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[Museum] Notícia no Público de hoje sobre Museu do Douro

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Notícia no Público de hoje sobre Museu do Douro
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Mon, 3 Jan 2011 10:10:01 -0000

Crise financeira ameaça futuro imediato do Museu do Douro
Por Sérgio C. Andrade
Responsáveis dizem que são os efeitos da crise e da falta das contribuições
dos autarcas. Estes queixam-se da escassa ligação do museu à região do Douro
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Salários em atraso ou pagos fora dos prazos normais, milhares de euros em
dívida por parte das autarquias que integram a fundação, diminuição da
dotação estatal, demissões, um programa que alguns dizem estar divorciado da
região, decréscimo no número de visitantes e críticas ao desempenho do
actual director artístico perfazem o quadro em que o Museu do Douro (MD)
assinalou, no dia 20 de Dezembro, o segundo aniversário da inauguração da
sua nova sede na Régua. 

As quase três dezenas de funcionários que integram o quadro do museu têm
recebido os salários com atrasos desde o Verão, e só lhes foi paga parte
(400 euros) do subsídio de Natal, situação que, já depois do fim-de-semana
natalício, a presidente do conselho de administração, Elisa Babo, garantia
estar em vias de resolução. A mesma responsável põe também de parte o
cenário de despedimentos, apesar de o plano de actividades para 2011
recentemente aprovado prever uma redução da massa salarial de 7 por cento. 

"A crise financeira do Museu do Douro é idêntica à de muitas outras
instituições no nosso país que estão dependentes das contribuições dos seus
fundadores", justifica Elisa Babo. Ao que o PÚBLICO apurou, as dívidas das
21 autarquias que integram a Fundação Museu do Douro ascendem a 350 mil
euros, e o museu tem-se visto obrigado a recorrer a capital fundacional para
suprir as despesas. Elisa Babo não confirma aquele montante, mas justifica
com esses atrasos a situação complicada que a instituição atravessa. Sobre o
recurso ao capital fundacional, diz que esse expediente foi já "estancado
este ano", e manifesta a expectativa de que esse fundo possa começar a ser
reposto já em 2011. 

Fernando Maia Pinto, director artístico do MD, confirma também "a situação
delicada" e os "constrangimentos" que têm afectado o programa de actividades
do museu, que, por exemplo, motivaram o adiamento do ciclo de exposições
Rios Douro. E responsabiliza as autarquias pelo "não cumprimento" das suas
obrigações. 

A Câmara de Lamego é uma das que têm pagamentos atrasados. O seu presidente,
Francisco Lopes (PSD), justifica a situação pela crise que a autarquia
enfrenta. "Em situação de dificuldades financeiras, temos de ser criteriosos
no pagamento das nossas contas, e temos de definir prioridades", diz o
autarca social-democrata, sem esconder também o "desencanto e desilusão" que
sente relativamente à orientação que vem sendo seguida pelo MD. 

Francisco Lopes tem uma objecção de fundo, aliás partilhada por outros
autarcas durienses, relativamente aos estatutos do museu, que só permitem
aos representantes do poder local darem pareceres, sem poderem intervir na
definição do plano de actividades. "Porque não quero fazer figura de corpo
presente num órgão como este [Conselho de Fundadores], desde há mais de um
ano que decidi não me envolver nos assuntos do Museu do Douro", diz o
presidente da Câmara de Lamego, que, no entanto, decidiu pagar já a tranche
do primeiro semestre de 2010, para "ajudar a pagar os salários". 

Críticas à direcção artística 

O conselho de administração do museu está, de resto, sem representante das
autarquias após a recente demissão do ex-presidente da Câmara de S. João da
Pesqueira, António Lima Costa, por razões que não conseguimos confirmar
junto do próprio, mas que Elisa Babo diz terem sido "de ordem pessoal". A
administradora acrescenta esperar que os autarcas encontrem depressa o seu
novo representante; já sobre a questão dos estatutos, diz que eles poderão
ser "revistos e melhorados" a seu tempo, como acontece com outras fundações.


Depois da grande aposta feita com a exposição de inauguração da nova sede na
Régua, em Dezembro de 2008, dedicada ao barão de Forrester, o MD
confrontou-se, este ano, com a inevitabilidade de adiar parte das
iniciativas do ciclo Rios Douro, acabando por se ficar pela exposição do
pintor portuense Joaquim Lopes, cujo tempo de exibição foi dilatado para
além do inicialmente previsto. 

Algumas das críticas que se ouvem sobre a programação e a acção do MD é a de
que ele não tem em conta a sua marca original de "museu de território".
Gaspar Martins Pereira, o historiador que foi a principal figura do processo
de lançamento do museu, e ao qual esteve ligado durante uma década, até
ter-se demitido no início de 2007, quando percebeu que tinha perdido a
confiança da administração da altura, não quis alongar-se muito na
apreciação da direcção que a instituição tomou após a sua saída. "Verifico
que o projecto que corporizei foi alterado, mas não tenho grande coisa a
dizer sobre isso, além de que há toda a legitimidade para se fazer as coisas
de modo diferente", diz o historiador, que, no entanto, vê a falta de
sustentabilidade financeira e as escassas relação com a região e
representação do território como as principais lacunas. 

O presidente da Câmara de Alijó, José Artur Cascarejo (PS), também acha que
"a ligação com o território devia ser mais aprofundada", e reafirma que a
saída de Gaspar Martins Pereira redundou "numa grande perda" para o
projecto. Sem querer fazer "considerações de ordem pessoal", o autarca
socialista acha que o MD padece de "um problema de liderança". Mas não
acredita que a anunciada nomeação de um subdirector para o quadro do museu
venha resolver a situação, muito menos em situação de crise financeira como
a que se vive. 

Fernando Seara, o arquitecto que tem ocupado o cargo de assessor da direcção
do MD, é o nome indigitado para fazer equipa com Fernando Maia Pinto a
partir do próximo ano. Elisa Babo assegura que a sua entrada no quadro vai
resultar numa "poupança" relativamente ao custo da assessoria, além de que
será uma solução de continuidade com "o bom trabalho de equipa" que Seara
vem fazendo com Maia Pinto para garantir a sustentabilidade do museu. Mário
Mesquita Montes, vereador do Turismo da Câmara da Régua (PSD), aceita esta
justificação e dá o benefício da dúvida à direcção artística. "Maia Pinto
teve de lidar com um período de transição complicado, mas tem a melhor das
boas-vontades, e todos nós temos de ajudar para cumprir o projecto do Museu
do Douro, que é muito importante para o turismo". 

O director do museu foi o principal alvo de uma "denúncia" assinada "M.
Sousa Tavares" e enviada por mail em meados de Dezembro para os vários
membros da fundação. O texto associa críticas a considerações de índole
pessoal em termos que Maia Pinto e a administração consideraram "ofensivos e
maldosos" - decidiram, por isso, apresentar uma queixa-crime na GNR da
Régua. 

Maia Pinto diz, no entanto, que não foge às críticas. "Não sou autista",
adianta o director, defendendo que o seu programa só não tem sido mais
conforme ao inicialmente projectado "por causa das dificuldades
financeiras". Mas repudia a acusação de se estar a afastar do programa de um
museu de território e da representação da região. Para além da mostra
permanente Memória da Terra do Vinho, e daquelas que foram dedicadas ao
barão de Forrester e a Joaquim Lopes, "que são irrecusavelmente figuras do
Douro, o museu apresenta agora exposições que poderiam estar em qualquer
outro grande museu do mundo", referindo-se aos trabalhos de José Rodrigues,
Para um Altar, e à Colecção Ernst Lieblich. "As pessoas do Douro também têm
o direito a conhecer obras como estas, e o museu não pode ficar só virado
para o umbigo da região", diz Maia Pinto.
 
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