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Entro também neste
interessante diálogo não apenas para saudar o texto da Joana e a iniciativa do
Alexandre de nos chamar a atenção para o mesmo, assim como os comentários dos
colegas que lhe sucederam, como para acrescentar que o mal (porque de mal se
trata) da proliferação desregrada e irrazoável de museus, não sendo exclusivo
lusitano, também não vem só dos últimos anos de ?vacas gordas?, tidos por
causa prima da situação em que o País se encontra.
Em certo sentido
encontra-se na matriz civilizacional do Mundo do pós-guerra, promotor da
patrimonialização maciça da memória. Mas claro que no nosso caso
lhe acrescentámos os tiques próprios de algum ?terceiro-mundismo?, quando os
?fumos de canela? (leiam-se: os fundos europeus) começaram a fluir, desde que
Portugal aderiu à CEE, em 1986. Recordo como nessa altura e com a excepção de alguns colegas mais sabedores e clarividentes do que eu (caso da Doutora Simonetta Luz Afonso, que bem me lembro de ter felicitado a propósito) fui bastante criticado quando ousei denunciar a ?moda? que então se instalava de ?corrida a museus?, servida por fundos europeus. Senti ser um "chato" que se diria querer "estragar a festa" dos novos museus (públicos e privados) que então começaram a proliferar. E permita-se neste contexto a imodéstia de reproduzir abaixo texto que escrevi à mais de duas décadas, o qual me deu alguma amargos de boca (ossos do ofício de que não me queixo, está claro, e com os quais tenho bem sabido conviver ao longo da vida). Luís Raposo Público, 14 de Abril de
1990 UM MUSEU PARA O
MEU BAIRRO Luís Raposo
* E
PORQUE NÃO? Pois se a hora é de ?libertação da sociedade civil?, se a nossa intelligentzia ?adere? à ideia, se não
há autarquia ou ?força viva? que o não reclame, se os organismos do Estado o
acarinham e lhe encontram os necessários fundos europeus, porque mais esperamos
nós, intelectuais deste tão popular bairro? Urge,
porém, que nos apressemos. Antes que, ao ritmo do bater eleitoral, se juntem às
por agora previsíveis três centenas e meia de museus municipais, os mais de
quatro milhares de museus de freguesia. Para não falar já na verdadeira
democratização que sociedades recreativas, paróquias, bombeiros e grupos de
escuteiros irão proporcionar, quando finalmente despertarem do seu
conhecido atraso relativamente a tudo o que é movimento vanguardista neste
país. Dir-se-á
que não temos colecções no bairro que justifiquem um museu. Puro engano. Hoje,
para criar um museu, já não é preciso que haja colecções, resultantes da
actividade de pesquisa de uns quantos carolas, aliás cativantes. Basta pensar na
actividade governativa de certos secretários de estado da cultura para
aprender como se podem fazer museus à custa de outros já existentes. E
depois, um museu com história, acervo e projecto depressa cairá no vício de
pretender ter vida própria, ter serviços de pesquisa, organizar reservas e...
realizar exposições permanentes, quando afinal o fluir da nossa vida
cultural obriga a que toda a prioridade seja dada ao constante florilégio das
exposições temporárias. Aliás,
património cultural é coisa que nos não falta. A começar pelos bares onde
nos reunimos e a acabar nas castiças pedras de calçada que pisamos. Não existem
limites para tão sedutor conceito: a Torre de Belém é património, porque é; o
beco luminoso do (nosso) imaginário também o é, precisamente porque não. Em
suma: todo o bairro poderia ser um museu - um eco-museu. A escolher um local,
que seja a tasca do senhor Pessoa, verdadeiro ?ex-libris? do nosso património
arqueológico, onde poderíamos manter o convívio com o povo, fazer do museu uma
espécie de centro de dia como pretende a mais nova museologia, desde que nos
acautelássemos de a ver convertida em restaurante de luxo. Mas
apressemo-nos. Antes que a desgraça possa acontecer e alguém, certamente de má
formação, reivindique um regresso a valores que de todo desconfiamos: a
necessidade da elaboração, discussão e aprovação de um Plano Museológico
Nacional; o reconhecimento da importância e especificidade do mundo dos
museus, dando-lhe o devido tratamento institucional no aparelho de Estado;
a definição de espaços e a repartição de competências entre museus
nacionais, museus regionais, museus locais e museus de sítio; a promoção da
capacidade de actuação, autonomia e consequente responsabilização dos
museus, dotando-os de verbas e meios humanos minimamente aceitáveis e
reconhecendo-os, sem favor, como um dos mais autênticos repositórios do país
secular que somos. Alguém, enfim, que seja suficientemente culto e sensível
para se lembrar de muitos dos directores dos nossos mais importantes museus
(desde Leite de Vasconcelos, José de Figueiredo, Carlos Reis ou Martins
Sarmento até Rocha Peixoto, Santos Rocha, Tavares Proença ou o Abade de Baçal) e
não reter já na memória a generalidade dos inspectores, directores-gerais ou
presidentes dos organismos que os tutelam. *
arqueólogo.
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Um museu para o meu bairro.jpg
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