Nunca a investigação, a ambição, e o desejo de transcendência de quem busca o Conhecimento serão afetados por quaisquer conjunturas. Nem em épocas mais difíceis e sangrentas do passado isso as derrotou. Portanto não será agora, no bem-estar consumista da atual sociedade, que soçobrarão. A visibilidade e a ostentação de alguns - quase sempre os bem situados em cada sistema vigente - de facto, poderão ser momentaneamente afetadas. Mas nunca isso porá em causa as descobertas, os resultados de mérito, e as iniciativas de quem investiga e produz conhecimento genuinamente novo e original. É triste ver tanto lamento e tanta impotência para mudarem o que dizem estar mal. Nem um assomo de coragem, nem um acto heróico. Nada. Senão este diáfano conformismo de textos assim, que infelizmente proliferam sem qualquer utilidade. Quase que rogam por um líder (ou por uma instituição milagreira, neste caso a mítica FCT) em quem delegar a falta de soluções e alternativas. Não enjoa, este renovado desejo de regresso à subsidiodependência? Quem vai convencer os credores a pagar estas FCT’s e quejandas, quando não temos dinheiro para pagar sequer um mês de salários se eles não nos emprestarem o que é deles? A dívida aumenta dia após dia, e mesmo assim há quem nos continue a emprestar. E nós? Será com textos destes, com esta lamúria improdutiva, que os vamos convencer? Com esta atitude nem daqui a muitos anos conseguiremos saldar o défice, seja que partidos forem a ganhar as sucessivas eleições. E ninguém acorda? E continuam a comprazer-se com textos como este? Nem sequer há pudor desta falta de ambição e de soluções? As Ciências Sociais e Humanas sofrem de uma crise que não vem desta conjuntura governativa, nem das que a antecederam. Essa crise vem do relativismo cultural e do excesso de interpretativismo (Basin & Selin, 2006; R. Pool, 1991; etc.). Foi esse facilitismo que, também em Portugal, as derrotaram. Explicar o social pelo social, explicar o ser humano pela Humanidade, não conseguir ultrapassar cientificamente essas tautologias e essa auto-referência, serviu para fazer muitas carreiras académicas e ocupar muitas cátedras. Publicaram-se dezenas de livros em ciências sociais financiados pela FCT a comprazerem-se com esse facilitismo e essa falta de exigência científica. Mas esse caminho sustentava-se artificialmente nos orçamentos-do-Estado, que, ao minguarem, desmoronaram todo esse belo status quo. Bem clamei em “Manifesto contra a Antropologia Silenciada”, em “A Antropologia em busca do Objeto perdido”, em “Antropologia: olhar a Realidade, no Tempo, perante os Agentes”, e outros textos; até escrevi sobre isso numa das mensagens que enviei para a Museum Lista anos atrás. Mas de nada serviu. Avisar dos erros no tempo da abundância é tempo perdido. E agora? Se os que se alimentaram desta subserviência durante décadas não saem dos seus lugares, para dar lugar aos que têm os trabalhos e as investigações de mérito, nada restará senão esperar pelo seu gradual soçobro. As Ciências Sociais e Humanas vão pungentes e fortes para quem as continua a investigar fora desse status quo das FCT’s, e cultiva os contactos e o diálogo com outros colegas e universidades no mundo. Isto não tem a ver com este ou aquele partido político, com esta ou aquela ideologia, com esta ou aquela situação de fome e de injustiça social. Tem a ver somente com a culpa própria, o comodismo, a falta de rigor e de ambição de muitos dos responsáveis pelas ciências sociais e humanas. As lamúrias não ficam bem a quem quer mudar Portugal, e não desiste da sua Soberania. A propósito de um desses contributos das Ciências Sociais e Humanas para o domínio do Património aqui vão mais duas iniciativas, em que proíbo determinantemente qualquer financiamento da FCT: ANEXO 1: COMPREENDER O PATRIMÓNIO Oficina de Formação em Museologia e Património por Pedro Manuel-Cardoso & Maria Isabel Tristany Apresentação: A descoberta da “Estrutura do Valor Patrimonial” (2008), os avanços no processamento molecular da Memória, e o modo como atualmente a Ciência obriga a alterar a maneira de representar os objetos e o real, trouxeram o Património a uma nova encruzilhada. Que instiga novos caminhos de compreensão e desafia as perspetivas tradicionais. Cujas consequências se repercutem na responsabilidade pela gestão museológica. O valor patrimonial das coleções sedeadas nos museus e instituições congéneres em breve sofrerão esse impacto. O aumento exponencial de objetos musealizados e a inevitável relativização do seu valor exigem uma compreensão do Património para além da tradicional especificidade que as coleções possuem para fidelizar os visitantes. A Oficina de Formação COMPREENDER O PATRIMÓNIO antecipa esse tempo, e proporciona uma experiência de reflexão sobre o fenómeno patrimonial. Está organizada em quatro sessões, que procuram responder às seguintes quatro perguntas: Sessão 1: O que é o Património?; Sessão 2: Como um objeto entra na Memória?; Sessão 3: Como fazer uma Exposição?; Sessão 4: Como fazer um Museu? A Oficina de Formação COMPREENDER O PATRIMÓNIO: · Fornece uma Ferramenta Metodológica para aceder às respostas para as quatro perguntas atrás referidas. · Fornece uma Matriz de Compreensão do Património constituída por 24 Questões-Chave, perspetivando-o na sua unidade e especificidade própria enquanto fenómeno humano e realidade sociocultural. Objetivo: Fornecer competências cuja repercussão no fazer prático perdurem ao longo do percurso profissional. Competências fornecidas aos Participantes: i) Competências para «interpretar, compreender, e analisar criticamente o Património e os Museus no contexto das mudanças sociais, económicas, tecnológicas, políticas, e culturais da contemporaneidade»; ii) Competências profissionais para «trabalhar em património e museologia»; iii) Competências para «preparar projetos que incluam o contributo do Património». Coordenação Científica e Pedagógica: Pedro Manuel-Cardoso (Pós-Doutorado pela Universidade de Lisboa; antropólogo; museólogo). Maria Isabel Tristany (Antropóloga; autora de “Arte e Performance” na Fundação Calouste Gulbenkian/Serviço de Educação/CAI/Centro de Arte Moderna 1993-1997; co-fundadora do Museu da Gestualidade; membro do Conselho Internacional de Museus/ICOM/UNESCO). |
ANEXO 2: PROJETO DE INVESTIGAÇÃO Duração: 2013 – 2016. Designação: Património, Cognição e Memória. Coordenação: Pedro Manuel-Cardoso (Post-Ph.D) Descrição: O projeto tem por objetivo investigar a existência de uma “representação da Relevância1 codificada no cérebro”, transversal aos diferentes tipos de património ocorridos nos diferentes contextos sócio-históricos que se foram sucedendo desde Homo sapiens sapiens. A probabilidade desta hipótese ganha pertinência na atualidade pelo resultado alcançado no estudo comparativo sobre os motivos que estiveram na origem da classificação dos objetos em Património2 desde as primeiras sociedades com escrita até à atualidade. De facto, os motivos que estiveram na origem dessa classificação patrimonial não ultrapassam no máximo oito, apesar da enorme diversidade tipológica e da imensa quantidade de objetos, coleções, e documentos que foram classificados. Este facto sugere que - perante esta inércia, transversalidade, e resiliência dos motivos - existirá a nível cognitivo uma codificação da Relevância sedeada no cérebro que só poderá ser demonstrada com a ajuda de uma investigação interdisciplinar entre a Museologia (enquanto ciência social capaz de fornecer a descrição, quer dos dados do património, quer do modo como se constituem os processos de patrimonização a nível social e cultural) e a Biologia Molecular da Cognição (enquanto descrição molecular e fisiológica do processo de memória, concretamente após o contributo de E. Kandel3 e outros). A confirmar-se a hipótese que este projeto pretende investigar isso implicaria uma nova relação entre Património-Cognição-Memória, implicaria um novo modo de fazer a história do Património, e conduziria a uma nova responsabilidade na Gestão do Património. Mas também teria implicações na teoria antropológica, concretamente ao nível da importância do factor cognitivo no processo de complexificação cerebral que a hipótese de Wynn & Coolidge (2010)4 veio recentemente propor. Notas: 1Relevância refere-se ao fenómeno empírico de existirem critérios/motivos concretos, quiçá sustentados em percursos sinápticos, causadores da assimetria de valor entre os objetos que constituem cada contexto/ambiente particular; neste caso concreto, a razão por que uns são classificados como tendo valor patrimonial e outros não. 2Património refere-se aos objetos/documentos com relevância para serem guardados e protegidos de modo explícito e intencional com o objetivo de serem transmitidos às gerações vindouras como marcadores da identidade e da memória. 3Eric KANDEL, “(...) Nascido em Viena, na Áustria, formou-se em Medicina pela New York University School of Medicine. Continuou os seus estudos de pós-graduação no Laboratory of Neurophysiology na NYH com Wade Marshall, e fez a sua formação como medico interno de Psiquiatria no Massachusetts Mental Health Center, enquanto prosseguia com a sua investigação e a docência na Harvard medical School. Fundou o Center for Neurobiology and Behavior na Columbia University em Nova Iorque, onde desempenha actualmente funções de professor de Fisiologia e Psiquiatria. É investigador senior nos laboratórios do Howard Hughes Medical Institute. É membro da National Academy of Sciences. Tem ganho vários prémios de prestígio, incluindo o prémio Albert Lasker Basic Medical Research, o prémio Gairdner, a National Medal of Science, e o prémio Wolf em biologia e medicina. Em 2000 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Medicina.”. 4 WYNN, Thomas & COOLIDGE, Frederick. (2010). Beyond Symbolism and Language: An Introduction to Supplement 1, Working Memory. In Current Anthropology, vol. 51, Sup. 1, June 2010, “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”, pp.S5-16. Parceria: EUA, Brasil, França, Portugal. Financiador(es): Museu da Gestualidade; Oficina Žylĕch. |
Pedro Manuel-Cardoso |