Não irei retomar a mensagem que há algum tempo atrás enviei a propósito das lamúrias e da FCT. Não sem referir que, na altura, houve quem duvidasse. Infelizmente agora, outros mais importantes vieram testemunhar parte daquela evidência. Reza a notícia:
É neste sentido que, a propósito do recente “Inquérito aos Indicadores de Desempenho para Publicação Científica em Ciências Sociais e Humanidades” promovido pela FCT, convém acrescentar algo mais. A propósito do referido Inquérito, que todos os investigadores terão recebido para preencher, permitam que faça três comentários críticos, muito sintéticos: 1.Num mundo cada vez mais globalizado, todas as tentativas de relativizar e de fugir à «competição com os melhores» não é o caminho mais benéfico para a Ciência em Portugal. Poder-se-ão inventar as equivalências (revistas e publicações) que estatisticamente deem a ilusão de igualdade; poder-se-á compreender o contexto político de produção científica manipulado pelos poderes estatais anglo-saxónicos, asiáticos, e outros com um PIB incomensuravelmente maior; poder-se-á constatar que os investigadores e cientistas dos países estrangeiros a «quem domina, no mundo, as principais máquinas e as infraestruturas científicas» (universidades, bases-de-dados, laboratórios, escala de investimento, PIB) são, na esmagadora maioria, contratados precariamente para servirem de serventuários dessas equipas, e para assim ajudarem a perpetuar esse poder; etc. Porém, isso nada resolve de concreto, nem acrescenta nada ao agir produtivo. 2.Competir com os melhores é saber decidir qual a estratégia, dentro da Teoria do Conhecimento e da Hermenêutica, que melhor valida os resultados científicos. E isso é um assunto que tem uma historicidade concreta, com resultados que podem ser medidos e comparados. Essa escolha, dos critérios pelos quais os resultados do trabalho científico são validados, é a questão principal que deve orientar os indicadores de produção científica de um País/Cultura que pretende estar entre os melhores dos melhores, e que pretende usar a Ciência para se Desenvolver (socio-economicamente) e Sobreviver (adaptar-se) aos desafios do futuro. Logo, regressar à dicotomia que Scheleiermacher (“compreensão gramatical vs. técnica”), Kant (“pensamento vazio vs. cego”), Droysen (“emissor vs. receptor”), e Dilthey (“fenomenologia vs. positivismo”) cavaram entre “Explicar” vs. “Compreender” (isto é, a divisão improdutiva entre «Ciências Sociais e Humanidades» vs. «Ciências Naturais ou Exactas») não é o caminho correto para ultrapassarmos o nosso atraso. Para mais, com os novos avanços no conhecimento da cognição, essa divisão já quase não faz sentido. Hoje, esse impasse interdisciplinar, já devia ter sido abandonado (Manuel-Cardoso, P. “O Impasse da Interdisciplinaridade”, 2011, UNL/FCSH, Lisboa: IGAC). A Ciência é um tipo de esforço e de atitude perante o Mundo e perante nós próprios; os nomes e os objetos sobre os quais recai esse esforço e essa atitude não devem servir para confundir e para cavar divisões. 3.A almejada «Inter-disciplinaridade» (ver, no próprio site da FCT, o documento «Domínios do Conhecimento Científico FOS/2007/OCDE») não deve servir para, cada um desses quatro caminhos (1.«ciências naturais», 2.«ciências exatas», 3.«ciências sociais» e 4.«humanidades»), irem pela deriva relativista até se perderem uns dos outros. Resulta, destes três comentários, que, não me parece correto o caminho nem as premissas que estiveram na base deste Inquérito. Embora, seja de elogiar o esforço e as meritórias intenções da FCT. Os «critérios da Avaliação» devem, ao contrário, servir para que cada contributo, em cada um desses quatro domínios, ajude cientificamente os outros. São unicamente a estratégia e a escolha que se fazem (que a instituição FCT faz) para validar os resultados científicos dentro da Teoria do Conhecimento e da Hermenêutica que podem evitar a deriva improdutiva, e uma equivalência artificial entre publicações científicas. Repito, sem que esta crítica ponha em causa o esforço e as meritórias intenções da FCT. Muito pelo contrário, para que coletivamente possamos melhorar, em constante diálogo e partilha. Pedro Manuel-Cardoso |
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