Talvez tenha surgido outro motivo para agir museologicamente. A acrescentar aos que vários Colegas têm dado testemunho. Sobretudo num momento em que meritoriamente o ICOM Portugal conseguiu congregar o debate em torno do «futuro dos museus e da política pública do património». Dois factos vieram mudar muitas das coisas previstas e concebidas até agora. Por um lado, a existência de mil milhões de euros disponíveis para intervir no Estuário do Tejo e na Zona de Jurisdição do Porto de Lisboa (sendo 800 milhões de financiamento privado). Por outro lado, a descoberta do fundeador Romano, a somar às recentes e múltiplas descobertas patrimoniais no Tejo e na cercania da Baixa Pombalina, que se estendem a jusante até Almada, Oeiras e Cascais. O que paulatinamente se premedita para aquele território ameaça profundamente parte do legado patrimonial e identitário de Portugal. Trata-se de um assunto que interessa diretamente à Política Pública do Património. Esses dois factos provocam a necessidade urgente de reformular as decisões já tomadas, e obrigam a uma alteração nas soluções que constam nos atuais «planos». Chegou o momento da Museologia e do Património questionarem criticamente as decisões já tomadas sobre os planos urbanísticos e arquitetónicos para o Estuário do Tejo e Zona de Jurisdição do Porto de Lisboa. Mas também chegou o momento de dizer basta a decisões que são constantemente tomadas à revelia de um debate participado e aberto. Não é aceitável, porque prejudicial ao interesse coletivo, que o processo seja sempre o mesmo. Que os decisores políticos escolham por ajuste direto alguns, muito restritos e com nome sonante, de preferência do seu círculo, tidos como representantes de tudo e de todos. Que falam com desplante sobre o futuro e sobre as ideias dos outros. Os planos e as ideias sobre aquela zona nobre da identidade portuguesa foram produzidas ao sabor desse triste fado. Foram outra vez esses poucos a dizerem qual era a ideia de futuro para a cidade que todos os outros deviam aceitar. Mais uma vez os decisores políticos usaram essa parcialidade para justificarem a decisão que mais interessava a uma perspetiva urbanística e arquitetónica parcial, elitista, e estereotipada. E essa decisão, a concretizar-se, prejudicará de modo irreversível um legado patrimonial que pertence a todos. Para quem não acreditar nas palavras, que veja com os seus próprios olhos os crimes indesculpáveis que já foram cometidos na beira do Tejo por esses. Todavia, agora, por uma questão de Cidadania e de defesa do Património, a dimensão da sua intervenção exige mais do que o silêncio. Porque o que está previsto para essa zona, nos planos e nos projetos já anunciados, deixa de ser competente (técnica e conceptualmente) para resolver o que agora se nos depara em termos patrimoniais. Trata-se de testemunhos que sobreviveram àquilo que foi destruído na maioria dos países europeus pelas sucessivas guerras e regimes políticos. Trata-se portanto de uma «exposição de objetos únicos a nível mundial», que acrescentam mais história à História da Europa e do Mundo. São testemunhos e objetos que exigem uma Expografia Diferente da que está projetada para os museus e projetos de intervenção que foram anunciados pelos decisores políticos. É necessário um «novo Projeto de Musealização e Patrimonização para o Estuário do Tejo e para a Zona de Jurisdição do Porto de Lisboa». Trata-se de apresentar com a máxima urgência possível uma solução museológica inovadora e competitiva, capaz de salvaguardar melhor o Património que os nossos antepassados nos legaram. Os/as museólogos/as e os profissionais do património portugueses são capazes tecnicamente de fazer esse Projeto Global de Musealização e Patrimonização. E esse Documento teria um poder mais difícil de derrotar pelos interesses urbanísticos e arquitetónicos que assessoram impiedosamente o poder político. As descobertas recentes e o dinheiro disponível possibilitam narrar a nossa Identidade de um modo único e inovador em termos mundiais (globais). Proponho que se olhem as intervenções de modo global e articulado para todo o território do Estuário do Tejo e da Zona de Jurisdição do Porto de Lisboa, incluindo o interface com Almada, Oeiras e Cascais. Proponho um projeto de «Musealização e Patrimonização In Situ das trocas comerciais e culturais que ocorreram por via marítima atlântica antes e durante o Império Romano até à atualidade». Espero que não se destrua essa possibilidade de Futuro pela fragmentação, pelo imediatismo das intervenções, ou pela avidez dos interesses urbanísticos e imobiliários. Estou convicto de que essa solução não seria despicienda, até, em termos turísticos e económicos. Pedro Manuel-Cardoso |
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