De:
Gonçalo Cruz [mailto:goncalo.cruz@msarmento.org]
Enviada em: quinta-feira, 21 de
Março de 2013 16:09
Exmo(s) Senhor(es)
A Direcção da Sociedade Martins Sarmento vem convidar V. Exa(s) para assistirem
ao concerto "As paixões de Guimarães" do grupo vocal "As
Voces Caelestes" , com o grupo coral da Academia de Música Valentim
Moreira de Sá, que terá lugar na Igreja de S. Francisco de Guimarães, no
próximo dia 23 de Março, às 18h00. No concerto será executado pela primeira vez
em público nos tempos modernos o códice quinhentista com "Paixão de
Cristo" pertencente ao espólio da Sociedade Martins Sarmento.
Abaixo, segue texto do Professor Doutor Pedrosa Cardoso, musicólogo que
se tem dedicado ao estudo deste género de documentos.
Com os melhores cumprimentos,
António Amaro das Neves
(Presidente da Direcção)

Este concerto resulta de um importante códice musical existente na Sociedade
Martins Sarmento (Gs SL 11-2-4), composto cerca de 1580. Trata-se da
música da Semana Santa, na qual é especialmente relevado o canto
dramático da Paixão de Cristo, tal como se cantava em Santa Cruz de Coimbra no
século XVI. Sabe-se desta evidência pelo facto de existir na Biblioteca Geral
da Universidade de Coimbra um códice similar, infelizmente maltratado (Cug MM
56), que teria sido usado na Liturgia do Domingo de Ramos, da Terça,
Quarta e Sexta-Feira Santas. O facto de este livro de música se encontrar em
Guimarães deve explicar-se pela mesma razão de, entre os três livros de música
existentes da Biblioteca Nacional de Portugal que pertenceram ao Convento de
Santa Clara de Guimarães, existir um (Ln LC 59) proveniente de Santa Cruz de
Coimbra com música de D. Pedro de Cristo, um dos principais compositores
daquele mosteiro crúzio e o autor provável das principais polifonias deste
códice: uma explicação que a história regista devido à irradiação da importante
música criada no dito Mosteiro de Coimbra por outros centros religiosos do
nosso país.
Descoberto que foi este códice, devidamente estudado e contextualizado em tese
de doutoramento, primeiro, e logo preparado para sair a público em edição
fac-similada e cuidadosamente apresentada, com a respectiva transcrição para
música moderna, graças ao investimento de Guimarães Capital Europeia da Cultura
2012, assim se tornou possível esta primeira execução moderna da música
utilizada na Semana Santa de Coimbra e Guimarães. Na música das duas Paixões,
que aqui vão ser cantadas, e em relação ao que acontecia já em todas as igrejas
portuguesas do século XVI, em que o tonus passionis era muito diferente do
praticado em toda a cristandade, sobressaem duas autênticas novidades: a
primeira é a existência de alguns versículos da Paixão cantados a três vozes,
especialmente alguns ditos de Cristo, assim obviamente enfatizados; e a segunda
é um canto monofónico claramente mensuralizado, isto é, submetido a regras de
ritmo por vezes muito diferenciado. Tudo o qual se explica pela mística da
Paixão concebida no Mosteiro de Santa Cruz, justificando bem o seu nome, e pela
fama que tiveram os cantores do mesmo Mosteiro reconhecida até na vizinha
Espanha.
Este concerto das antigas Paixões de Guimarães, e Coimbra, vai ser acompanhado
por duas versões salmódicas e uma ladainha de defuntos, a 4 vozes, do mesmo
códice da Sociedade Martins Sarmento e terá ainda o contributo especial do
canto das turbas da Paixão composto por D. Pedro de Cristo, tal como existe na
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Cug MM 18 e MM 53).
Apresenta-se, assim, em versão de concerto, e pela primeira vez nos tempos
modernos, o canto solene da Paixão, tal como se teria feito em Guimarães,
provavelmente na Colegiada da Oliveira, a partir do século XVI, no qual o
texto do Evangelho era assinalado por três diáconos cantores, os quais, além de
executarem a três vozes os versos especiais acima referidos, repartiam entre si
o drama da Paixão cantando em diferentes níveis de recitativo, os papéis de
narrador, do Cristo e dos restantes personagens intervenientes no relato
evangélico.
José Maria Pedrosa Cardoso

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