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Re: Prosseguindo uma troca de ideias, passo a passo. Caro Manuel de Castro Nunes prossigamos então, com
todo o prazer e agradecimento. Um agradecimento extensivo também à Lista Museum
e ao Prof. José d’ Encarnação. Jamais uma boa divergência foi
inimiga de uma boa convergência. O Museu da Gestualidade não nasceu da intenção
de cobrir tudo o resto, nem teve uma pretensão hegemónica ou sequer
aglutinadora. Em 1986, tal como agora, trabalhava em antropologia com a minha
colega Maria Isabel Tristany. Trabalhávamos na investigação da ‘origem da
linguagem humana’. Foi aí que encontrámos a ‘gestualidade’.
E decidimos fundar o ‘museu’ como plataforma de investigação,
sistematização e recolha dos dados que obtínhamos nessa pesquisa. Foi deste
modo singelo que tudo começou. Curiosamente, essa intuição acabou na actualidade
por adquirir uma importância maior do que aquela que alguma vez esperaríamos.
Tentarei resumir essa revalorização actual da gestualidade. Durante muito tempo, em Ciências Sociais e Humanas
(antropologia, sociologia, psicologia), prevaleceu a tese de que a Linguagem
teria sido uma invenção humana - tal como a
“técnica”, a arte ou a escrita. A Linguagem teria sido um “produto
social”, cuja origem deveria ser procurada na lógica e nos
fundamentos da organização social (Lévi-Strauss, 1970), e não nas capacidades
de um cérebro individual (N. Chomsky). Esta tese culturalista foi mais tarde
actualizada por William Noble e Lain Davidson (1996). Todavia Steven Pinker,
dando continuidade à perspectiva inatista de N. Chomsky, haveria de apresentar
em 1994 uma tese contra-intuitiva na qual a linguagem teria tido origem numa
capacidade “biologicamente programada”. Este impasse entre
as teses culturalistas e as teses inatistas manteve-se sem solução até à
actualidade. Mais recentemente, Merlim Donald proporia a hipótese
de uma origem mimética da linguagem (1997) que se teria desenvolvido
desde Australopitecus. Michael C. Corballis da Universidade de Auckland
(Nova Zelândia), em 2001, proporia a tese de uma origem gestual da linguagem,
que teria sido já utilizada em Homo erectus. O linguista Derek Bickertom
(1997) proporia, também desde Homo erectus, a tese da existência de uma
espécie de protolinguagem que teria sido a fôrma que teria moldado a
linguagem actual. Terrence Deacon (1997) proporia uma tese intermédia, segundo
a qual algures durante o processo de hominização teria ocorrido um
processo de co-evolução da linguagem e do cérebro. Na actualidade Laura Petitto
(2001) e os seus colegas da Universidade Mcgill, em Montreal (Canadá) mostraram
por “imagens cerebrais”, utilizando as técnicas PET
(tomografia por emissão de positrões), que as zonas que se acreditava estarem
apenas especializadas no processamento auditivo da linguagem (sons) também se
activavam quando os surdos-mudos comunicavam por ‘gestos’.
Então, duas interpretações passaram a poder ser deduzidas destes resultados: - Ou as capacidades de processamento da linguagem eram independentes do
canal sensorial, confirmando no cérebro uma estrutura inata propriamente
linguística. Ou, ao invés, o cérebro seria especializado no “tratamento
de imagens complexas”, quer fossem construídas através de sons ou através
de gestos. Como se vê a gestualidade adquiriu hoje uma
importância que antes dos anos 1980, e mesmo dos anos 1990, não tinha. Mas quem
a investigava como nós, e tantos outros, estava mais preparado para a intuir. A questão na actualidade coloca-se do seguinte modo: - A confirmarem-se estes dados, não apenas a “linguagem
verbal” mas também a “linguagem não-verbal” podem estar ambas
implicadas no processo de “dupla articulação” e de
“representação simbólica”, responsáveis pelo processo global de
comunicação humana. Este resultado (hipótese) foi decisivo para a revalorização
da importância das investigações em gestualidade. Porque passaram a
faltar investigações que pudessem indicar de que modo esse entre-cruzamento se
realizaria. No caso da investigação em antropologia que
prosseguimos com Maria Isabel Tristany partimos da hipótese de que o cérebro
necessitará de fragmentos (‘formas’) que permitam uma representação
(‘imagem’), para depois poder associá-la a um ‘sentido/significado
aprendido’ (socialmente pertinente). Ou seja, o nosso contributo
advém de investigar, em Portugal, em amostras e contextos interactivos
bem delimitados, e em confronto com as variáveis género e idade,
quais e como são as ‘configurações gestuais’ escolhidas socialmente
para se tornarem “representações” e “signos”
(“unidades elementares”) constitutivos do processo de comunicação
cultural. Foi assim que o Museu da Gestualidade nasceu.
Portanto ainda não ligado ao aprofundamento da questão da Museologia e do
Património que fizemos posteriormente. Caro Manuel de Castro Nunes espero ter respondido, em
parte, à questão que me colocou. Antes de regressar novamente à Museologia e ao Património
permitam-me um comentário. Quando os responsáveis e as entidades pelo
Património dito “intangível” ou “imaterial”
se propõem, por exemplo, fazer o seu ‘inventário’ devem esforçar-se
por possuírem as habilitações técnicas e científicas adequadas. Porque são
áreas muito desenvolvidas a nível mundial, com que a museologia não está
familiarizada. Sugiro que façam uma aproximação, ou mesmo estabeleçam uma
parceria, com o Programa Europeu “Origins of Man, Language and
languages”, e com a “International Society for Gesture
Studies” fundada em 2002. Mas regressemos novamente ao Património. A gestualidade é apenas uma parte das quatro
partes do ‘objecto patrimonial’. Por exemplo no objecto patrimonial
‘copo’, o ‘modo de beber’ ou o ‘modo
de o pegar’ são uma e a mesma coisa patrimonial - seja no Neolítico ou na contemporaneidade, seja no culto ou em
ambiente profano. Que obviamente assumiram ‘formas’ (isto é,
‘documentos-dados’) diferentes consoante o tempo histórico.
Assim o é também para os fonemas que o anunciam na fala; e para os ícones que o
etiquetam, a quem F. Saussure (ou G. Gabelentz, 1891) chamou de “significantes”.
Todas estas quatro partes são «uma dinâmica una da realidade constituinte do
‘objecto patrimonial’». O canto, a música, a desgarrada, o assobio, o pregão,
a serenata pertencerão á ‘oralidade’. A quadra e a décima
se forem registos alfanuméricos, ou se forem sinais ou escritas e não sons,
pertencerão à ‘iconicidade’. Os modos de utilização dos
músculos faciais á volta do zigomático, e dos outros no fazer dessa
‘oralidade’ pertencerão outra vez à ‘gestualidade’.
Os ‘suportes’ onde tudo isto for registado pertencerão à parte da
‘materialidade’. Antes de prosseguir que fique esclarecido para quem
nos ‘vê’: Não consigo ir muito mais além daquilo que sou capaz. Que
é muito pouco. Mas aqui o que fazemos é um diálogo e uma troca. E, na humildade
disso, provavelmente não há «respostas». Apenas o fluir que Manuel de Castro
Nunes mencionou na epígrafe desta mensagem. Um percurso que não tem fim, nem
metas, nem certezas absolutas. Assim mais leve, e como hipótese acerca da gestualidade
e do Património em geral, diria que a deficiência está em nós. Não somos
capazes senão de dividir para perceber/compreender. Mas essa limitação não nos
impede de percebermos que fragmentámos. Portanto não é impeditiva de definirmos
como ‘modelo’ a Unidade. Apesar de não a conseguirmos
alcançar. O problema são os nossos limites perante a
evidência duma realidade patrimonial que se nos dá em quatro partes. Mas essa é
também a beleza do nosso desafio de viver, perante uma consciência que nos dá à
frente aquilo que o metabolismo perceptivo e funcional não é capaz. É
por isso incompreensível a guerra que se está a fazer acerca da mudança do
Museu Nacional de Arqueologia. O legado de José Leite de Vasconcelos e a gestão
do Património Português são reduzidos à mesquinha questão do(s)
‘museu’. A falta de consistência nesse debate irá ser
aproveitada, se bem antevejo, pelos políticos com letra pequena. Porque os há
com letra grande. A Política, para mim, é nobre. E aparecerão também, se bem adivinho,
os políticos disfarçados de museólogos (arqueólogos e demais especialidades
aparentemente interessadas no Património). Não faltará muito para o debate se
cingir às eternas duas facções binárias características do obscurantismo:
[‘saio’ ou ‘não saio’]; [é ‘laranja’ ou
‘cor-de-rosa’]; [é ‘vermelho’ ou ‘azul’]? Uma tristeza… enfim. Pedro Manuel Cardoso (Museu da Gestualidade) |
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