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[Museum] Pedantismo à volta da Grécia

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Pedantismo à volta da Grécia
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Tue, 24 Feb 2015 16:39:17 -0000

         Desculpe-me, mas apetece-me clamar: «É fartar, vilanagem!».

         E pensarmos nós que a Cultura Clássica andava pelas ruas da amargura, fruto do desinteresse quase total que os sucessivos governos lhe vêm dedicando!... Qual quê! Está aí, bem viva e ai dos concorrentes do Quem Quer Ser Milionário se não souberem quem é Sísifo, o Tântalo do suplício, o Creso, a Pandora da caixa e outros mais!…

         Deliciemo-nos, pois, com este apetecível naco de prosa!

                           

                                                                  J. d’E.

 

…….

Um texto oportuno para todos os tirocinantes, em especial para os que, falhos de ideias próprias e sedentos de mostrar erudição, se comprazem em salpicar os seus escritos com citações deslocadas ou pouco mais do que banais.

 

Pedantismo à volta da Grécia

José Diogo Quintela

PUBLICO, 22.02.2015

 

Desde a eleição de Tsipras tenho contabilizado a quantidade de referências à Grécia Antiga que os comentadores usam nas suas análises. Quanto maior o número de alusões eruditas, menos original a análise.

Como não tenho opinião sobre o tema e sou muito competitivo, proponho-me a bater o recorde mundial de referências pretensiosas sobre a Grécia Antiga num texto dedicado à situação actual. Cada afirmação banal será complementada com exibição pedante e inútil de cultura clássica. Vou então principiar.

Os gregos votaram em Tsipras porque estão fartos de ser PIGS. Como os companheiros de Ulisses, transformados por Circe.

Tsipras está confiante. Também Creso estava. Antes de declarar guerra à Pérsia, o rei da Lídia consultou o Oráculo de Delfos que lhe garantiu que, se atacasse, destruiria um grande império. Confiante na vitória, avançou. Sucede que o império aludido era o seu próprio. Apesar disso, Tsipras parece optimista. Mas pode estar a voar muito perto do Sol. A Grécia pode acabar ostracizada pela União Europeia.

O primeiro-ministro grego abriu a caixa de Pandora e, com as suas exigências, tenta manter a Europa refém. Como Zeus disfarçado de touro branco.

Guiado por um fio de Ariadne financeiro, Tsipras começou um périplo pelo continente. Faz lembrar Fidípides na véspera da batalha de Maratona, a tentar convencer os espartanos a ajudarem Atenas. Persuadir os líderes europeus poderá revelar-se tão difícil como os 12 trabalhos de Hércules e tão inglório como a tarefa de Sísifo. A dívida grega é substancial. A lista de credores é mais extensa que o catálogo das naus da Ilíada.

Até agora, Tsipras está como Penélope, a ganhar tempo. E já demostrou ter olho para a negociação. Que não lhe aconteça como a Polifemo. A troika é implacável. Lagarde disse que só dava o dinheiro se Tsipras respondesse a esta questão: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?” Para não ser pendurado num penhasco e ter o fígado comido diariamente por uma águia, Tsipras fugiu agarrado à barriga de uma ovelha.

Para já, teve de recuar em algumas promessas eleitorais. Descobriu, como Dâmocles, que governar não é tão fácil como julgava. Entretanto, aliou-se aos inimigos da extrema-direita. Um sacrifício para garantir bons ventos, como Agamémnon ao imolar Ifigénia. Cautela com Clitemnestra! Mas Clitemnestra que se ponha a pau com Orestes! E Orestes com as Fúrias!

Apesar de tudo, não se pode reduzir uma discussão sobre a Grécia ao preço do cachecol de Varoufakis, como se fosse feito com lã do tosão de ouro. Nem culpar as cabeleireiras que se reformam aos 50 anos. Se bem que não há grande justificação para ser uma profissão de desgaste rápido. A não ser que implique fazer madeixas à Medusa.

Reparem como, através de um exercício estilístico meramente estético, introduzi subtilmente uma série de questões relevantes, surpreendendo o leitor. Como o cavalo de Tróia. Só que o leitor está-se borrifando. É um cavalo de Tróia com calcanhar de Aquiles.

Se isto não é o recorde mundial de referências clássicas em textos sobre a situação grega, vou ali a Termópilas e já venho.     

 






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