O Destino das Ortografias A luta pela apropriação da Língua provoca hoje muita ansiedade. Não é apenas a ansiedade milenar entre a performatividade da fala e as iconicidades legais impostas pelas Normas (consoante o poder e a duração dos impérios). Pois essa ansiedade já vem, pelo menos, desde o aparecimento da escrita no registo Assírio. Nem é também uma ansiedade provocada pelo sentimento de que, por detrás dessas normalizações ortográficas, há o desejo ideológico de domesticarem o juízo. Agora a ansiedade deriva do receio de, num contexto globalizado, quem ganhar essa guerra fará os outros desaparecer. Porém, há algo novo que se intromete nessa velha discussão entre o Poder, a Identidade, e a Língua. O funcionamento das Línguas Ainda é preponderante a ideia de que a Língua (e, no mesmo desenlace: as falas, as linguagens, as escritas, e as ortografias) é um assunto exclusivamente Cultural (histórico, social, político, filosófico). Um assunto exclusivamente de Pátrias e de Identidades. Não é necessário ir ao debate com N. Chomsky, e à questão de uma “gramática generativa universal”, para duvidar se efetivamente a Língua é um código e um sistema produzido exclusivamente pelas circunstâncias sociais. Em vez de ser, também, algo codificado na Cognição, transversal às idiossincrasias históricas e socioculturais. Chomsky mostrava aquelas crianças com idades anteriores aos cinco anos que dominavam na perfeição, na interpretação das frases que ouviam pela primeira vez, as regras gramaticais e de sintaxe. E Cavalli-Sforza apresentou aqueles célebres quadros que relacionavam a genealogia genética com as genealogias linguísticas (“árvore genética” vs. “população” vs. “famílias linguísticas”). Todas as Línguas possuem uma parte que é escolhida para as produções mais sintéticas; e outra, para as produções mais analíticas. No objetivo mais sintético, a cognição tenta encontrar a simplicidade para a complexidade; e no objetivo analítico, faz o inverso, tentando desenvolver a hermenêutica (interpretação, compreensão, explicação) da simplicidade. Essas duas especializações parecem reforçar-se mutuamente, ajudando a Cognição a ser mais competente. De um lado, a produção de diversidade, feita pela criatividade, pela imaginação, pela invenção, e pela simulação; do outro lado, a redução dessa polissemia a registos expurgados da híper-significação. Ora isto ocorre dentro de cada Língua, e em todas as que existem. Pretendo chamar a atenção para o facto do êxito do Inglês ocorrer apenas numa das partes da função da Língua dentro da Cognição. Para aquela que referi, relativa ao lado mais sintético. Pois parece-me (é apenas uma mera constatação empírica, sem investigação que mo permita confirmar) que a maior parte do uso do Inglês, no estado atual das trocas globais, e por parte dos falantes das outras línguas, se dá para fins de Negócio e de Ciência. Ora nesses dois usos, a simplificação da complexidade e do excesso de significação (polissemia, ambiguidade, etc.) é crucial. Refiro-me aqui a «simplificação da complexidade» no sentido de Chaitin e Kolmogorof [“complexité de Chaitin-Kolmogorof, … définie par la taille du plus petit programme (algorithme) pour un ordinateur de référence (appelé machine universelle) capable de décrire complètement l’objet auquel on s’intéresse”, Delahaye, 1993:66]. Este facto releva para o debate sobre o Inglês, e para a sua preponderância, no momento em que as Línguas se puseram em competição global. Porque a sua simplicidade é, provavelmente, a causa do seu êxito. E esse êxito não resulta de uma decisão sociocultural, histórica, filosófica, ou política. Resulta de uma escolha para lá da vontade humana, sedeada nos processos cognitivos que o ser humano herdou de um tempo anterior ao seu aparecimento. A linguagem usada na investigação científica tenderá a ir por um caminho comum e partilhado, codificado de forma normalizada, provavelmente aproximando-se de um processo de algoritmização matemática que permita um processamento sem a interferência da subjetividade étnica e cultural. Porém, essa especialização permitirá o aprofundamento criativo dos usos da Língua e da escrita. Se não tivesse ocorrido a globalização, e as Línguas tivessem ficado isoladas, cada uma teria ao dispor, no interior se si próprias, esses três lados (sintético, analítico, e o da relação entre ambos). Mas ao entrarem em competição umas com as outras, provavelmente o que ocorrerá será esses lados entrarem em competição pela solução mais competente em termos Adaptativos. Sendo assim, nada impede que as Línguas mais capazes de explorarem a significação e o sentido hermenêutico tenham tanto êxito adaptativo como o Inglês. Desde que, as políticas culturais, os responsáveis políticos, e os Povos que as possuem, tenham disso consciência, e desejem trabalhar para preservar e desenvolver o seu Património. O Património e a Língua Hoje em dia quem escreve são cada vez menos as Pessoas, e muito mais os programas de computador. E, portanto, quem os domina. Parte substancial da grafia está aí. Concretamente, nos thesauri de meta-dados e nos códigos ASCII que intermedeiam a escrita (grafia) de todas as línguas em linguagem-máquina. A uma ordem futura, que possa ser enviada de forma binária, todas as traduções serão possíveis, e o som/voz e a grafia fundir-se-ão no território quântico da digitalização, mesmo à distância. Atualmente, com o avanço conseguido pelo laboratório de Cambridgeshire na preservação do Património em ADN Sintético, os belos livros, e todas essas palavras que causam agora tantas dores gráficas ficarão resolvidos. Todas essas letras, cedilhas, acentos, e apócopes entrarão no cérebro da mesma maneira. E essa discussão não terá qualquer interesse, pois, no futuro próximo, para quem não se preparar devidamente, tudo isso não passará de uma espécie de hieróglifos de uma pré-história contemporânea. Sem este conhecimento, falar de “preservação do património da Língua” é o mesmo que não dizer nada. E abordar a questão pelos Acordos Ortográficos talvez seja mais uma bravata, tão ao gosto lusitano do “orgulhosamente sós”. O Português talvez seja, agora, assim que se defende. Ensinando onde a luta efetivamente se está a travar. Há países que estão a trabalhar para não irem a reboque dos outros. Espero que por cá não prevaleça aquela suave brisa descrita pelo Eça, e que o grande Vicente retratou tão bem no Auto da Lusitânia: “Todo-o-Mundo mente, e Ninguém tem razão”. Pedro Manuel-Cardoso |
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