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Re: [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis"

To :   "MUSEUM" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   Re: [Museum] ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis"
From :   "LRaposo" <3raposos@sapo.pt>
Date :   Fri, 1 Feb 2013 18:10:37 -0000

Caro Pedro Manuel Cardoso,

Respondo ainda porque, como bem sabe, gosto de debates, quando valem a pena. É o caso. Mas este meio não é o que mais me seduz. Gosto de debates ?olhos nos olhos?, ao vivo e a cores. Por isso não leve a mal que me fique pelo que digo abaixo (teremos ensejo de continuarmos este nosso, e de talvez de outros, ?bate-papo?, quando estivermos nos encontros que temos pela frente).

Confunde-me a sua fixação contra a Revolução Francesa. Certamente não será por considerar preferível o mundo do Antigo Regime. Porque será, então ?

Por mim dou de barato que a Revolução Francesa não constitui o alfa e o ómega da história humana e poderia facilmente enriquecê-la com referência à? Revolução Americana, por exemplo.

A questão, tal como eu a vejo, não está tanto nesta ou naquela revolução, mas na sociedade de Cidaãos Livres e no papel do Estado nela.

Existem, por certo muitos tipos de estados? como dizia Salgueiro Maia em parada, antes de marchar para Lisboa: há estados capitalistas, estados socialistas, estados democráticos, estados ditatoriais e há sobretudo ?o estado a que isto chegou?.

Ora este, o estado a que chegámos, é o de, como dizia há pouco um eminente constitucionalista, termos conseguido juntar o pior de dois Estados de referência (o liberal e o socialista ou social-democrata), querendo com isto dizer estarmos simultaneamente submetidos a elevadíssimas cargas de impostos (próprias de estados socializantes) e a cada vez maiores taxações (próprias de estados liberalizantes). Portanto, um primeiro ponto: Em face do ?estado a que isto chegou? qualquer discussão sobre o peso do Estado surge-me como um tanto espúria.

Admito sem dificuldade que o Estado possa ser maior ou menor. Importa é que seja um ?Estado de cidadãos livres? ? e mais uma vez voltamos à Revolução Francesa ou à Revolução Americana. Ora, concedo que no nosso País nunca tivemos realmente uma cultura de cidadania e continuamos ainda hoje a ser muito mais um país de dependentes (onde o ganha-pão custa a obter) do que de cidadãos livres. Nestas condições, o Estado poderia constituir ?o? elemento libertador ? e nem sequer vejo outro instrumento social que o possa substituir nessa função. Poderia... mas não, admito-o também, porém por razões bem diverdsas das suas. Não, porque o povo na sua sabedoria lhe vira as costas (deixando livre curso à venalidade) e as nossas elites vivem sobretudo da gestão cuidadosa dos seus silêncios, sempre receosas de perderem os seus pequenos poderes ? instituindo-se, ao longo da história, como um dos principais responsáveis pelo atraso endémico do País.

Ainda assim, repito que no meu entendimento nada pode substituir o Estado na sua função representativa e libertadora do todo social.

Presume talvez o meu caro amigo que as suas convicções, ouso dizer que liberais e de mercado, e as dos seus amigos representam melhor a vontade das comunidades locais e dos povos no seu conjunto (isto admitindo que aceite existirem ?povos?, ou seja, existirem sentimentos de pertença que unam mais um minhoto e um algarvio entre si do que com os seus respectivos vizinhos galegos e andaluzes). Mera presunção. Eu não conheço outra forma de dar voz a quem a não tem do que a de promover que grite, o que quer dizer que se exprima e se indigne e também que exerça o direito do voto universal e secreto, incluindo as suas decorrências, ou seja, o da definição de políticas de Estado.

Poderá este ser melhor administrado ? Certamente: compete-nos exigi-lo, dando o exemplo e sendo consequentes nas nossas denúncias. O que me parece um tanto estranho é que haja quem se refira ao Estado esbanjador e invasido, exercendo nele altíssimas funções que o faria ser disso responsável ou entregando-se ao seu regaço salvador quando a crise bate à porta. Poderá também ser menor, o Estado ? Admito-o. Mas acredita sinceramente que alguém no seu juízo perfeito, seja ?comunidade? ou o ?povo?, aceitaria que o critério do emagrecimento fosse o de nacionalizar os prejuízos e de privatizar os lucros ?

Especificamente quanto a património e museus. Concordo em absoluto que não compete ao Estado Democrático construído por cidadãos livres definir que o é património. Compete-lhe apenas estar atento ao pulsar social e potenciá-lo, promovendo-o e defendo-o. Dir-se-á que é pouco. Mas em meu entender é tudo. E mais uma vez regressamos à Revolução Francesa: não compete ao Estado definir o conceito de justo, ou de sabedoria, conhecimento ou cultura? que devem constituir partilhas sociais. Mas compete-lhe, em nome dos cidadãos, administrar a justiça e disponibilizar redes de ensino pública, de bibliotecas, de arquivos? e de museus.

Será caro um Estado assim ? Talvez. Experimente-se então em alternativa o regresso ao Antigo Regime. Ou a tantos regimes anteriores, estatais ou pré-estatais.

Por fim uma nota de sintonia: concordo inteiramente com a primeira das coisas que, em termos práticos, diz ser preciso fazer: ?apostar nos excelentes profissionais que trabalham no Estado em vez de os amesquinharem e desprestigiarem?. Concordo ainda com a necessidade de ?reformar e reorganizar o funcionamento do Estado? na área do património e dos museus, dando porventura maiores oportunidades à iniciativa privada. Mas não concordo, repito-o as vezes que forem precisas, que tal "reforma e reorganização" seja orientada pelo princípio da nacionalização de prejuízos tidos por inevitáveis e da privatização de lucros tidos por possíveis (quando não já reais, actualmente). É que não gosto, e penso que ninguém gosta, de ser tomado por parvo.

Luís Raposo

 
----- Original Message -----
Sent: Friday, February 01, 2013 3:44 PM
Subject: ICOM Portugal: Conferência "Public Policies Toward Museums in Times of Crisis"

Caro Luís Raposo,

 

Agradeço o diálogo. É um acto que intencionalmente nos damos à partilha de todos, neste magnífico espaço público que o Prof. José d?Encarnação nos concede. E estou de acordo com muito do que referiu.

No entanto, esse excessivo peso do Estado herdado da Revolução Francesa foi um dos principais responsáveis por um centralismo que sufocou em demasia a dinâmica das Pessoas e das Comunidades. Foi responsável pela construção de um determinado tipo de relação entre a patrimonização e a musealização. Os «museus, monumentos, e sítios nacionais», e a despesa que dão, são o fruto dessa ideologia vertical e normalizadora. Enquanto havia dinheiro para sustentar essa utopia do Estado-Central tudo corria bem, e até parecia «natural» (isto é, que não era uma ideologia). Os museus recolhiam o património, e tornavam-se «emissores da mensagem». Razão pela qual ainda hoje chamam às Pessoas «visitantes», e até lhes fazem estatísticas para medir essa concepção de sucesso.

A história daquilo que as comunidades humanas patrimonizaram para legarem aos vindouros não começa na Revolução Francesa, como os nossos amigos da Europa Central gostariam que fosse. Neles há sempre esse desejo de poder e de apropriação, que os faz desejar essa data-de-começo para ser fácil a construção de uma ?Identidade Comum?. Começa muito antes, com o próprio processo de hominização. Porque a relação entre a Memória e a Cognição sempre foi um trabalho museológico imprescindível à possibilidade de nos termos tornado «humanos». O museu seja grandioso, como nas capitais imperiais do colonialismo, ou pequeno, como uma casa de vime na Amazónia, ambos podem proporcionar um património tão ou mais valioso. O edifício-museu, muitas vezes, não é senão um sinal de vaidade e de ostentação.

A Reforma e a Reorganização que é necessário fazer, em termos práticos, deverá começar exatamente por pôr fim a esse gigantismo e a esse enorme ?aparelho de Estado?, sufocante para sustentabilidade das Pessoas e das Comunidades. Os museus filhos da Revolução Francesa possuem essa marca. São de um determinado Tipo. Concebem-se a si próprios como emissores ou guardadores do património que os outros têm que «visitar». Chamam às Pessoas e às Comunidades «visitantes». Armam-se em donos daquilo que não lhes pertence, nem de que foram autores. É nesse sentido que se dá a tal apropriação ilegítima de que falei.

Mas coloquemos esta nova maneira de fazer museologia, e esta nova orientação reformadora, na prática. Olhemos para um exemplo concreto.

Hoje mesmo, dia 1 de Fevereiro, no n.º 96 da Rua Augusta em Lisboa, na Galeria Millennium BCP, abre um espaço sobre o Património de Lisboa desde o século XVIII à atualidade (designa-se ?Baixa em Tempo Real?, e é da responsabilidade do Departamento de Museologia da Universidade Lusófona, coordenado pela Professora Judite Primo). Nesse edifício o Património entra de um modo diferente, e está disponível de uma forma muito diferente dessa concepção Francesa. O espaço-museu não ambiciona possuir ou trazer para dentro de si a materialidade do património que é vivido pelas pessoas e pela comunidade. Lá estará o ?verso e reverso do Património da Baixa? (pelo olhar fotográfico de Sérgio Jacques); ?os modos de namorar na Baixa? (pela designer Luísa Costa e pelo escritor Rui Zink); ?os caminhos de desejos no centro da Cidade? (num Laboratório de Museologia e Urbanismo coordenado pela Historiadora da Arte e Museóloga, Gabriela Cavaco); as ?evidências arqueológicas do terramoto de 1755 no centro de Lisboa? (pelo Arqueólogo e Museólogo, Mário Antas); as ?Músicas da Baixa? (apresentadas por Claire Hognhisbaum e Rita Machado); ?A cartografia das memórias e poética do espaço? & ?Subjectivamente falando com gente da Baixa? (pelo Historiador e Museólogo, Pedro Pereira Leite, e pela Socióloga e Museóloga, Isabel Victor); a ?Baixa Esquecida? (pela Historiadora, Isabel Castro Henriques, e pelo Professor Henrique Pinto); e ainda ?o património da Baixa descoberto pela lente da câmara de João Antero Ferreira? (Professor do Departamento de Cinema e Multimédia da ULHT).

Como referi, o museu continua a ser imprescindível, mas agora actua como dinamizador de um Roteiro Genuíno do Património.

E quanto ao custo financeiro consegue, por causa dessa concepção diferente, pagar-se a si próprio, criando a tal possibilidade que referi de uma Gestão Sustentável da Despesa que agora dá. Exatamente porque as pessoas e as comunidades não foram despojadas do património. Continuam a habitá-lo. E o Museu, em relação ao Património, é quem pede: «por favor».

Se fosse o Estado a fazer o mesmo não chegavam milhões, e ainda estaríamos à espera. Não porque as pessoas fossem piores, ou soubessem menos, mas porque é necessário em termos práticos fazer duas coisas: primeiro, apostar nos excelentes profissionais que trabalham no Estado em vez de os amesquinharem e desprestigiarem; e em segundo lugar, no que se refere ao património, reformar e reorganizar o funcionamento do Estado através de uma nova perspetiva de patrimonização e de musealização que volte a dar oportunidades à iniciativa privada dos que não são funcionários públicos.

Pegando na sugestão de Luís Raposo, sobre o Painel de 16 de Março, talvez este exemplo prático fosse interessante para servir de estudo-de-caso para a tal reflexão sobre as ?modalidades de organização do aparelho de Estado em relação aos museus e ao património cultural?.

As «crises» talvez sejam o melhor momento para termos coragem de fazermos as reformas.

Um agradecimento muito especial a Luís Raposo.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 


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