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Re:
Prosseguindo uma troca de ideias, passo a passo. Caro
Manuel de Castro Nunes, na próxima semana iniciarei a colaboração num
‘grupo de trabalho’ que tentará implementar um projecto de
prevenção da violência nas Escolas. A antropologia será chamada a dar o seu
contributo, através da lição que recebeu do legado dos que melhor souberam
lidar com ela no passado. Afastar-me-ei até Agosto desta polémica sobre o
‘museu dos Jerónimos’. Quando regressar talvez me tenha enganado, e
já haja uma solução, a bem de Portugal e do seu Património. É o que mais
desejo. Contribui como pude para mostrar que há outras soluções e alternativas.
É necessário que a política museológica e patrimonial esteja aberta a aceitar
novas perspectivas e novos contributos. Mas é também necessário que os
protagonistas e responsáveis que permanecem há anos nos ‘museus’
também o estejam. Que é um erro reduzir o programa de patrimonização da
«ocupação humana e da vida no território a que chamamos hoje Portugal» à questão
apenas dos ‘museus’, e muito menos à do ‘museu de arqueologia
dos Jerónimos’. Está
na hora de abalar. Sobre
a questão dos arquétipos, talvez não tenhamos avançado muito mais do que
avançaram os que estiveram entre 10 e 13 de Outubro de 1975 na Abadia de
Royaumont. Massimo Piatelli-Palmarini relata esse admirável encontro entre Jean
Piaget e Noam Chomsky (em português há a tradução das Edições 70, “Teorias
da Linguagem, Teorias da Aprendizagem”, Porto, 1987) que transpõe a
questão dos arquétipos para o impasse entre Genética e Cultura, que,
como muito bem diz é “um nó a desatar”. Estiveram nesse debate
muitos nomes importantes do saber do nosso tempo (G. Bateson, J.-P. Changeux,
A. Danchin, J. Fodor, M. Godelier, B. Inhelder, F. Jacob, J. Mehler, J. Monod,
J. Petitot, D. Premack, H. Putnam, R. Thom, D, Sperber, e outros). Nessa altura
sentíamos os campos extremados, e esses dois domínios como fortalezas
inexpugnáveis, obrigando-nos a ficar ou de um lado ou do outro da muralha.
Razão pela qual Massimo Piatelli-Palmarini pôs na epígrafe a afirmação de
Jacques Monod proferida em 1970: “Ao colocar a vasta questão: o que
faz o homem ser homem? Verifico que há a sua Cultura, por um lado, e o seu
Genoma por outro, é claro. Mas quais são os limites genéticos da Cultura? Qual
é o seu bloco genético? Não sabemos nada sobre isso. E é pena, porque este é o
problema mais apaixonante, o mais fundamental que há.”. Todavia,
embora seja ainda um nó a desatar, houve avanços. Avanços que tornaram a
inexpugnabilidade mais permeável. A ‘caixa de Pandora’ foi aberta
por muitos, que agora não seria oportuno referir. Mas um desses responsáveis,
que é crucial para o estudo da Museologia e do Património, e que já referi
várias vezes, é sem dúvida Eric Kandel com o seu trabalho sobre a Memória. Ora,
sobre os arquétipos Ernst Mayr lembra-nos que não viemos ao mundo como
uma tábua rasa, viemos com um “programa fechado” que
se foi gradualmente abrindo, e que está ainda muito mais fechado do que
seria o nosso desejo. Os avanços da actualidade - depois do
esforço dos ‘seis magníficos evolucionistas’ (Lamark, Darwin,
Haeckel, T.H. Huxley, de Vries e T.H. Morgan) - mostram que
em Homo há sempre uma ‘codificação bio-socio-cultural’ que se
interpõe entre a Genética e a Cultura na qual é possível interferir. Ou seja,
que os arquétipos podem ser modificados pela “agência”
do sujeito humano. Mesmo que ainda só estejamos na infância dessa
interferência. Obrigado,
Manuel de Castro Nunes. Um
abraço. Pedro
Manuel Cardoso |
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