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[Museum] Material e Imaterial: A estúpida ruptura.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Material e Imaterial: A estúpida ruptura.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Sun, 28 Mar 2010 20:28:53 +0100

Material e Imaterial: A estúpida ruptura.

Mais uma vez o António Nabais foi assertivo. Disse:

É necessário que se explique a esses senhores que dizem que andam a fazer o inquérito do património imaterial o que é o património imaterial. Andam por aí a espalhar aldrabices e não fazem nada para preservar o património imaterial. Basta de tanta incompetência institucionalizada!” (António Nabais, Lista Museum, mensagem n.º 03658, de 25/03/2010 – 16:09).

Não estou de acordo com António Nabais quando designa de “aldrabices” e “incompetência”. Nessa parte não estou de acordo. Não é essa a questão.

Mas quem dera que houvesse mais desta assertividade. Era sinal que não se receava o Debate. E talvez contribuísse para haver um equilíbrio melhor entre ‘debate’ e ‘informações’.

Já me tinha sublevado contra esta estúpida ruptura numa mensagem anterior. Mas entendamo-nos. Não são as Pessoas que são estúpidas, é o argumento e o raciocínio que são utilizados para justificar essa ruptura no Património. Nessa mensagem tinha feito votos para que:

“…Como referi anteriormente, nesta Museum Lista, o Património Pleno exige uma Museologia para sua condutora. Se o fosse, o Património seria gerido na simultaneidade da materialidade, da oralidade, da gestualidade e da iconicidade. Que deve ser o conceito operatório de objecto patrimonial com que se deve trabalhar. E não ouvirmos e assistirmos às recentes ameaças de uma nova e estúpida ruptura, agora entre imaterial e material.” (Pedro Manuel Cardoso, Lista Museum, mensagem n.º 03095, de 01/11/2009 – 00:46:13)

De facto, é um erro científico e metodológico afirmar que existe um novo tipo de Património dito “imaterial” ou “intangível”. Só o pode afirmar quem não está atento à Museologia.

Nós próprios, muito antes desta moda «imaterial-intangível», fundámos um Museu da Gestualidade. Que possui milhares de ‘documentos-dados’ sobre a realidade gestual portuguesa e humana; e tem relações com colegas e universidades em vários sítios do mundo. E recusámo-nos sempre a chamar este Museu de “imaterial” ou “intangível”. Porque se o fizéssemos estávamos a cometer um erro científico e metodológico. Estávamos a infringir a Museologia.

Na mensagem que enviámos sobre a “Instalação dos Museu Nacional de Arqueologia e Museu Nacional de Etnologia em Coimbra” explicámos um pouco o porquê dessa lacuna e desse erro. Dissemos:

No nosso trabalho de investigação, e nos contributos que já publicámos, mostrámos que a Museologia consegue gerir o Património separando nele três realidades e três instâncias. Consegue separar a responsabilidade pelo(s) ‘suporte’, pelo ‘documento-dado’ e pela ‘informação’; e consegue fazer perceber (tanto aos responsáveis políticos como aos que gerem os museus ou as coleções-objectos) que há uma diferença entre a instância relativa ao(s) ‘objecto-colecção’, ao ‘uso do património’ e ao ‘valor patrimonial’. Permite separar essas seis coisas. Isto é, permite que haja, como soluções disponíveis para gerir o Património, tantas soluções quantas a combinatória desses seis factores/variáveis o permitem.” (Pedro Manuel Cardoso, Lista Museum, mensagem n.º 03650, de 22/03/2010 – 23:10:54)

Talvez seja útil contribuirmos para este Debate com uma explicação mais didáctica. Peço, aos que insistem no “imaterial e intangível”, para passarem os olhos pelo seguinte exemplo, servindo-me de um extracto do trabalho que publicámos: -

“(…) O impacto do Desenvolvimento no Uso - isto é, no modo como se acede e manipula o Património - provocará uma segunda ruptura conceptual: entre ‘documento/dado’ e ‘informação’. O conceito de Património passará a incluir três partes. A ruptura anterior separou-o em duas partes: o ‘suporte’ e o ‘documento/dado’. O impacto do Desenvolvimento no Uso acrescentará as condições pelas quais essas duas partes se poderão constituir, ou não, em ‘informação’. Ou seja, o Património passará a ser igual a [‘suporte’ + ‘documento/dado’ + ‘informação’]. No ponto anterior, relativo ao impacto do Desenvolvimento na variável ‘Objecto’, vimos que, por exemplo uma «norma de conduta» ou um qualquer outro ‘documento-dado’ antes do aparecimento da escrita podiam ser transmitidos de geração para geração num suporte oral, fosse numa mnemónica ou numa retórica ritual; na Suméria podiam ficar registados num suporte de argila; a seguir passar para um papiro egípcio; ou para um papel impresso chinês; depois podiam passar para uma edição impressa de Gutenberg; na época seguinte serem registados num cartão perfurado; serem captados por uma fita magnética; depois por um Compact Disc; por um DVD ou um Blue-Ray; e no futuro por um ‘suporte’ quântico. Vimos assim que esse ‘documento/dado’ (que é a «norma de conduta») era independente de todos esses ‘suportes’ que se foram sucedendo na história humana. Agora, com o impacto do Desenvolvimento na variável Uso, verificaremos que, se o ‘documento-dado’ tivesse continuado a ficar sem acesso, guardado como um tesouro no fundo de um baú, dentro de uma vitrina ou no fundo de uma reserva, jamais alcançaria o estatuto de ‘informação’. Teria desaparecido da nossa memória, e pertenceria ao reino do esquecimento. Ou de outro modo dito, o efeito do Desenvolvimento no Uso fará perceber que a existência quer dos ‘suportes’ quer dos ‘documentos-dados’ não garante só por si o acesso ao conteúdo informativo do Património. Mas esta exigência de um maior acesso e uso do Património, na parte que diz respeito aos ‘suportes’ e aos ‘documentos-dados’, obrigou também à adopção de um «novo modelo de comunicação com essa parte material do Património». Que irá, como veremos, afectar o próprio Valor Patrimonial.” (Pedro Manuel Cardoso, “O Património perante o Desenvolvimento”, ULHT, Lisboa, 2010:228)

Repito. É um erro científico e metodológico afirmar que existe um novo tipo de Património dito “imaterial” ou “intangível”.

O Património é o mesmo.

O que mudou foi a parte do Património relativo ao ‘suporte’. As partes relativas ao ‘documento-dado’, à ‘informação’ e ao ‘valor patrimonial’ mantiveram-se. Portanto é apenas um caso de transferência de ‘suportes’, para a qual também já tínhamos chamado a atenção no “Índice de Avaliação do Trabalho Museal” que propusemos, e onde incluímos exactamente os “coeficientes de transmissibilidade” e de “restituição”.

Pedro Manuel Cardoso

(Museu da Gestualidade)

 


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