Crise financeira ameaça futuro imediato do Museu do Douro Por Sérgio C. Andrade Responsáveis dizem que são os efeitos da crise e da falta das contribuições dos autarcas. Estes queixam-se da escassa ligação do museu à região do Douro * Programa para 2011 <http://jornal.publico.pt/noticia/03-01-2011/programa-para-2011-20939607.htm > * Partilhar <http://www.addthis.com/bookmark.php?v=250&pub=xa-4a7c30230855409b> * Imprimir * Comentar <http://jornal.publico.pt/noticia/03-01-2011/crise-financeira-ameaca-futuro- imediato-do-museu-do-douro-20939602.htm?utm_source=feedburner&utm_medium=fee d&utm_campaign=Feed%3A+JornalPublico+%28P%C3%9ABLICO+-+Edi%C3%A7%C3%A3o+Impr essa%29> * Enviar * Diminuir * Aumentar Salários em atraso ou pagos fora dos prazos normais, milhares de euros em dívida por parte das autarquias que integram a fundação, diminuição da dotação estatal, demissões, um programa que alguns dizem estar divorciado da região, decréscimo no número de visitantes e críticas ao desempenho do actual director artístico perfazem o quadro em que o Museu do Douro (MD) assinalou, no dia 20 de Dezembro, o segundo aniversário da inauguração da sua nova sede na Régua. As quase três dezenas de funcionários que integram o quadro do museu têm recebido os salários com atrasos desde o Verão, e só lhes foi paga parte (400 euros) do subsídio de Natal, situação que, já depois do fim-de-semana natalício, a presidente do conselho de administração, Elisa Babo, garantia estar em vias de resolução. A mesma responsável põe também de parte o cenário de despedimentos, apesar de o plano de actividades para 2011 recentemente aprovado prever uma redução da massa salarial de 7 por cento. "A crise financeira do Museu do Douro é idêntica à de muitas outras instituições no nosso país que estão dependentes das contribuições dos seus fundadores", justifica Elisa Babo. Ao que o PÚBLICO apurou, as dívidas das 21 autarquias que integram a Fundação Museu do Douro ascendem a 350 mil euros, e o museu tem-se visto obrigado a recorrer a capital fundacional para suprir as despesas. Elisa Babo não confirma aquele montante, mas justifica com esses atrasos a situação complicada que a instituição atravessa. Sobre o recurso ao capital fundacional, diz que esse expediente foi já "estancado este ano", e manifesta a expectativa de que esse fundo possa começar a ser reposto já em 2011. Fernando Maia Pinto, director artístico do MD, confirma também "a situação delicada" e os "constrangimentos" que têm afectado o programa de actividades do museu, que, por exemplo, motivaram o adiamento do ciclo de exposições Rios Douro. E responsabiliza as autarquias pelo "não cumprimento" das suas obrigações. A Câmara de Lamego é uma das que têm pagamentos atrasados. O seu presidente, Francisco Lopes (PSD), justifica a situação pela crise que a autarquia enfrenta. "Em situação de dificuldades financeiras, temos de ser criteriosos no pagamento das nossas contas, e temos de definir prioridades", diz o autarca social-democrata, sem esconder também o "desencanto e desilusão" que sente relativamente à orientação que vem sendo seguida pelo MD. Francisco Lopes tem uma objecção de fundo, aliás partilhada por outros autarcas durienses, relativamente aos estatutos do museu, que só permitem aos representantes do poder local darem pareceres, sem poderem intervir na definição do plano de actividades. "Porque não quero fazer figura de corpo presente num órgão como este [Conselho de Fundadores], desde há mais de um ano que decidi não me envolver nos assuntos do Museu do Douro", diz o presidente da Câmara de Lamego, que, no entanto, decidiu pagar já a tranche do primeiro semestre de 2010, para "ajudar a pagar os salários". Críticas à direcção artística O conselho de administração do museu está, de resto, sem representante das autarquias após a recente demissão do ex-presidente da Câmara de S. João da Pesqueira, António Lima Costa, por razões que não conseguimos confirmar junto do próprio, mas que Elisa Babo diz terem sido "de ordem pessoal". A administradora acrescenta esperar que os autarcas encontrem depressa o seu novo representante; já sobre a questão dos estatutos, diz que eles poderão ser "revistos e melhorados" a seu tempo, como acontece com outras fundações. Depois da grande aposta feita com a exposição de inauguração da nova sede na Régua, em Dezembro de 2008, dedicada ao barão de Forrester, o MD confrontou-se, este ano, com a inevitabilidade de adiar parte das iniciativas do ciclo Rios Douro, acabando por se ficar pela exposição do pintor portuense Joaquim Lopes, cujo tempo de exibição foi dilatado para além do inicialmente previsto. Algumas das críticas que se ouvem sobre a programação e a acção do MD é a de que ele não tem em conta a sua marca original de "museu de território". Gaspar Martins Pereira, o historiador que foi a principal figura do processo de lançamento do museu, e ao qual esteve ligado durante uma década, até ter-se demitido no início de 2007, quando percebeu que tinha perdido a confiança da administração da altura, não quis alongar-se muito na apreciação da direcção que a instituição tomou após a sua saída. "Verifico que o projecto que corporizei foi alterado, mas não tenho grande coisa a dizer sobre isso, além de que há toda a legitimidade para se fazer as coisas de modo diferente", diz o historiador, que, no entanto, vê a falta de sustentabilidade financeira e as escassas relação com a região e representação do território como as principais lacunas. O presidente da Câmara de Alijó, José Artur Cascarejo (PS), também acha que "a ligação com o território devia ser mais aprofundada", e reafirma que a saída de Gaspar Martins Pereira redundou "numa grande perda" para o projecto. Sem querer fazer "considerações de ordem pessoal", o autarca socialista acha que o MD padece de "um problema de liderança". Mas não acredita que a anunciada nomeação de um subdirector para o quadro do museu venha resolver a situação, muito menos em situação de crise financeira como a que se vive. Fernando Seara, o arquitecto que tem ocupado o cargo de assessor da direcção do MD, é o nome indigitado para fazer equipa com Fernando Maia Pinto a partir do próximo ano. Elisa Babo assegura que a sua entrada no quadro vai resultar numa "poupança" relativamente ao custo da assessoria, além de que será uma solução de continuidade com "o bom trabalho de equipa" que Seara vem fazendo com Maia Pinto para garantir a sustentabilidade do museu. Mário Mesquita Montes, vereador do Turismo da Câmara da Régua (PSD), aceita esta justificação e dá o benefício da dúvida à direcção artística. "Maia Pinto teve de lidar com um período de transição complicado, mas tem a melhor das boas-vontades, e todos nós temos de ajudar para cumprir o projecto do Museu do Douro, que é muito importante para o turismo". O director do museu foi o principal alvo de uma "denúncia" assinada "M. Sousa Tavares" e enviada por mail em meados de Dezembro para os vários membros da fundação. O texto associa críticas a considerações de índole pessoal em termos que Maia Pinto e a administração consideraram "ofensivos e maldosos" - decidiram, por isso, apresentar uma queixa-crime na GNR da Régua. Maia Pinto diz, no entanto, que não foge às críticas. "Não sou autista", adianta o director, defendendo que o seu programa só não tem sido mais conforme ao inicialmente projectado "por causa das dificuldades financeiras". Mas repudia a acusação de se estar a afastar do programa de um museu de território e da representação da região. Para além da mostra permanente Memória da Terra do Vinho, e daquelas que foram dedicadas ao barão de Forrester e a Joaquim Lopes, "que são irrecusavelmente figuras do Douro, o museu apresenta agora exposições que poderiam estar em qualquer outro grande museu do mundo", referindo-se aos trabalhos de José Rodrigues, Para um Altar, e à Colecção Ernst Lieblich. "As pessoas do Douro também têm o direito a conhecer obras como estas, e o museu não pode ficar só virado para o umbigo da região", diz Maia Pinto. PUB
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