Advertência
Este compêndio, que não tem aspirações a manual, procura ajudar os museus que vivem deprimidos pela crise. Apenas os museus que foram afetados pela crise, que estejam à beira do abismo ou mergulhados numa depressão profunda poderão encontrar, nas linhas que se seguem, a autoajuda necessária para a felicidade.
Em jeito de prosopopeia
Pela devida consideração ao, ainda que improvável, segundo leitor deste texto – uma vez que o primeiro estava de per si conhecedor – informa-se que o recurso à personificação é propositado. Assim, no mesmo registo, ir-se-á esmiuçar a vida dos museus moribundos e tentar-se-á apresentar o elixir da rejuvenescência. Melhor dizendo, procura-se travar a prossecução de reuniões de museus semimortos, nas Associações Anónimas de Museus Deprimidos, dado que estas, para além do embaraço, não têm acrescentado proficuidade. Tornou-se humilhante o momento em que o moderador anuncia um novo utente e este, numa evidente agonia, se descreve. “Olá, eu sou o Museu Nacional dos Costumes Antigos e estou deprimido”. Escusado será dizer que o tormento prossegue no já amoldado “olá Museu Nacional dos Costumes Antigos”. Apresentam-se, de seguida, xaropadas tangíveis que visam uma melhoria na sua qualidade de vida.
Seriamente na boa
A primeira medida a adotar, caro museu deprimido, é acreditar na filosofia de que não existem problemas ou dificuldades, existe sim, uma maior ou menor capacidade de se resolverem e de se enfrentarem as adversidades que a vida coloca. Nesse caso, de nada serve a lamúria ou a resignação. O caminho viável, aquele que deve seguir é o de, qual forcado em arena, encarar a contrariedade olhos nos olhos. Tenha sempre em atenção que a indolência anda de mãos-dadas com os deprimidos e de costas voltadas para os destemidos.
Agora que já arregaçou as mangas, enxugou as lágrimas e levantou a cabeça está em condições para começar a comunicar. Comunique. Fale. Exprima-se. Diga em voz alta o que vai dentro de si. Quem está à sua volta não lhe vai levar a mal, muito pelo contrário, se souber das boas-novas vai apoiá-lo, quem sabe até visitá-lo com maior frequência. Caro museu, assumir que necessita de ajuda é um ato de inteligência e de coragem. Não tenha medo de se expor. Há tanta coisa bonita que pode dizer. Encha as salas de ar fresco e, com altivez, conte a sua história. É natural que nesta fase necessite de recorrer a alguns fármacos, como tal aconselha-se a toma diária de Redes Socias. Use e abuse porque não estão identificadas contraindicações relevantes.
Sabe-se que amanhã é um dia festivo para si. Aproveite para se divertir, partilhe ideias com os seus pares, convide amigos para sua casa. Viva.
Se nenhuma destas medidas o ajudarem é porque na realidade você é um caso crónico de depressão. Poderá sempre ganhar o prémio de Museu Deprimido do Ano. Mas não aceite. Não queira esse para si.
Deseja-se que amanhã, uma vez que se celebra o seu dia internacional, seja o recomeçar de uma longa vida cheia de alegrias. Poderá sempre pedir um desejo. Algo simples. Assim, meramente ao acaso, como exemplo, que depressa entre novamente no mercado o antidepressivo que tanta falta lhe faz e que dá pelo nome de Receitas Próprias.
Coimbra, 17 de Maio de 2013
Humberto Rendeiro
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