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[Museum] A Cultura perante o Património: Os erros recentes de Sperber, Rancière, Žižek e outros.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A Cultura perante o Património: Os erros recentes de Sperber, Rancière, Žižek e outros.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 9 Jun 2011 21:28:48 +0100

A Cultura perante o Património: Os erros recentes de Sperber, Rancière, Žižek e outros.

Os resultados alcançados pelo trabalho “A Cultura perante o Património” (Manuel-Cardoso, 2011) indicam que o Património é a ferramenta humana (Cultural) para gerir a Relevância, e que a sua compreensão ocorre no domínio desse fenómeno bio-socio-cultural. Mas refuta a afirmação de que “uma suposição é relevante dentro de um contexto se, e apenas se, tiver algum efeito contextual nesse contexto.” (Sperber & Wilson, 2001, p. 194). Pois os resultados indicam que a relevância do património não ocorre apenas desse modo ¾ fechada na especificidade particular de cada contexto sócio-histórico; ou nas propriedades materiais, formais ou estéticas de cada objecto patrimonial. Foi possível demonstrar que a redução algorítmica da Relevância a códigos permitiu desenvolver capacidades cognitivas cada vez mais apuradas e eficazes. E, ao ser possível pôr em código o valor patrimonial dos ‘objectos’, foi possível transmiti-lo às gerações seguintes sob a forma de codificação. Portanto, ser relevante num contexto (época) pode ter um efeito noutra época e noutro contexto. Esse processo de codificação foi, pelo menos em parte, responsável pelo aparecimento da abdução, da analogia, da dedução, da homologia e das restantes capacidades inerentes aos nove valores patrimoniais que se descobriu existirem nesse mapa mental que designámos por Estrutura do Valor Patrimonial (Manuel-Cardoso, 2010). São eles que servem de critérios-instruções para seleccionar os objectos que designamos por ‘património’ e dotá-los da qualidade patrimonial. São esses critérios que transformam a realidade e os objectos em Património. E que trabalham para aperfeiçoarem a habilidade da mente nessa busca da Relevância. A gestão da Relevância durante a filogenia, pela importância que se verifica ter para o êxito adaptativo, tem grande probabilidade de constituir uma parte da explicação para a origem da própria cognição. Os factos indicam que este é um caminho que vale a pena percorrer na investigação e na interpretação do Património.

Mas os resultados deste trabalho indicam também que, no caso do Património, não é verdade “que não haja qualquer expectativa” dos seres humanos gerirem a Relevância de modo “equilibrado e satisfatório” como afirmam Dan Sperber e Deirde Wilson (Sperber & Wilson, 2001, p.240). Essa esperança está nas heurísticas que os mesmos autores reconheceram existirem, “sendo algumas inatas, outras desenvolvidas através da experiência” (ibidem), e que neste trabalho verificámos estarem codificadas na mnése. As quais Arthur Kœstler já tinha chamado “regras de jogo”, pressupondo que regiam “a vida orgânica, em todas as suas manifestações, desde a morfogénese até ao pensamento simbólico” (Watzlawick & all. 1972, p. 21). É por isso que Jacques Rancière fica surpreendido com os resultados dos alunos flamengos de Joseph Jacotot (Rancière, 2010:10), e chama de “acaso e sorte” (Rancière, 2010:12) à capacidade de compreensão das crianças. Podemos encontrar o mesmo erro em Slavoj Žižek, ao aprisionar o Hino à Alegria (Der Ode an die Freude) do último andamento da nona sinfonia de Beethoven à “(…) tarefa crítica de recolocar o «evento» no contexto dos antagonismos do capitalismo global”, retirando-lhe a relevância estética que acaba por confirmar ser comum nos vários receptores, sejam Abimael Guzman, Ian Smith, Romain Rolland, ou em “(…) todos os que são inimigos jurados, de Hitler a Estaline, de Bush a Saddam” (Žižek, 2006:12). O Património ao resistir aos diferentes contextos que se foram sucedendo, e ao deixar de ser uma mera conjectura introspectiva, ajuda a compreender o pensamento e a acção humanas, e contribui para reforçar a “(…) ligação entre as ciências tradicionalmente vocacionadas para a natureza e o mundo físico e as humanidades.” (Squire & Kandel, 2002, p.223).

Inesperadamente os resultados deste trabalho trouxeram uma pista importante para a elucidação da origem da cognição humana. Revelando uma parte da Vida que escapa à explicação baseada na lógica fechada e estrita da «variação – adaptação – selecção», ou da “common descent – gradualness – population speciation – natural selection” (E. Mayr, 2001:87). Este dado coloca o Património na agenda da investigação científica contemporânea de vanguarda, e a abre-lhe a porta para novos e profícuos projectos. O Estudo do Património deixa de ser apenas, tendo em consideração a “classificação das áreas do conhecimento” (FOS/2007/OCDE), um assunto subjectivo do foro das Humanidades.

 

Pedro Manuel-Cardoso


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