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Se me permite, o António Nabais coloca muito bem a
questão. Toca num dos aspectos cruciais da discussão
museológica. Ou de outro modo dito, as perguntas que formula fazem-nos entrar
no domínio da Museologia. A Museologia é quem pode responder a essas perguntas.
E os ‘responsáveis’ (todos) é a ela que deveriam recorrer para
tentarem encontrar a ‘solução’. Porque há leitores nesta Lista
Museum que não estão familiarizados com a discussão teórica e metodológica,
permitam-me que explique o problema do seguinte modo. Tal como a Medicina não
se cinge ao estudo dos Hospitais, ou a Economia não é o estudo ao funcionamento
das Empresas, a Museologia não pode ser apenas o estudo dos Museus
(objectos/colecções). Como se poderia aplicar medicina em locais sem hospitais,
e em circunstâncias em que não os há? Como se podia compreender a economia nas
sociedades humanas onde não existiam empresas, ou nas referidas por Pierre
Clastres antes do Estado? Como se pode compreender a gestão patrimonial
em sociedades e comunidades que não possuem museus, como aquelas que
Lévi-Strauss, D. Sperber ou P. Descola referem? O recurso à Museologia, como
ramo autónomo do saber sobre o Património, é para prestar o serviço de
responder às perguntas que António Nabais colocou. É esse o seu desígnio
epistemológico. Ora chegado aqui, qual é
então, o saber que a Museologia tem disponível para apontar a orientação e o
caminho àquelas ‘perguntas’? No nosso trabalho de
investigação, e nos contributos que já publicámos, mostrámos que a Museologia
consegue gerir o Património separando nele três realidades e três instâncias.
Consegue separar a responsabilidade pelo(s) ‘suporte’, pelo
‘documento-dado’ e pela ‘informação’; e
consegue fazer perceber (tanto aos responsáveis políticos como aos que gerem os
museus ou as coleções-objectos) que há uma diferença entre a instância relativa
ao(s) ‘objecto-colecção’, ao ‘uso do
património’ e ao ‘valor patrimonial’. Permite separar
essas seis coisas. Isto é, permite que haja, como soluções disponíveis para
gerir o Património, tantas soluções quantas a combinatória desses seis
factores/variáveis o permitem. Façamos agora o exercício de
colocar essas combinatórias como base para responder às perguntas de António
Nabais. A questão não passa a ter outra perspectiva completamente diferente? Ou seja, claro que há muitos
edifícios chamados ‘museus’ com o nome de ‘etnologia’ e
de ‘arqueologia’, mas onde estão os ‘suportes’
de arqueologia e de etnologia no todo nacional? E os ‘documentos-dados’
de arqueologia e etnologia não são menos do que o número de ‘suportes’?
E a ‘informação’ que é transmitida através desses ‘documentos-dados’
não é ainda mais cingida? Então, pegando nestas três
partes que compõem aquilo a que vulgarmente chamamos ‘Património’
não poderíamos encontrar uma solução de gestão diferente da actual? Ao fazê-lo
não estaríamos a beneficiar melhor Portugal? Não sairíamos destes impasses e
desta impotência que sempre, peço desculpa, me irritam por ficarem na
superficialidade das petições e bravatas mediáticas? O espaço das reservas-laboratórios,
o espaço para a investigação-documentação, o espaço para a interpretação-comunicação
para a Arqueologia e para a Etnologia não passariam a estar disponíveis nas
infra-estruturas existentes? A Universidade de Coimbra
tem a possibilidade de unir a Arqueologia e a Etnologia numa
interdisciplinaridade que justifica a proposta que fizemos. Para além de que
Lisboa e Porto terem mais dificuldades em obter fundos comunitários. Chamo a atenção ainda para o
seguinte: há várias infra-estruturas culturais no País que têm espaços,
equipamentos e tamanho igual ou maior ao que a Fundação Calouste Gulbenkian
possui… Mas estão fechados ao Sábado e ao Domingo, e nos dias da semana
são corredores e salas apenas para os funcionários percorrerem. Como é possível
desperdiçar estes recursos? O desperdício não é por maldade, nem por incúria. É
por os ‘responsáveis’ não possuírem aquelas ferramentas de gestão e
de metodologia que a Museologia lhes pode fornecer. Ou por teimarem a elas não
recorrerem. Pedro Manuel Cardoso |
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