À vossa atenção, o artigo que saiu no Público de hoje (http://www.publico.pt/Local/premiado-museu-da-cortica-de-silves-em-risco-de-acabar-em-hasta-publica-1546520# )
Manuel Castelo Ramos
O Museu da Cortiça em Silves, distinguido em 2001 com o prémio Luigi Micheletti - melhor museu industrial da Europa - fechou as portas há três anos e corre o risco de desaparecer. No Dia Internacional dos Museus, que se assinala sexta-feira, reabre ao público mas apenas por algumas horas para mostrar o estado de abandono a que as coisas chegaram. Uma parte do complexo turístico Fábrica do Inglês, onde se situa o museu, já foi colocada à venda em hasta pública por 901.831 euros, pelas Finanças, e o resto do património da empresa vai a caminho da insolvência.
O director do museu, Manuel Ramos, guardião deste património - máquinas corticeiras únicas no mundo e um arquivo documental que remonta ao século XIX - levanta os braços, quando confrontado com o cenário de um desfecho trágico: "Não, não pode ser", declara. Abre a porta e mostra dossiers, de papel amarelecido. No interior do edifício, a cheirar a mofo, a temperatura aproxima-se dos 40 graus - uma estufa onde se guarda uma boa parte da história de um país que é líder mundial na exportação da cortiça. Cá fora, as ervas, com mais de meio metro de altura, rompem pelas fissuras do pavimento e há uma imagem da degradação que perpassa por este lugar carregado de memórias.
Manuel Ramos, professor, acompanha amanhã um turma de jovens entre os 12 e os 15 anos numa acção de limpeza, simbólica, no interior e exterior do edifício, para chamar a atenção da necessidade de existir uma "intervenção pública" no espaço museológico. "Queremos criar uma associação dos amigos do museu e não deixar que o processo de falência da empresa arraste também o museu", adianta. A nível regional, houve algumas anteriores tentativas de mobilização para salvar o espaço cultural, mas todas se revelaram inconsequentes.
O empreendimento Fábrica do Inglês representa um investimento de 12 milhões de euros que se afundou com a cadeia de distribuição alimentar Alicoop/Alisuper, sua proprietária e recentemente adquirida pelo grupo Nogueira. Por via de uma negociação com o Ministério da Economia, os novos donos tornaram-se também sócios maioritários (28% do capital) do complexo turístico mas só manifestaram empenho na reabertura de mais de meia centena de lojas de mercearia até ao Verão. "Não estamos minimamente interessados" foi esta a informação que ex-administrador da Alicoop, José António Silva, diz ter recebido. Perante essa resposta, reuniu há cerca de um mês a assembleia geral e foi decidido pedir a insolvência da empresa. "O que deverá acontecer até final do mês", concretizou.
A venda em hasta pública, pela Autoridade Tributária Aduaneira, com um prazo até 11 de Setembro, refere-se a cerca de metade do empreendimento - um número predial que foi criado em 2001 para permitir avançar com o projecto de um hotel, dedicado à saúde e bem-estar, vocacionado para reformados. A intenção de investimento não se concretizou, nem uma outra mais recente na área do imobiliário. A venda em hasta pública, opina José António Silva, não é plausível que venha a ter sucesso. "Os bancos não vão querer perder o património", enfatiza. A dívida da empresa à Caixa Geral de Depósitos e Millennium/BCP ultrapassa os 2,5 milhões de euros, mais juros.
Manuel Ramos defende uma intervenção urgente. "Este espaço tem de voltar ao domínio público, não há volta a dar, e quanto mais tempo passa, mais custa". Do vasto leque de visitantes que recebeu, recorda a "presença assídua" do empresário Américo Amorim. O industrial português, proprietário da última fábrica de cortiça ainda existente em Silves, revelou gosto pelo espaço, mas por enquanto nada mais do que isso. "Ofereci-lhe mais de 20 catálogos, até para Fidel de Castro me pediu um exemplar, para lhe dar a conhecer o que era o mundo da cortiça", disse. O resgate do museu do Estado de abandono em que se encontra, sugere, "poderia ser feito através de uma parceria público-privado.
· Continuação:
página 2 de 2
Um jovem sobreiro, plantado há 12 anos no pátio do complexo turístico, funciona como um símbolo da resistência. "Foi ali posto com muito carinho", diz Manuel Ramos, olhando para árvore.Os equipamentos da antiga fábrica de cortiça permanecem intactos, bem como as ferramentas do tempo em que as rolhas eram feitas à mão. Nas paredes, os retratos dos antigos operários ilustram a uma parte da história de um país que elevou o sobreiro à categoria de património nacional.
Em 2001, o ano em museu recebeu o prémio Luigi Micheletti, registou 103 mil visitantes, com entradas pagas a dois euros por pessoa. Mas em 2008, um ano antes de encerrar, registou 35 mil entradas. Ao passar junto do galardão ali exposto, Manuel Ramos não resiste a pegar-lhe. "Recebi este prémio das mãos da antiga rainha Fabíola, da Bélgica, e foi uma autêntica surpresa". Quando estava na cerimónia da entrega dos prémios - tipo Óscares - e começou a ouvir falar de "um país do Sul, de turismo e cortiça, disse para a minha mulher: "Vamos ganhar"". Agora, pergunta: "Que fazer com o prémio?"
Fábrica do Inglês – o museu é o "principal activo"
O que correu mal na Fábrica do Inglês? O antigo administrador da Alicoop/Alisuper, José António Silva, não esconde que houve promessas de dinheiro fácil. "Fomos convidados a fazer uma candidatura ao programa Piter (Programas Turísticos de Natureza Estruturante de Base Regional) mas os 2,5 milhões de euros que foram atribuídos nunca chegaram".
Por outro lado, as câmaras "também faziam uma concorrência desleal na área da animação - os espectáculos que nós promovíamos, a pagar, apareciam quase ao mesmo tempo nos programas de Verão de Albufeira e Portimão, com entrada gratuita". Mas o Museu da Cortiça, sublinha, "continua a ser o principal activo da Fábrica do Inglês".