista, porque o meu interlocutor assim o decidiu fazer - e é justo que toda a comunidade da archport saiba a opinião do «outro lado».
    Comenta Joaquim Baptista:
     
    Como, se calhar não tinham mais que fazer, resolveram pintar lápides em óptimo estado de conservação. No entanto votaram aos elementos mais de uma centena de epigrafes. Não dá para entender. Mas nem é para entender. Estamos perante sumidades que não aceitam qualquer contributo, estão acima do comum mortal. Mas são pagos com os nossos impostos. O que para nós deve ser considerada uma honra. Só neste país...
     
    Como calcula, temos (felizmente!) muito mais que fazer e a decisão de pintar algumas das epígrafes deriva do facto de, em meu entender e no entender de muitos epigrafistas, a maior parte - se não a totalidade - das epígrafes romanas terem sido, originalmente, pintadas, como hoje se pintam as inscrições para mais fácil ser a leitura. Foi uma opção, pensada, meditada - que bem sabíamos que poderia causar polémica. Desculpe se, de facto, não pedimos a sua opinião; mas, como saberá de anteriores contactos que temos tido, não me considero (nem sou!) uma "sumidade" nem creio estar «acima do comum mortal».
    Quanto à questão de, provisoriamente, algumas epígrafes terem ficado ao ar livre, sujeitas às intempéries, isso deve-se, naturalmente, ao facto de ainda não haver espaço para as guardar. Em todo o caso, Joaquim Baptista, poderá dar uma saltada ao Museu das Termas em Roma ou mesmo à cidade romana de Óstia ou ao Museu do Vaticano - e verá que, também aí, se deixaram muitas inscrições «votadas aos elementos» (para usar da sua expressão). Por acaso, já pensou que, afinal, a maior parte dessas pedras (quer monumentais quer funerárias ou votivas) foram pensadas justamente para estarem ao ar livre?
    Finalmente, se sou pago com os seus impostos, a honra é minha: bem haja!
     
                                                                                    José d'Encarnação
     

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