Acerca do acordo ortográfico. Sumariamente.
Não compreendo a instabilidade emocional transversal que o acordo ortográfico está a suscitar. Tanto entre os que se opõem, como entre os que aderem.
Tanta escassez de cultura a informar falsos pruridos de falsa identidade!
Ontem, foi o primeiro dia de um frio Maio de 2012. Alexandre Soares dos Santos, o insigne patriota promotor de um consagrado compromisso por Portugal, cavalgou a efeméride para demonstrar aos portugueses que a identidade linguística é um eufemismo. Ensinou que a língua é um engenho classista de arremesso.
Alexandre Soares dos Santos deve ter lido Marx, Bergson e talvez Saussure. Ironia. Que lestes vós?
Não sabeis, néscios? Que a língua não é uniforme? Que esteve sempre fragmentada em reprodução da descontinuidade social?
Que nação é essa, que alegais? Aquele Portugal brindado com um compromisso de honra vociferado pelos traidores?
Pois não sabeis que a língua deles é um aparato normativo, que faz de vós carneiros mansos enquanto os pastores vendem os vossos domínios aos lobos?
Eu queria resgatar a nossa língua. Que pode ser a mesma que gritam todos os espoliados de identidade do mundo. Mas vós sois néscios… Continuais a falar uma língua alheia.
Defendei pois a língua e a pátria deles. Eu quedo-me só, junto a um seco, duro e estéril monte, a cuidar da minha.
Cortei os laços da minha solidariedade com a nação e convosco. Para resgatar a minha língua.
O que me interessa o que o estado determina para a sua língua? O erro ortográfico será punido com a pena capital? É que a complacência face ao erro ortográfico está contemplada no pacto social linguístico. Faz parte integrante do acordo. E é nesse domínio, o do erro ortográfico relativamente ao acordo, que resgatarei a minha identidade.
A identidade dos fragmentos sociais da nação é também um erro ortográfico!
Continuarei pois a resistir aos acordos dimanados de cima. Não eliminarei nem subverterei a pontuação, não subverterei a ordem sintáctica para poder ser ambíguo e ofídio, não perfilarei palavras como quem guarda, para a fisga, pedras no bolso.
A assembleia dos notáveis da comunidade editorial também é difusora da norma. Muito mais inclemente do que o estado, de resto. O grémio literário é uma identidade linguística.
Continuarei a enfileirar as palavras de acordo com a ordem sintáctica canónica. Para que não possais dizer que lestes um sim onde eu escrevi um não.
Enfim, sois néscios. Para que vos serviria uma língua comum a uma nação assim tão selecta?
O erro ortográfico do acordo já infectara a vossa língua antes de consagrado no acordo. Era predominantemente sintáctico.
Vou escrever cartas de amor. Que fique o acordo para os requerimentos.
E viva a língua que facultará ao estado português administrar na Guiné o acordo entre as partes. Só poderá ser o Inglês.
E, assim sendo, deixo-vos a minuta para uma carta de amor.
Amo-te! Que posso mais querer?
E quando o amor chama, como posso saber se é pelo meu se pelo teu nome?
Só o ouço chamar. Em tudo o que grita ou murmura, ouço-o chamar, um chamamento fluido como a continuidade das horas.
Não posso fracturar as horas pela sua charneira, com um golpe entre a conclusão de uma e o início de outra. Por isso não consigo pronunciar um nome sem balbuciar pelo menos um verbo e um predicado. Para passar, sem sobressalto, de uma para outra hora.
Então, amor, se vives em mim, como poderei predicar-te senão com os meus atributos?
Ora… então, néscio, fica a saber:
Quando te digo que esta, portuguesa, é a minha língua, é porque a tomei mesmo como a minha língua. Só terei necessidade de que seja também a tua quando tiver que te chamar. Então, terei que predicar o teu nome, para o distinguir do meu.
Aprende que a nação linguística é uma circunstância. Com um tempo circunscrito e com um rol de nomes.
Até lá, sou estrangeiro.
Nota:
Não me vais pedir que ilustre esta com referências para reforçar a sua autoridade, espero. Tudo o que poderia invocar seria estrangeiro, também. A língua portuguesa não contem, no seu léxico, palavras que sirvam a reflexão sobre si própria.
A língua portuguesa é ora o espelho da opulência, ora o espelho da servidão. Entre uma e outra, ficou a literatura.
Deixai, poetas, de plagiar a constituição da república portuguesa!
| Mensagem anterior por data: [Museum] [divulgação]Encontro sobre Património de Almada e Seixal - 19 e 20 de Maio de 2012 - data corrigida | Próxima mensagem por data: [Museum] Novidades na Casa-Museu Medeiros e Almeida |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] O abutre economicista avança - há que matá-lo! | Próxima mensagem por assunto: [Museum] O Aqueduto das Águas Livres, em entrevista... |