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Nao sei por que bizaro mistério, as aspas são no texto abaixo substituídas por interrogações.
Ainda que em certo caso tal pudesse ser aceitável e conferrisse até ao texto alguma ironia, convem esclarecer que essa não foi a minha intenção.
Aqui interrogações são aspas. Todas. E peço que as tomem como tal.
LRaposo
----- Mensagem encaminhada de 3raposos@sapo.pt -----
Data: Mon, 03 Nov 2014 11:14:14 +0000
De: 3raposos@sapo.pt
Assunto: [Museum] ...o reencontro com o poder dos Objetos.
Para: museum <museum@ci.uc.pt>
Bem sei que não temos por hábito usar as plataformas abertas como a Museum para discutir temas complexos ? mais a mais quando apresentados debaixo das modalidades discursivas tão desnecessariamente crípticas que levaram o Padre Vieira a pedir desculpa por ter sido tão longo (e obscuro, acrescentaria talvez) por falta de tempo em ser curto (e claro, diria também).
Mas nem por isso desejaria deixar expressar a minha concordância com o contributo do Pedro Manuel Cardoso abaixo, na parte em que se refere à centralidade do objecto no museu, citando para o efeito Conn, num magnífico conjunto de ensaios (mais do que um livro) em que defende a ideia de que os museus sempre foram e continuarão a ser ?locais únicos situados na intersecção de objectos, ideias e espaço público?.
Em tempos pedi emprestada a Pessoa a seguinte reflexão, que usei como epígrafe para um artigo meu sobre a problemática subjacente à definição de tesouros nacionais (in Museologia.pt, nº1, disponível em linha em: http://issuu.com/imc-ip/docs/museologia_n1)
A Espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Pouco mais haveria a acrescentar a tão chã cogitação. Mas, claro, os novos contributos são sempre bem vindos e eu próprio o entendi fazer há dias em texto que ainda aguarda publicação (e por isso me refreio aqui de reproduzir na íntegra), intitulado ?Museu: a Fénix sempre renascida?.
Dele retiro esta passagem:
?Desprovido de objectos, ou reduzidos estes a campos de representação social cada vez mais limitados, quiçá marginais, o museu deixaria de poder exercer o seu específico papel de respigador de coisas velhas desfiguradas, convertidas em colecções.
Não sendo novo (recorda até a confrontação que Benjamim estabeleceu entre a obra de arte e a sua reprodução, demonstrando a irredutibilidade da aura da primeira), continua a ser desafiador este argumento, que atribui ao nosso tempo o estatuto de ?civilização do buraco negro? ? uma época em que se teriam desvanecido as velhas utopias do "escrito na pedra?, ?no barro? ou "no papel?, as quais puderam trazer até nós mensagens de há séculos e milénios, e estaríamos fatalmente entregues ao "escrito na nuvem?, que duvidosamente alcançará décadas, muito menos séculos. O assunto merece sem dúvida comentário mais alongado, que neste contexto nos é impossível, mas de que deixamos algumas pistas.
Num primeiro nível, mais corporativo e menos satisfatório, apeteceria dizer que o museu já viu tudo e há-de reinventar-se, adaptando-se ao imaterial, ao digital, aprendendo a viver sem objectos. Não é isso que já acontece em numerosos e tão celebrados museus de tudo e coisa nenhuma? Noutro plano, mais exigente, observaríamos que a memória imaterial pura, não alicerçada em coisas reais, não existe. Ora, sendo o humano, por natureza, um animal cultivador da memória há-de com ela continuar a guardar, a ter como âncoras, objectos materiais. Podem os conteúdos dos nossos iPads desaparecer todos daqui a dois séculos, que alguns dos ditos iPads continuarão a existir e permitir recriar memórias, porventura já somente na sua condição de ?peças de museus?. E finalmente existe o mais importante, aquilo que as ciências sociais cultoras da cientificidade popperiana dificilmente entendem, mas constitui o reduto mais central do historiador, no seu optimismo materialista: apenas é importante aquilo que deixa vestígios, porque necessariamente a história é feita a partir e em benefício de cada presente, com os traços subsistentes de cada passado.?
Luís Raposo
Quoting Pedro Manuel Cardoso <mty@mail.tmn.pt>:
O Museu do Oriente transformou-se num caso singular no panorama museológico português.
Não me refiro a uma exposição em particular, mas àquilo que a Expografia sobreleva para lá da sucessão das exposições que tem realizado. Essa orientação, e o resultado que provoca, merecem uma reflexão museológica, muito para além do prazer estético e cognitivo que suscitam.
Em 2010, Steven Conn, através da Universidade de Pennsylvania, perguntava no título do seu livro: ?Do museums still need objects??. Um livro que mereceu os maiores elogios, de pessoas influentes, por exemplo, de Raymond Silverman da Universidade de Michigan, ou de James Cuno, presidente e diretor do Art Institute de Chicago, entre outros. Nele, escreveu: ?(?.) their role is clearly a reduced one; objects have virtually disappeared from galleries, replaced by other didactic devices ? audio-visual, interactive technologies, and so on (....) Taking on these roles is one way museums hope to remain «relevant» in a media-saturated, hiperconsumer society. Providing jazz concerts, movie screenings, and happy hours, museums attempt to compete for entertainment dollars. By building whole museums around «issues» or «themes», institutions hope to tap into some sense of contemporary political relevance (?.)The line that separates relevant from irrelevant, urgent from out-of-date, often gets crossed pretty quickly, and museums that invest too much in an easy sort of relevance may find it hard to keep up. (?.) Whatever else can be said of them, objects endure. And in that endurance they offer people the simple pleasure of looking at and the thrill of being in the presence of real things, made by human hands through time and across space or fashioned by nature in all its astonishing variety (?.) Museums, some of them anyway, may not need objects anymore, but without objects we all may miss the delights and surprises that come with looking. ? (Conn, 2010).
No Museu do Oriente os Objetos readquirem novamente o poder antigo de comunicarem o valor patrimonial.
Ou, se se quiser, o fascínio da ?coisalidade da coisa? que Heidegger tanto se esforçou por definir, e que um seu discípulo, Agamben, traduziu de forma lapidar: ?O [ser humano] é o ser que, confrontando-se com as coisas, e unicamente nesse confronto, se abre ao não-coisal. E inversamente: aquele que, sendo aberto ao não-coisal, está, unicamente por isso, irreparavelmente entregue às coisas. Não-coisalidade (espiritualidade) significa: perder-se nas coisas, perder-se até não poder conceber mais nada senão coisas. E só então, na experiência da irremediável coisalidade do mundo, chocar com um limite, tocá-lo. Este é o sentido da palavra: Exposição.? (G. Agamben, A Comunidade Que Vem, 1993).
A desvalorização do Objeto, ou a convicção de que é necessário juntar-lhe muitas coisas para que ele signifique, não é uma questão nova. É um movimento que se inicia após-1945 (?Segunda Guerra?). E que se tornou transversal às ciências sociais, às Humanidades, à hermenêutica, à teoria da estética e da arte, e chega tardiamente ao mundo-do-património. O relativismo cultural e o excesso de interpretativismo (como já referimos noutro texto) levariam à preponderância do pragmatismo analítico sobre o essencialismo, que culminaria com a apressada cisão entre material e imaterial/intangível, e à desvalorização do objeto em relação à imagem e à visualidade. As designações das revistas e os títulos dos artigos ilustram bem essa mudança. Por exemplo, nas ciências sociais e humanidades, a «Cultura Material» é suplantada pela «Cultura Visual»; na Estética, a questão deixou de ser «O que é a Arte?» para passar a ser «A questão de o que é a Arte?». Ou seja, perante a impotência de se continuar a encontrar os ?denominadores comuns? e as ?propriedades? daquilo que nos é extrínseco, o esforço passou a dirigir-se para o que é intrínseco ao sujeito que busca a compreensão e o conhecimento. As coisas-do-mundo, e por tabela os objetos e a materialidade, passaram a ser assuntos menores perante a Fenomenologia e os desígnios da Cognição. Há aqui uma espécie de desalento e de desistência perante a constatação de que é impossível ao ser humano alcançar verdades únicas e definitivas sobre as coisas que acontecem no seu redor; cuja solução, seria um regresso ao armário antropocêntrico. Mas um regresso a esse casulo, agora, enfeitado com modelos pseudo-exactos, herdados do Círculo de Viena, da matemática de Russel, ou dos ?jogos lógicos? da linguagem e das ?semelhanças-de-família? de Wittgenstein.
Seja como for, a Expografia do Museu do Oriente permite um reencontro com o poder dos Objetos.
Por exemplo, nas atuais exposições. Refiro-me à magnífica exposição ?Linguagens Tecidas? ? têxteis Ikat da colecção de Peter Tem Hoopen; ?Os Cavalos? de Manuel Amado, que, como dissemos à curadora Teresa Amado, se os cavalos a pudessem visitar certamente ficariam até a gostar mais de si próprios; ou, ?Esplendor e Engano? de Isa Duarte Ribeiro e Pureza de Oliveira.
Quando as visitámos recordámos Luís Efren Casanovas. Veio-nos à lembrança o seu entusiasmo pelo projeto do Museu do Oriente. Todos sabemos que os seus ensinamentos sobre Conservação Preventiva em Portugal deixaram uma marca e uma semente que germinou em muitos profissionais e técnicos da geração mais jovem. Mas também eram, julgo agora compreender, a sua paixão por esse poder resiliente do Objeto, que torna todas as interpretações visitas efémeras. Esse entusiasmo, por um projeto que ainda estava no início, foi uma premonição que se veio felizmente a confirmar.
A Expografia do Museu do Oriente dá liberdade à Curadoria, mas permite.nos reencontrar a resiliência do Objeto. Não necessita de recorrer, em excesso, à parafernália tecnológica que, hoje, se tornou a insígnia de uma época onde os objetos e a materialidade aparecem desvalorizados perante a vaidade das ideias e a crença irracional nos conceitos, às quais Lyotard chamou ?incredulidade das metanarrativas?.
A questão que a orientação expográfica do Museu do Oriente coloca à museologia é o debate sobre essa poderosa força do Objeto, perante a qual o adjetivo «imaterialidade» se torna porventura desnecessário, ou não.
Em suma, até apetece subverter o título da obra de Steve Conn, perguntando: ?Os museus ainda necessitarão da imaterialidade?
Pedro Manuel-Cardoso
----- Fim de mensagem reenviada -----
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