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[Museum] As Palavras e os Objetos em Museologia.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] As Palavras e os Objetos em Museologia.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Sat, 20 Apr 2013 15:59:17 +0100

 

Permitam a partilha pública de um diálogo com uma Amiga, acerca de um projeto de Exposição-Performance a ocorrer no território patrimonial de Lisboa. Que será, para uns, uma espécie de “re-constituição do passado” e, para a fação oposta, uma “invenção da tradição”. A utilidade do diálogo talvez seja a de permitir questionar a «relação entre as Palavras e os Objetos em Museologia».

A antropóloga Ana Santos enviou-me a letra que Álvaro Duarte Simões fez para o Fado que a voz de Tristão da Silva interpretou:

Quem sobe essa calçada triste e fria

E pensa de que é feita a sua história

Não consegue entender porque ironia

Lhe chamam a Calçada da Glória

Caminho que a subir conduz ao céu

Mas quanta vez a vida pelo contrário

Nos mostra que ao subir com sua cruz

A bondade de Jesus

Teve por prémio o calvário

Essa mulher que o destino fez perder

Sobe a calçada sem ver q’sua longa descida

Que o Bairro Alto roubou-lhe há muito, a memória

Para que ela não veja a glória em que destroçou a vida

Quem vence é invejado por vencer

Não podendo evitar um mau juízo

Apenas porque alguém não soube ver

O drama que se oculta num sorriso

Por isso eu tenho pena de quem vive

A fingir que é feliz o seu caminho

E afinal não encontra paz nem sorte

Anda pela vida sem norte

À procura dum carinho

 

E acrescentou: “O tom cantado deste fado, sentido de modo triste, ora a elevar ora a condenar esse caminho ilusório que supostamente leva à glória, comparado com o frenesim da canção dos rádio Macau, cuja letra é também uma alegoria a vida, é um mimo”.

Isto tudo a propósito do evento museológico que ocorrerá, provavelmente em Maio, na Calçada da Glória em Lisboa.

            O diálogo continuou, e a páginas tantas, deu no seguinte:

¾ Ana, as palavras... Sim. Não são muito diferentes dos números, como disseste. Tens razão. É por isso que talvez as devêssemos expor com o mesmo afinco que fazemos com os objetos e as imagens.

As palavras só por si, na sua coisalidade, assim, no seu assim.

Tratadas como coisas com vida própria, quero dizer: no mesmo pedestal que damos às outras iconicidades a quem concedemos maior privilégio.

Escolhemo-las para narrar, para discursar, para escrever, até para fazer os diários secretos ¾ esses itinerários interiores a quem o Fado acusa de: “nem às paredes os contarmos”. Remetemos as palavras para uma certa não-visibilidade. Como meras ilustradoras ou acompanhantes. Condenamo-las a uma certa obscuridade; desterramo-las do palco da Evidência. Talvez porque achemos que o «receptor» gosta mais do imediatismo e da exuberância das imagens e dos objetos. Ou o façamos exatamente pelo contrário, pelo medo e pelo sagrado que lhes concedemos, para que nos possamos esconder melhor ao não as mostrarmos.

Essas palavras que escreveste talvez ficassem bem num mupi, tal como as outras imagens que povoarão o espaço da «exposição-performance da Glória». Porque elas, muito mais do que as imagens ou os objetos, são quem pode levar a cognição do «receptor» a essa dança metafórica e metonímia que tão bem escreveste aqui a propósito dos contrários que a glória encerra. E também a esse interstício de uma «glória» enraizada patrimonialmente no sítio específico da Calçada da Glória, isto é, com essa genética do Bairro Alto que lhe é a Identidade, ou seja: «de ser ali assim como foi, e em mais nenhum sítio como ali, apesar de também ter sido noutros locais de todo o mundo e de todas as épocas». E esse acontecimento cognitivo é muito mais forte, pungente, e interativo do que o resto de todas as outras maquinarias expositivas. Algo que a museologia ainda não percebeu bem (apesar de lhe estar sempre a dizer isso). Nos museus e nas exposições todos os objetos vão parar ao cérebro, e têm lá morada senão como representações. Como caberiam lá se não houvesse essa transformação?

Em 2006 concebi uma exposição para o Museu Nacional de História Natural (vê o cartaz e a carta que o Museu me enviou no Ficheiro anexo) sobre aquilo que na minha opinião especifica mais o «ser humano» (em termos biológicos e naturais), que é a sua capacidade de «pôr em código». De reduzir a Realidade a uma algoritmo que caiba no cérebro e, portanto, cuja linguagem-máquina possua um suporte físico-químico, sem o qual lhe é impossível circular pelas sinapses e dendrites até aos neurónios. As palavras são uma espécie de algarismo condensado da simbiose entre o dentro e o fora; entre o Nós, o Real, e a Existência. E a possibilidade de fazermos essa dança de vai-e-vem, a que exteriormente damos o nome de metáforas e metonímias. E outros jogos, tais como a poesia, a música, a matemática, a escrita, e muitos mais. Se houvesse uma alcunha que se tivesse que dar aos seres humanos eu escolheria: «os codificadores».

Em Paris, em Setembro de 1981, no então recente Centro Georges Pompidou, estava, afixado junto a muitos outros, um pequeno Cartaz (que pedi para trazer) que anunciava uma exposição em Gent:

 

Man is the Museum of all things 1981Out25 Guy Bleus e Willy Dé

 

O Cartaz confronta o visitante com a pergunta: - Não será o ser humano, afinal, o único e o verdadeiro Património? Mas na minha opinião a compreensão do património está nele prisioneira do impasse entre «materialidade vs. narrativa», ou «objecto vs. texto». Um impasse que Susan Pearce ou Susanne Kuchler não captam senão superficialmente, porque o patamar está acima da auto-referência de que não conseguem sair, ao escreverem:

 

As nossas coleções não nos mostram a realidade exterior; mostram-nos apenas a imagem de nós mesmos … para Pitt Rivers, como para todos nós, o vidro de uma vitrina apresenta simultaneamente uma visão transparente e um reflexo da nossa própria face.(S. Pearce, 1996, pp.150-151).

 

The list, which in previous installations served as evidence of an ethnographic method which makes art of other people’s lives, emerges in Birthday Ceremony as the technique of situating the ethnographic. Etched into the glass of each cabinet, the list holds our attention and draws us further into the small world contained within. And suddenly, as if by chance, we see that what we thought was an artwork – designed as installation for and within the abstract context of the gallery environment – is in fact «the living person personified». As it finds its subject in objects turned art, ethnography may never be the same again.(KUCHLER, Susanne, 2000:108)

 

As palavras têm um Poder ainda não totalmente explorado nas exposições dos museus/património.

Talvez estas que enviaste pudessem servir para essa provocação e essa transgressão… cívica (com a condescendência de Joana Sousa Monteiro e da Câmara Municipal de Lisboa)

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 




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