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[Museum] A cisão entre 'Museu Nacional de Arqueologia' e 'Museu Nacional de Etnologia': O esquecimento do legado de José Leite de Vasconcelos.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A cisão entre 'Museu Nacional de Arqueologia' e 'Museu Nacional de Etnologia': O esquecimento do legado de José Leite de Vasconcelos.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 1 Apr 2010 23:53:35 +0100

A cisão entre ‘Museu Nacional de Arqueologia’ e ‘Museu Nacional de Etnologia’: O esquecimento do legado de José Leite de Vasconcelos.

 

Nas homenagens que sucessivamente são feitas a José Leite de Vasconcelos verificamos, invariavelmente, um consenso sobre o que representou para a Cultura Portuguesa. Escrevem quase sempre, com justeza, três palavras para o definir: “Filólogo – Arqueólogo – Etnógrafo”.

Esse contínuo daquilo que é específico do ser-humano, neste caso da particularidade disso referente a “Português”, foi uma visão traída pela modernidade de tantas decisões depois dele.

Compreendemos.

Compreendemos, agora distanciados no tempo, que foi, em primeiro lugar, por causa do horror emocional do pós-guerra. Que foi por causa disso que houve um coro de unanimidade na menorização do ‘evolucionismo’ face ao todo-poderoso ‘relativismo/sociologismo’. Desde as polémicas com Franz Boas até às declarações solenes nas “Nações Unidas” por Lévi-Strauss. Depois foi a adesão cega à “Cultura Material”, como prova a priori desse relativismo cultural. Decretaram logo aí o dia-de-finados da «visão contínua e integrada do ser-humano e da sociedade». Foi o tempo de copiar, sobretudo de França. Foi o tempo da exaltação do “Museu de Artes e Ofícios”, da vinda para Portugal de tantos jovens estrangeirados que cheiraram o “Maio de 68”, essa espécie de revolução francesa moderna contra a moralidade do “antigamente”. Foi o tempo de adoptar cegamente a filosofia dos Analles, de A. Leroi-Gourhan e de M. Mauss. Foi o tempo do empenhamento pela imposição da Cultura dita “Popular”.

A Ciência foi dominada pela doutrina do ‘relativismo cultural’, como o havia sido no tempo ignóbil do ‘racismo linear e gradual’.

Uma coisa são os dados, os vestígios e os testemunhos que se obtêm pelo trabalho científico. Outra coisa é o uso político e doutrinário que deles se fazem. Sempre foi assim, e sempre será.

Foram, entre outras, aquelas motivações que justificaram a precipitada cisão entre a “Diferença” (relativismo, sociologismo) e a “Evolução” (evolucionismo, antropologismo). Logo apareceram os mesmos arautos barulhentos de sempre, a decretarem dois mundos diferentes, dois reinos inconciliáveis, duas pretensas epistemologias. Foi essa cegueira ideológica, provocada por aquelas duas ideologias, que fez romper a noção de que «a diferença e a evolução não se opõem quando queremos compreender e patrimonizar o ser-humano». O legado de José Leite de Vasconcelos foi uma das vítimas. Logo foram à pressa cindir a Arqueologia, da Etnologia e da Língua. Fizeram ‘museus’ para esses bocados que partiram. Que são o resultado medíocre do que vemos hoje.

É uma afronta, talvez mesmo um ultraje, virem agora, para dirimirem os conflitos do mal que fizeram, jurar em nome do legado de quem tinha a visão de que a «gestão da memória e do património referente ao ser-humano» se fazia da interdependência entre a Língua, a Arqueologia e a Etnologia.

Volto ao que disse antes, sobre a estúpida ruptura entre “material” e “imaterial”. A diferença entre esses ‘museus’ ou instâncias gere-se separando com clareza o que é ‘suporte’ do que é ‘documento-dado’, do que é ‘informação’. E gerindo museologicamente, com coerência e sistematicidade, o que é ‘materialidade’, ‘iconicidade’, ‘gestualidade’ e ‘oralidade’. Coimbra reuniria a maior dos ‘suportes móveis da materialidade’ desse contínuo arquelógico-etnológico; Lisboa e Porto exporiam a maior parte dos ‘suportes icónicos’ desse património e dessa memória do ‘contínuo humano português’; os locais etno-arqueológicos tão ricos que Portugal tem, em várias Terras, exporiam em rede os ‘suportes imóveis’.

Haverá coragem para esta política museológica e patrimonial? O legado de José Leite de Vasconcelos não nos devia merecer melhor discernimento?

Tanto barulho e tanta algazarra… enquanto o Património e a Memória de Portugal esperam.

 

Pedro Manuel Cardoso

(Museu da Gestualidade)

 


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