Lista museum

Mensagem

[Museum] Museologia: Património, Cognição e Memória.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Museologia: Património, Cognição e Memória.
From :   Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Thu, 29 Aug 2013 21:52:01 +0100

Em 19 de julho passado enviei o projeto de investigação em Museologia & Património “Património, Cognição, Memória”, respondendo ao desafio que me fez um Reitor de uma Universidade durante a nossa participação nos júris de doutoramento que decorreram nessa data (ver quadro adiante).

 

 

PROJETO DE INVESTIGAÇÃO EM MUSEOLOGIA

Duração: 2013 - 2016

Proposta: Pedro Manuel-Cardoso (Post-Ph.D)

Designação: Património, Cognição e Memória.

Descrição: O projeto tem por objetivo investigar a existência de uma “representação da Relevância1 codificada no cérebro”, transversal aos diferentes tipos de património ocorridos nos diferentes contextos sócio-históricos que se foram sucedendo desde Homo sapiens sapiens. A probabilidade desta hipótese ganha pertinência na atualidade pelo resultado alcançado no estudo comparativo sobre os motivos que estiveram na origem da classificação dos objetos em Património2 desde as primeiras sociedades com escrita até à atualidade. De facto, os motivos que estiveram na origem dessa classificação patrimonial não ultrapassam no máximo oito, apesar da enorme diversidade tipológica e da imensa quantidade de objetos, coleções, e documentos que foram classificados. Este facto sugere que - perante esta inércia, transversalidade, e resiliência dos motivos - existirá a nível cognitivo uma codificação da Relevância sedeada no cérebro que só poderá ser demonstrada com a ajuda de uma investigação interdisciplinar entre a Museologia (enquanto ciência social capaz de fornecer a descrição, quer dos dados do património, quer do modo como se constituem os processos de patrimonização a nível social e cultural) e a Biologia Molecular da Cognição (enquanto descrição molecular e fisiológica do processo de memória, concretamente após o contributo de E. Kandel3 e outros). A confirmar-se a hipótese que este projeto pretende investigar isso implicaria uma nova relação entre Património-Cognição-Memória, implicaria um novo modo de fazer a história do Património, e conduziria a uma nova responsabilidade na Gestão do Património. Mas também teria implicações na teoria antropológica, concretamente ao nível da importância do factor cognitivo no processo de complexificação cerebral que a hipótese de Wynn & Coolidge (2010)4 veio recentemente propor.

 

Notas:

1Relevância refere-se ao fenómeno empírico de existirem heurísticas/critérios/motivos concretos, sustentados em percursos sinápticos, causadores da assimetria de valor entre os objetos que constituem a realidade de cada contexto/ambiente particular. No caso concreto desta investigação, por que razão uns são classificados como tendo valor patrimonial e outros não (ver trabalhos publicados por Pedro Manuel-Cardoso).

2Património refere-se aos objetos/documentos com relevância para serem guardados e protegidos de modo explícito e intencional com o objetivo de serem transmitidos às gerações vindouras como marcadores da identidade e da memória.

3Eric KANDEL, “(...) Nascido em Viena, na Áustria, formou-se em Medicina pela New York University School of Medicine. Continuou os seus estudos de pós-graduação no Laboratory of Neurophysiology na NYH com Wade Marshall, e fez a sua formação como medico interno de Psiquiatria no Massachusetts Mental Health Center, enquanto prosseguia com a sua investigação e a docência na Harvard medical School. Fundou o Center for Neurobiology and Behavior na Columbia University em Nova Iorque, onde desempenha actualmente funções de professor de Fisiologia e Psiquiatria. É investigador senior nos laboratórios do Howard Hughes Medical Institute. É membro da National Academy of Sciences. Tem ganho vários prémios de prestígio, incluindo o prémio Albert Lasker Basic Medical Research, o prémio Gairdner, a National Medal of Science, e o prémio Wolf em biologia e medicina. Em 2000 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Medicina.”.

4 WYNN, Thomas & COOLIDGE, Frederick. (2010). Beyond Symbolism and Language: An Introduction to Supplement 1, Working Memory. In Current Anthropology, vol. 51, Sup. 1, June 2010, “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”, pp.S5-16.

 

Parceria: ?

Financiador(es): ?

 

Ontem o Jorge Emanuel Espinho - Amigo de longa data e de tantas aventuras, que fez com o Franklim Espath Pedroso a Curadoria da exposição “Reinventando o Mundo”, que termina no próximo dia 15 de setembro no Rio de Janeiro no Museu Vale (antiga Estação Pedro Nolasco) - sabendo deste projeto de investigação, enviou a notícia da última descoberta que a equipa de Eric Kandel fez. E que foi publicada na revista Science Translational Medicine.

E, com a emoção que só a Amizade sabe trocar, e porque sabe os escolhos que tive de ultrapassar, acrescentou aquela famosa afirmação de William James: “Primeiramente uma nova teoria é atacada porque é absurda; depois admite-se que ela é verdadeira, mas óbvia e insignificante; finalmente é considerada tão importante que os seus adversários reclamam que foram eles próprios que a descobriram.” [William James, “Pragmatism’s Conception of Truth” (1907), in Alburey Castell (org.), 1964:159]. De facto a descoberta da “estrutura do valor patrimonial” que fizemos em 2008, e confirmámos em 2010, e a relação interdisciplinar que propusemos para o prosseguimento do estudo da museologia e do património, sobretudo a relação com a cognição e o processo antropológico de hominização, foi um percurso que no início recebeu muita desconfiança e receio.

Felizmente o tempo tem vindo a confirmar a pertinência do caminho que seguimos.

            Em 2013 a equipa de Eric Kandel acrescentou mais um importante contributo. Até agora acreditava-se que a perda de memória era a primeira fase da doença de Alzheimer, e que estava indissociavelmente ligada a essa doença. A partir desta descoberta confirma-se que a perda de memória é um fenómeno distinto. Afinal, trata-se de um défice na proteína RbAp48 existente no hipocampo. A ativação dos genes que produzem esta proteína, em pessoas de idade avançada, “permitiu voltarem a ter a memória que tinham durante a sua juventude”. Decorre daqui que a deterioração da memória ligada à idade, e a doença de Alzheimer, são problemas distintos: “a primeira é reversível, se a deficiência da proteína em questão for tratada; enquanto a segunda é, pelo menos para já, incurável”.

Este resultado amplia as consequências e a responsabilidade na gestão do património que temos vindo a referir, e a pertinência do projeto de investigação que propusemos.

 

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





Mensagem anterior por data: [Museum] MUSEU NACIONAL DOS COCHES EM SETEMBRO Próxima mensagem por data: [Museum] Em defesa do Museu do Cinema - comunicado do ICOM Portugal
Mensagem anterior por assunto: [Museum] museologia.pt nº 2/2008 Próxima mensagem por assunto: [Museum] Museologia Antropologia e História de Arte