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[Museum] A Cultura perante o Património

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A Cultura perante o Património
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Fri, 25 Mar 2011 01:41:56 +0000

Com o objectivo de partilhar o resultado do trabalho que concluí em Fevereiro de 2011 na Universidade de Lisboa junto envio algumas notas da Conclusão final:

 

A conclusão principal é a de que o Património é - sejam quais forem os objectos e a materialidade que se considerem - um ‘código’ e uma ‘codificação’ que permitem à consciência (cérebro) fazer a gestão da Relevância e colocá-la em Memória. Os objectos e a materialidade funcionam como pretextos para a construção das instruções e mensagens da relevância que a cognição detecta na realidade-existência. E são elas que são verdadeiramente o Património - tal como vimos com a descoberta da Estrutura do Valor Patrimonial. Os objectos de Füsum que Kemal coleccionava compulsivamente no museu da inocência de Orhan Pamud não valem por si, mas pelo amor que sinalizam para a cognição (Pamud, 2010). O Património é, assim, a ferramenta humana (Cultural) para gerir a Relevância.

Em consequência, a compreensão do Património ocorre no domínio do fenómeno da Relevância. Em termos teóricos, o Estudo do Património visa a compreensão do processo que confere à realidade-existência a qualidade patrimonial através de um modelo interpretativo que relaciona os processos de patrimonização, musealização e memória, cujo contexto é uma oscilação permanente entre Fenomenologia e Positivismo. Em termos práticos, visa obter um ‘suporte’ com ‘documentos/dados’ de partes da realidade-existência consideradas patrimonialmente relevantes cujo acesso pela ‘memória-cognição’ não tenha limitações (espaciais, temporais, contextuais ou outras), eventualmente para obter uma vantagem adaptativa. Em que os designados ‘museu’, ‘biblioteca’, ‘arquivo’, e outras infra-estruturas equiparadas servem para envolver alguns tipos de património, eventualmente para os melhor gerir e preservar.

A questão patrimonial é pertinente para a Cultura porque permite perceber como jogam as duas principais convicções contemporâneas: a do Desenvolvimento e a da Ciência. E o Património exige que a Cultura não se abstenha de falar delas como ideologias. Exige que não abdique da crítica permanente aos sistemas de validação da verdade próprios de cada época. Na interpretação do património é isso que impede a auto-referência e o impasse tautológico. É a procura dessa exterioridade que permite alcançar as analogias fundadoras de novos saberes, e as intuições de rompimento que derrubam os ciclos fechados e os impasses tomados como ‘o fim’ ou ‘o limite’, como por exemplo aquele a que Wittgenstein nos condenou, de o Ser e o Pensar ficarem irremediavelmente presos à alternativa de Dizer ou ficar em silêncio. Com o Património vimos que comunicar não se esgota no dizer. Nele nem comunicar é dizer.

Manuel Frias Martins (1995) intuiu uma analogia do Indefinido com a “matéria negra”. Isto é, provocou uma relação entre uma categoria de ordem cultural e uma entidade do campo do infinitamente grande dita de ordem física. Esse dizer não fica preso apenas à metáfora ou ao território da crítica literária. Digam o que disserem nunca deixará de ter sido um acto. E sê-lo-á sempre, quaisquer que sejam as intenções do emissor e as significações do receptor, as quais ser-lhe-ão sempre visitas efémeras. Do mesmo modo também a codificação da Relevância no caso do Património poderia estabelecer uma analogia com a física, mas nesse caso encontrá-la-íamos na relação de atracção que as partículas do infinitamente pequeno mantêm com o bosão de Higgs. E a sucessão de codificações (a existência de ‘códigos’) que observamos empiricamente nos domínios biológico, social e cultural remetem para um fenómeno que necessita de reflexão. Pois aponta para uma anterioridade maior (talvez haja um código na física como o genético ou o patrimonial) e um efeito na posteridade a não desprezar. No caso do Património, Dizer ou Comunicar não dissolvem o acto que necessitam para poderem ter sido.

Os resultados alcançados por este trabalho derivam de termos perspectivado o Património através da Cultura e da Comunicação usando-as como um patamar lógico exterior de onde o pudemos analisar de fora. Afastando-nos do ponto de vista da museologia e da apologia dos museus. Se os resultados deste trabalho forem úteis, então, talvez possam ser um ponto-de-partida para uma nova abordagem à questão patrimonial. Sendo este o desafio que a Cultura tem na contemporaneidade, não apenas no que respeita à gestão do Património, mas também no campo disciplinar e académico do seu estudo.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 


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