No início de Janeiro, uma nota divulgada pelo Director do Museu de Conímbriga, Virgílio Hipólito Correia, suscitou polémica acerca de uma urna em pedra em posse do Museu da Comunidade da Batalha. A que depois passaram a chamar larnax.
Sendo todavia que o mais notável e surpreendente aspecto do episódio continua a ser o intuito ou intenção do Director do Museu de Conímbriga ao publicar a referida nota, distancio-me dessa componente ao publicar este registo.
Até ontem, 31 de Janeiro, apenas tinha observado fotografias da urna. Ontem, aproveitando uma breve passagem pela Batalha, pude observá-la com algum detalhe.
Surpreendido com a beleza apelativa e a simplicidade, tanto ornamental como da massa volumétrica arquitectada, emanada pelo monumento, tomei-lhe o peso, observei-o ao tacto e à vista e saí do Museu estupefacto.
O monumento esteve depositado para trabalhos de conservação no Museu de Conímbriga, tendo sido manipulado, presume-se, pelos seus técnicos, na forma que, presume-se também, é requerida para o bom desempenho de um trabalho desta natureza.
Quando observei atentamente as fotos do monumento, propus que, pela mera observação delas, se poderia suportar que a pedra em que foi lavrada é um mármore do tipo de Carrara, que se distingue, nomeadamente dos mármores alentejanos mais correntes nos concelhos de Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Alandroal, pelo são grão fino e pela dureza e coesão na agregação dos cristais.
Observado agora, não me restaram dúvidas de que se trata de uma rocha calcária em relativamente avançada metamorfização, atestando um estádio avançado de cristalização da calcite, formada em ambiente cársico ou similar, como sugerem as estrias visíveis em pelo menos dois paramentos, assinalando uma arrastada deposição em estratos, Estratigrafia em que, de resto, é visível o ondulado da morfologia do leito.
Bem, seja o que for, arenito não é. Se mais não pudesse atestar, atestaria que se trata de calcite, nunca de fel de espatos, quartzos, micas, ou argilas. E que os cristais que compõem a massa rochosa não se aglomeraram em depósito aluvial, mas que a sua aglomeração foi processo componente da sua formação.
Se não tivesse a fachada ornamentada com uma inscultura, diria que se trata de uma ocorrência possível em qualquer parte do império romano. Uma urna constituída por uma ‘’arca’’ paralelepídica, coberta ou fechada com um telhado de duas águas. Simples, escorreita, harmónica e exibindo algumas irregularidades ortogonais que a tornam ainda mais apelativa.
Mas exactamente porque traz na fachada um motivo alusivo insculpido, mais reforça a evidência de que poderia proceder de qualquer lugar do império romano. Nem se poderia dizer que a rocha em que foi lavrada poderia indicar a sua procedência, porque se trata de eras em que as rochas eram viajantes e andavam muito.
Uma urna com estas dimensões poderia também andar muito. Tanto quanto os entes chegados ao defunto fossem capazes de andar.
Ora, sobre a também singela inscultura que ornamenta a frontaria, penso oportuno assinalar que, no procedimento ‘’técnico’’ de execução, replica os procedimentos a que recorre a disciplina do ‘’champlevé’’, seja, o desenho de um motivo por rebaixamento do contorno, ou o inverso, criando os alvéolos onde o esmalte é vertido para destacar o motivo. Sobre o próprio motivo são abertos os alvéolos necessários à sua definição.
Este procedimento é corrente na arte tardo-romana e bizantina, universo que coincidiria com o aspecto estilístico do trabalho aqui realizado, marcado por intensa ingenuidade, por vezes dada como atributo de estilização.
No âmbito desta estilização, torna-se, como me parece óbvio, muito difícil interpretar mesmo o sentido mais narrativo ou descritivo da representação, sendo meramente especulativo, no actual estádio de aprofundamento do estudo do monumento, considerar que o sujeito representado tem uma tocha invertida na mão esquerda, ou se está togado ou veste outra qualquer indumentária, porventura mesmo sacerdotal.
Se tomarmos como válida a interpretação de Virgílio Hipólito Correia, valerá a pena frisar que o culto mitraico estava desde o fim do Século I disseminado por todo o Império, bem documentado no território português, nomeadamente através de um consagrado monumento de Tróia.
Se à urna podemos chamar um ‘’larnax’’, tal em nada acrescenta qualquer sugestão de procedência ocidental ou oriental, a direcção cardial de onde provem o nome que abarca uma ampla morfologia. Na verdade, assenta sobre quatro pés que prolongam em continuidade a linha das arestas verticais. Seria caso para dizermos que todas as urnas, ou sarcófagos, que reproduzem a massa arquitectónica da ‘’domus’’ são ‘’larnaces’’.
Bem, resta notar que a um certo modelo de espada de ferro que caracteriza a necrópole de Nossa Senhora dos Olivais, em Alcácer do Sal, chamamos com propriedade ‘’espada de antenas do tipo Alcácer, embora em nada se distinga do modelo corrente registado ao longo dos cursos do Tejo e do Douro, em contexto de predominância do que se convencionou chamar área de influência da cultura celtibérica. Dizem que para os lados de Alcácer moravam os celtas.
Resta pois assinalar que um calhau, ou um seixo já acabado, arrancado pela corrente de um rio na sua nascente, irá com toda a certeza parar ao mar, mais tarde ou mais cedo.
Ou seja, pelo que posso desde já vaticinar, ninguém virá a ter razão enquanto o monumento não regressar ao Museu de Conímbriga para que o seu estudo possa ser concluído.
Manuel de Castro Nunes.
*Na convicção de que os leitores destas observações serão poucos ou talvez nenhum, por razões de estilo, para mais, dispensei-as de referências bibliográficas e iconográficas, que disponibilizarei para quem as solicite.
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