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[Museum] Re Instalar Museus em Portugal

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Re Instalar Museus em Portugal
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Mon, 22 Mar 2010 23:10:54 +0000

Se me permite, o António Nabais coloca muito bem a questão.

Toca num dos aspectos cruciais da discussão museológica. Ou de outro modo dito, as perguntas que formula fazem-nos entrar no domínio da Museologia.

A Museologia é quem pode responder a essas perguntas. E os ‘responsáveis’ (todos) é a ela que deveriam recorrer para tentarem encontrar a ‘solução’.

Porque há leitores nesta Lista Museum que não estão familiarizados com a discussão teórica e metodológica, permitam-me que explique o problema do seguinte modo. Tal como a Medicina não se cinge ao estudo dos Hospitais, ou a Economia não é o estudo ao funcionamento das Empresas, a Museologia não pode ser apenas o estudo dos Museus (objectos/colecções). Como se poderia aplicar medicina em locais sem hospitais, e em circunstâncias em que não os há? Como se podia compreender a economia nas sociedades humanas onde não existiam empresas, ou nas referidas por Pierre Clastres antes do Estado? Como se pode compreender a gestão patrimonial em sociedades e comunidades que não possuem museus, como aquelas que Lévi-Strauss, D. Sperber ou P. Descola referem?

O recurso à Museologia, como ramo autónomo do saber sobre o Património, é para prestar o serviço de responder às perguntas que António Nabais colocou. É esse o seu desígnio epistemológico.

Ora chegado aqui, qual é então, o saber que a Museologia tem disponível para apontar a orientação e o caminho àquelas ‘perguntas’?

No nosso trabalho de investigação, e nos contributos que já publicámos, mostrámos que a Museologia consegue gerir o Património separando nele três realidades e três instâncias. Consegue separar a responsabilidade pelo(s) ‘suporte’, pelo ‘documento-dado’ e pela ‘informação’; e consegue fazer perceber (tanto aos responsáveis políticos como aos que gerem os museus ou as coleções-objectos) que há uma diferença entre a instância relativa ao(s) ‘objecto-colecção’, ao ‘uso do património’ e ao ‘valor patrimonial’. Permite separar essas seis coisas. Isto é, permite que haja, como soluções disponíveis para gerir o Património, tantas soluções quantas a combinatória desses seis factores/variáveis o permitem.

Façamos agora o exercício de colocar essas combinatórias como base para responder às perguntas de António Nabais. A questão não passa a ter outra perspectiva completamente diferente?

Ou seja, claro que há muitos edifícios chamados ‘museus’ com o nome de ‘etnologia’ e de ‘arqueologia’, mas onde estão os ‘suportes’ de arqueologia e de etnologia no todo nacional? E os ‘documentos-dados’ de arqueologia e etnologia não são menos do que o número de ‘suportes’? E a ‘informação’ que é transmitida através desses ‘documentos-dados’ não é ainda mais cingida?

Então, pegando nestas três partes que compõem aquilo a que vulgarmente chamamos ‘Património’ não poderíamos encontrar uma solução de gestão diferente da actual? Ao fazê-lo não estaríamos a beneficiar melhor Portugal? Não sairíamos destes impasses e desta impotência que sempre, peço desculpa, me irritam por ficarem na superficialidade das petições e bravatas mediáticas?

O espaço das reservas-laboratórios, o espaço para a investigação-documentação, o espaço para a interpretação-comunicação para a Arqueologia e para a Etnologia não passariam a estar disponíveis nas infra-estruturas existentes?

A Universidade de Coimbra tem a possibilidade de unir a Arqueologia e a Etnologia numa interdisciplinaridade que justifica a proposta que fizemos. Para além de que Lisboa e Porto terem mais dificuldades em obter fundos comunitários.

Chamo a atenção ainda para o seguinte: há várias infra-estruturas culturais no País que têm espaços, equipamentos e tamanho igual ou maior ao que a Fundação Calouste Gulbenkian possui… Mas estão fechados ao Sábado e ao Domingo, e nos dias da semana são corredores e salas apenas para os funcionários percorrerem. Como é possível desperdiçar estes recursos? O desperdício não é por maldade, nem por incúria. É por os ‘responsáveis’ não possuírem aquelas ferramentas de gestão e de metodologia que a Museologia lhes pode fornecer. Ou por teimarem a elas não recorrerem.

 

Pedro Manuel Cardoso


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