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O novo rumo dos museus em Portugal “Consumatum
est”
Em resultado do que vinha sendo paulatinamente preparado
nos últimos anos, as estruturas museológicas deste país estão agora a sofrer
alterações substantivas, tanto na forma como na substância, publicamente
assumidas com a nova lei orgânica da Direcção Geral do Património Cultural e
das restantes direcções regionais de cultura. A minha percepção sobre estas mudanças pode sintetizar-se
nos seguintes pontos: 1º - Nas matérias da forma, cuja carga simbólica é sempre
a mais importante a considerar, assume-se como opção política de fundo, segundo
as próprias afirmações do Director Geral do Património Cultural, a manutenção
dos museus “nacionais” e dos palácios na dependência directa dos
serviços centrais da Secretaria de Estado da Cultura (na nova DGPC), passando
todos os “outros” museus para a tutela das diversas direcções
regionais, os designados serviços periféricos da mesma Secretaria de Estado, em
função da localização geográfica de cada um dos restantes museus. Duas incompreensíveis e contraditórias excepções
demonstram, desde logo, a inconsistência do critério anunciado – o Museu
Grão Vasco não possui a designação de “nacional” mas mantém-se na
tutela do serviço central, e o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães,
estando incluído na tipologia dos “palácios”, passa para a tutela
do serviço periférico da região norte. Faria todo o sentido que fosse explicado aos portugueses,
em detalhe e por quem de direito, as razões de ser de tais excepções, que têm
obrigatoriamente que ser muito fortes e inquestionáveis, porque, se o não
forem, põem em causa a seriedade deste processo... 2º - Percebemos, assim, que este Governo estabelece a
existência de duas “classes” de museus estatais – os
nacionais e os “outros” – não se sabendo muito bem como
haveremos de designar estes últimos, porque nos “outros” museus
existem colecções de relevância nacional e projecção internacional, em
determinados casos tão ou mais relevantes do que os contidos em alguns dos
chamados museus “nacionais”, o que não permite nem admite que se
designem tais museus como “regionais” (e muito menos
“locais”), em nome da mesma seriedade e do rigor técnico e
científico que abona a favor dos respectivos acervos, talvez o primeiro e um
dos mais importantes fundamentos que deveriam ter presidido às alterações
modelares, o que não foi, seguramente, o que agora aconteceu... Em termos geográficos, os museus “nacionais”
estão todos situados em Lisboa, à excepção de dois solitários e emblemáticos
casos, Machado de Castro e Soares dos Reis, um em Coimbra e o outro no Porto,
respectivamente. Sem esquecer o imoral caso de Viseu (imoral à luz dos
critérios anunciados), claro! Tudo o resto parece ser um aborrecido
“incómodo” de paisagem provinciana, constituindo este modelo um
nítido retrocesso ao processo de afirmação de uma rede museológica nacional,
conforme está concebida na Lei Quadro dos Museus Portugueses, Lei essa que foi
aprovada por unanimidade na Assembleia da República, e que agora parece
constituir “letra morta” na construção deste novo figurino museal. É o novo ciclo assumido contra um processo iniciado na 1ª
República e que todos os museológos portugueses acarinharam e defenderam, de
uma forma ou de outra, até à presente data, extinguindo-se agora por razões que
só se podem ligar a um estranho “elitismo”, norteado por
secretíssimas e insondáveis motivações, tudo muito incompreensível num Estado
democrático e de direito em que se supõe que ainda vivemos. 3º - O argumento de peso a favor deste modelo esgrime-se
num hipotético movimento de descentralização dos serviços centrais, em
benefício destas entidades museológicas. O que nos faz apontar agora para as
matérias da substância, e onde tais argumentos, cuja bondade poderíamos admitir
em teoria, esbarram frontalmente com a realidade do modelo proposto, onde cada
uma destas entidades passa a não ter, sequer, um orçamento de funcionamento
próprio, e as suas chefias deixam de existir em algumas delas, situação que se
nos afigura ilegal, à luz das disposições da Lei Quadro já referida. Afirmar, portanto, que um museu que passa de uma tutela
central para uma tutela periférica será mais beneficiado e prestigiado nas suas
funções e papel culturais (e que, para além disso, deixa de ter orçamento
próprio e não é dotado de qualquer direcção que o gira e dinamize internamente,
ficando totalmente dependente de orientações exteriores à sua própria realidade
orgânica e funcional), constitui, no mínimo, uma asserção que nos deixa perplexos
(e em todo o caso, um atentado à nossa inteligência), a pedir demonstração
adequada. Sendo tal modelo, no entender dos seus promotores,
benéfico para os museus portugueses, não se percebe porque razão, então, foi o
mesmo concebido e consumado em total e absoluto segredo, sem qualquer
interlocução, consulta ou audição prévias aos profissionais do sector,
precisamente ao contrário do que o senhor Secretário de Estado da Cultura
afirmou, publicamente e por diversas vezes, que iria suceder a este propósito. 4º - As razões da proximidade aos poderes de decisão,
perante um serviço periférico da administração central, ao invés de as tornar
mais céleres (as decisões), aumentam e burocratizam todo o processo. Caso
paradigmático é o da conservação e restauro dos bens museológicos, cujos
processos terão de passar pelas administrações periféricas mas, no final, lá
terão que desaguar no antigo Instituto José de Figueiredo, em Lisboa, como
sempre sucedeu. E esta não é uma matéria despicienda porque corresponde a um
dos pilares fundamentais das funções específicas dos museus, entre outras de
não menor relevância, que não deixarão de ser tratadas segundo os mesmos
procedimentos anteriormente usados. A não ser, evidentemente, que as direcções regionais sejam
dotadas de generosas verbas e amplos recursos técnicos que as coloque em
condições de assumir integralmente, e com qualidade, tais responsabilidades.
Mas isso fará disparar a despesa pública no sector, para multiplicar por quatro
(tantas quantas as direcções regionais existentes) os recursos financeiros e
técnicos que antes estavam contidos numa única entidade central - o ex- IMC. Oxalá esteja enganado mas, na ausência de um processo que
confira uma real e substantiva autonomia gestionária aos museus, incluir
tutelas intermédias no sistema é, em modesto entender, burocratizar e complicar
ainda mais o que já de si era complexo e de difícil realização. 5º - Mas o mais extraordinário em todo este processo,
tanto na forma como na substância, é que em lado algum nos é demonstrado, ainda
que por estimativa, que tais alterações irão resultar em ganhos de
rentabilidade, eficácia e eficiência para os museus portugueses, isto já para
não abordarmos as questões de natureza financeira, onde os ganhos
hipoteticamente obtidos com a extinção de alguns (poucos) cargos de direcção
(opção que nem no tempo da fome e da guerra foi adoptada pelo Estado Novo)
chegarão para compensar os enormes custos decorrentes da implantação no terreno
de um corpo técnico e cientificamente capaz de corresponder às necessidades dos
museus, no seio das quatro direcções regionais que agora terão os museus sob
sua responsabilidade gestionária. Se é este o caminho para a reforma administrativa, na área
da cultura, decorrente da aplicação no terreno, do PREMAC, bem podemos temer
que os resultados finais fiquem muito aquém do previsto, porquanto não é,
seguramente, a destruição pura e simples de meia dúzia de chefias intermédias,
que irão resolver esta magna questão. Não nos podemos esquecer que tais chefias
resultam, na sua esmagadora maioria, de comissões de serviço de quadros da
administração pública, directa ou indirecta, e que, em termos reais, pouco
reduzem aos gastos globais do Estado Português, se reconduzidos às suas funções
originais. Bastaria desonerar os novos serviços dependentes do SEC
numa mão cheia de subdirectores, que estão manifestamente a mais e são
absolutamente desnecessários, para que se pudessem manter as estruturas no
terreno a funcionar devidamente, estas bem mais necessárias e produtivas que
aquelas, conforme facilmente se percebe sem precisar de muita demonstração
– basta conhecer minimamente a realidade do país... Será que nem as
contas foram feitas, ou esta “história” da contenção por causa da
crise apenas serve para enganar os incautos e ingénuos da província? 6º - No que respeita à ausência de uma qualquer autonomia
orçamental, a regressão vale tanto para os museus que agora são
“despromovidos” como para os museus nacionais que se mantêm na
tutela dos serviços centrais, sendo mesmo de antever maiores dificuldades para
estes que para os “outros”, os tais que no dizer do ex-director do
IMC, de má memória, não faziam parte dos museus “mais
significativos”, demonstrando assim uma olímpica ignorância sobre a qualidade
intrínseca dos acervos museológicos que geriu (mal), respeitantes aos tais
museus que, por oposição àqueles, seriam os “menos significativos”. De um golpe só, faz-se agora de conta que a Lei Quadro dos
Museus não existe, aniquila-se a Rede Portuguesa de Museus (que não se sabe
muito bem no que se irá transformar, se é que se vai transformar em alguma
coisa) e faz-se tábua rasa de um moroso processo de afirmação dos museus
portugueses que tinha vindo a ser construído ao longo das últimas duas décadas,
a partir da constituição do saudoso Instituto Português de Museus. Tudo, portanto, na maior das ligeirezas e desprezo pelo
“histórico” dos museus, para não falarmos das ilegalidades
consentidas, a demonstrar um profundo desdém, ou talvez pior, uma gritante
ignorância sobre a realidade e as necessidades culturais da sociedade
portuguesa que (sobre)vive para além de Lisboa. Tendo eu manifestado publicamente, já no decorrer da
gestão do anterior governo, as maiores dúvidas e preocupações sobre a bondade
do rumo que se estava a traçar para os museus portugueses, e olhando então para
os programas eleitorais de todos os partidos políticos, jamais me seria
permitido admitir que tal rumo iria ser enfaticamente seguido e, em boa
verdade, aprofundado para níveis que ditam o aniquilamento dos museus, enquanto
entidades de cultura minimamente autónomas e independentes, fazendo-nos recear
pelo pior dos destinos para os museus portugueses. Um aspecto porém deve ser realçado nestas transferências
tutelares. É sabido que as direcções regionais de cultura possuem bons quadros
no que diz respeito aos processos de classificação e de requalificação do
património edificado, fruto da construção de um “corpus” técnico
ligado a esses sectores, por serem próprios das funções e obrigações do
ex-IGESPAR, e que muito podem contribuir para a boa conclusão dos diversos
processos de obra, em curso ou a iniciar, em alguns museus estatais. Mas manda a verdade que se diga que este apoio e
colaboração já existia na vigência do modelo anterior, não fazendo sentido
algum “destruir” agora as estruturas de apoio museológico, em nome
de uma rentabilização não comprovada, e que apenas parece basear-se num
preocupante e grosseiro equívoco – o de considerar que os museus e os
monumentos são estruturas idênticas e, como tal, podendo ser ambas geridas da
mesma maneira. Mas não são, e o tempo se encarregará de nos obrigar a
(re)pensar os museus, (re)colocando o seu papel central de promotores vivos de
cultura no lugar estatutário e tutelar que merece e tem direito, mas que agora,
infelizmente, perdeu! Resta-nos esperar apenas que esta seja uma fase meramente
passageira... Agostinho Ribeiro Quarta-feira,
25 de Abril de 2012 http://lamecus.blogs.sapo.pt
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