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A
cisão entre ‘Museu Nacional de Arqueologia’ e ‘Museu Nacional
de Etnologia’: O esquecimento do legado de José Leite de Vasconcelos. Nas homenagens que sucessivamente são feitas a José
Leite de Vasconcelos verificamos, invariavelmente, um consenso sobre o que
representou para a Cultura Portuguesa. Escrevem quase sempre, com justeza, três
palavras para o definir: “Filólogo – Arqueólogo –
Etnógrafo”. Esse contínuo daquilo que é específico do ser-humano,
neste caso da particularidade disso referente a “Português”,
foi uma visão traída pela modernidade de tantas decisões depois dele. Compreendemos. Compreendemos, agora distanciados no tempo, que foi,
em primeiro lugar, por causa do horror emocional do pós-guerra. Que foi por
causa disso que houve um coro de unanimidade na menorização do
‘evolucionismo’ face ao todo-poderoso
‘relativismo/sociologismo’. Desde as polémicas com Franz Boas até
às declarações solenes nas “Nações Unidas” por Lévi-Strauss. Depois
foi a adesão cega à “Cultura Material”, como prova a
priori desse relativismo cultural. Decretaram logo aí o dia-de-finados da
«visão contínua e integrada do ser-humano e da sociedade». Foi o tempo
de copiar, sobretudo de França. Foi o tempo da exaltação do “Museu de
Artes e Ofícios”, da vinda para Portugal de tantos jovens
estrangeirados que cheiraram o “Maio de 68”, essa espécie de
revolução francesa moderna contra a moralidade do “antigamente”.
Foi o tempo de adoptar cegamente a filosofia dos Analles, de A.
Leroi-Gourhan e de M. Mauss. Foi o tempo do empenhamento pela imposição da
Cultura dita “Popular”. A Ciência foi dominada pela doutrina do
‘relativismo cultural’, como o havia sido no tempo ignóbil do
‘racismo linear e gradual’. Uma coisa são os dados, os vestígios e os testemunhos
que se obtêm pelo trabalho científico. Outra coisa é o uso político e
doutrinário que deles se fazem. Sempre foi assim, e sempre será. Foram, entre outras, aquelas motivações que
justificaram a precipitada cisão entre a “Diferença”
(relativismo, sociologismo) e a “Evolução” (evolucionismo,
antropologismo). Logo apareceram os mesmos arautos barulhentos de sempre, a
decretarem dois mundos diferentes, dois reinos inconciliáveis, duas pretensas
epistemologias. Foi essa cegueira ideológica, provocada por aquelas duas
ideologias, que fez romper a noção de que «a diferença e a evolução não se
opõem quando queremos compreender e patrimonizar o ser-humano». O legado
de José Leite de Vasconcelos foi uma das vítimas. Logo foram à pressa cindir a
Arqueologia, da Etnologia e da Língua. Fizeram ‘museus’ para esses
bocados que partiram. Que são o resultado medíocre do que vemos hoje. É uma afronta, talvez mesmo um ultraje, virem agora,
para dirimirem os conflitos do mal que fizeram, jurar em nome do legado de quem
tinha a visão de que a «gestão da memória e do património referente ao ser-humano»
se fazia da interdependência entre a Língua, a Arqueologia e a Etnologia. Volto ao que disse antes, sobre a estúpida ruptura
entre “material” e “imaterial”. A
diferença entre esses ‘museus’ ou instâncias gere-se separando com
clareza o que é ‘suporte’ do que é ‘documento-dado’,
do que é ‘informação’. E gerindo museologicamente, com
coerência e sistematicidade, o que é ‘materialidade’,
‘iconicidade’, ‘gestualidade’ e ‘oralidade’.
Coimbra reuniria a maior dos ‘suportes móveis da materialidade’
desse contínuo arquelógico-etnológico; Lisboa e Porto exporiam a maior parte
dos ‘suportes icónicos’ desse património e dessa memória do
‘contínuo humano português’; os locais etno-arqueológicos tão ricos
que Portugal tem, em várias Terras, exporiam em rede os ‘suportes
imóveis’. Haverá coragem para esta política museológica e
patrimonial? O legado de José Leite de Vasconcelos não nos devia merecer melhor
discernimento? Tanto barulho e tanta algazarra… enquanto o
Património e a Memória de Portugal esperam. Pedro Manuel Cardoso (Museu da Gestualidade) |
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