O regozijo com a desunião do Património continua. Como se dessa incauta decepação pudesse advir algum benefício. Que é feito da materialidade expulsa do Cante, do Fado, do Café, e de tantos outros patrimónios? Onde ficarão as Pessoas, as Coisas, e os Objetos que pertencem e criam essa pretensa imaterialidade? Já nos tínhamos referido anteriormente aos locais do património, fossem eles museus, monumentos, palácios, arquivos, bibliotecas, sítios de interpretação, lugares de memória, circuitos, parques temáticos, ao ar livre ou fechados numa reserva, in-situ ou ex-situ, num dispositivo de armazenamento digital, numa base-de-dados, ou no hipocampo dos cérebros humanos codificado como imagem, representação, ou imaginação. Porém, agora, a questão é outra. O Património, esteja onde estiver e seja o que for, não nos parece ser duas coisas diferentes como atualmente muitos defendem: por um lado material, por outro imaterial. Essa maldade cartesiana que atualmente estão a fazer ao Património e à Museologia não resiste à verificação científica. Porque toda e qualquer imaterialidade acaba sempre por ser uma materialidade. E toda e qualquer materialidade tem sempre imbricada uma imaterialidade. Sem uma iconicidade… a oralidade, a gestualidade, os factos, as ações, as emoções ou os sentimentos seriam impossíveis de detetar como fenómenos, e portanto como Património. O Cante, o Fado, o Café, e tantas outras coisas ditas agora imateriais, não são feitas de pessoas, de coisas, e de objetos? Essa cisão dual perpetrada pela contemporaneidade talvez não seja o melhor caminho para o futuro do Património. Um erro que será corrigido muito em breve, por efeito do contributo da física e da biologia molecular da cognição (John O’Keefe, E. Kandel, M. Fontez, May-Britt & Edvard Moser). O que a verificação empírica e conceptual nos indica é que, por um lado, não existem apenas essas duas dimensões/substâncias num objeto patrimonial (ver «conceito hepta-dimensional de objeto patrimonial» de Pedro Manuel-Cardoso, 2013); e por outro lado, há um continum e não uma cisão entre elas. Esse continum é verídico porque não há qualquer descontinuidade entre «Objetos, Factos, e Realidade». Isto é, toda e qualquer imaterialidade pertence a uma materialidade e vice-versa. É o nosso sistema molecular de cognição (E. Kandel, 2001, 2012; M. Fontez, 2013) que faz essa cisão, não é o mundo e a vida que são essa separação. Portanto, o que talvez esteja errado não são os factos da vida e do mundo, mas o modelo pelo qual o ser humano os interpreta. O modelo cartesiano e positivista de conceber a Realidade confunde o modo como pensamos com aquilo que o mundo e a vida são. A ciência e o pensamento (cogito) não equivalem à Vida, ao Mundo, e ao Ser; são apenas o modo como os conseguimos interpretar e explicar. Tal como Kant referiu, a Ciência, ao ser uma obra do ser humano, é sempre social e humana (antropológica) chame-se-lhe «exata», «natural», «tecnológica», ou «humanidade». Se o Património fosse concebido com essa ingenuidade e com esse impasse dual, então, era a Museologia que se estava a enganar a si própria. Uma coisa é necessitarmos de algoritmos de sinais capazes de estabelecerem uma diferença/discriminação binária para conseguirmos arquivar aquilo que para nós (para o nosso limiar percetivo) é a imaterialidade, outra coisa é convencermo-nos que o Património é isso, que, se confunde com o nosso limite. Essa separação não está a separar aquilo que é inseparável no Património? E quais serão as consequências a prazo? Vão fazer dois museus e dois departamentos para cada uma das partes? Com isso não estarão a deixar o Património em escombros? Pedro Manuel-Cardoso |
| Mensagem anterior por data: [Museum] Receitas e Mezinhas: exposição virtual da TT | Próxima mensagem por data: [Museum] Um exemplo que vem de cima... |
| Mensagem anterior por assunto: [Museum] Actividades lúdico-pedagógicas nas férias de Verão do Museu da Presidência da República | Próxima mensagem por assunto: [Museum] ADIADA SESSÃO da Comunidade de Leitores de Filosofia de 15 DEZEMBRO | MUSEU NOGUEIRA DA SILVA |