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[Museum] João Marques

To :   "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] João Marques
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Sat, 7 Mar 2015 18:57:21 -0000

         Recebo, agradeço e divulgo esta evocação do Doutor João Marques, em tão hora elaborada pelo Doutor Manuel Augusto Rodrigues.

         Recordo que se divulgou ontem o testemunho do Doutor Vítor Serrão.

 

                                      J. d’E.

 

EVOCAÇÃO DO PADRE JOÃO MARQUES, FILHO ESPIRITUAL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

É com sentimentos de grande estima, amizade e admiração que sintetizo nesta breve nota sobre o Padre João Francisco Marques que nos deixou na manhã de ontem, algo do muito que havia a dizer sobre o prestigiado sacerdote e homem da ciência e da cultura. Na Igreja da Misericórdia da Póvoa foi celebrada uma missa exequial pelo arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, e o funeral realiza-se amanhã, domingo, a partir das 11h; depois da liturgia fúnebre o corpo seguirá para o cemitério da cidade.

Conheci João Marques quando veio estudar para Coimbra e desde então estabeleceu-se entre nós uma estreita relação de profunda amizade e um intercâmbio científico-cultural altamente enriquecedor e fecundo. Na docência universitária e em provas académicas pude admirar as invulgares qualidades humanas e intelectuais deste grande vulto da cultura poveira.

Nascido na Póvoa de Varzim, a 9 de Janeiro de 1929, estudou no Seminário Conciliar de Braga entre 1940 e 1952, vindo depois a frequentar o curso de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde cursou História, obtendo a licenciatura em Julho de 1970 com uma dissertação sobre “A Parenética Portuguesa e a Dominação Filipina”, que mereceu do júri a elevada classificação de 18 valores. O seu nome ficou assim ligado à “Alma Mater Conimbrigensis” da qual ficou a ser ilustre filho espiritual.

Aquela tese era o embrião do que haviam de ser as áreas de especialização de toda a sua vida: a história religiosa/social e a parenética portuguesa, temas sobre os quais escreveu numerosos estudos e publicações que o tornaram um dos nossos maiores especialistas de sempre. Seria o Padre António Vieira, contudo, que havia de marcar toda a sua a sua vida constituindo a paixão do seu trabalho probo e de uma consistência sólida.  

Antes de entrar para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto foi professor efectivo no Ensino Secundário, metodólogo de História e orientador de metodologia nos Liceus D. Manuel II, Alexandre Herculano, Rainha Santa Isabel e de Vila Real. Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto João Marques havia de se impor pelo seu invulgar talento e desenvolvendo uma exemplar actividade de professor consagrado, investigador incansável e autor de muitos e notáveis estudos. Foi aí, sucessivamente, assistente, professor auxiliar e professor associado. Doutorou-se em História a 6 de Janeiro de 1984 com a tese “A Parenética Portuguesa e a Restauração, 1640-1668 – A Revolta e a Mentalidade”, tendo sido aprovado com distinção e louvor, e alcançou a cátedra em Agosto de 1993. Desempenhou cargos de direcção e presidência de diversos organismos universitários, nomeadamente do Conselho Directivo da sua Faculdade.  Na Universidade Católica, leccionou na Faculdade de Filosofia de Braga e na de Teologia do Porto, sobretudo a cadeira de Introdução à História. Atingiu a jubilação em 19 de Maio de 1999.

João Marques tinha uma visão rasgada da cultura sabendo aliar aos temas mais ligados às suas preocupações científicas outros horizontes mais abrangentes. A visão humanística que emoldurava o seu espírito fazia com que procurasse estabelecer uma unidade entre os vários elementos do ser, do saber e do sentimento. Póvoa do Varzim tornou-se um ponto de referência cultural a nível do País, uma espécie de cenáculo. O empenho de João Marques à frente do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, a assessoria religiosa e cultural do cineasta Manoel Oliveira, um dos grandes amigos do professor poveiro, tal como o foi o escritor José Régio, sendo até à morte presidente do centro de Estudos Regianos de Vila do Conde, de que foi fundador. Teve oportunidade de conviver estreitamente com alguns vultos da cultura e da arte contemporânea,como o já citado José Régio, Luís Amaro, Fausto José, Saul Dias, Orlando Taipa, Pacheco Neves ou Manoel de Oliveira.

Foi membro da Academia Portuguesa de História, do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e de inúmeras comissões científicas de eventos nacionais e internacionais. No Diana-Bar participou em diversas tertúlias semanais com várias figuras gradas da cultura portuguesa. O município atribuiu-lhe em 1995 a medalha de reconhecimento poveiro pelos múltiplos serviços prestados à terra natal.

Para o fim uma referência à apresentação da “Obra Completa” do Padre António Vieira, em 30 vols., que foi o sonho da vida de João Marques. Os organizadores e colaboradores, entre os quais se destaca José Eduardo Franco, quiseram que o acto tivesse lugar na Póvoa de Varzim. João Marques ainda esteve presente nesse dia 25 de Fevereiro no “Correntes D’Escritas”, no termo da "odisseia" de uma obra monumental, histórica e única na História da Literatura Portuguesa”. O moderador da sessão foi José Carlos Vasconcelos que apresentou os autores desta maratona: José Eduardo Franco, Pedro Calafate, coordenadores da obra, e João Francisco Marques cuja intervenção se centrou nos sermões, que ocupam 15 volumes, “e que António Vieira considerava serem pobres choupanas da sua escrita". João Marques lembrou que António Vieira ficou conhecido pelos 220 sermões que deixou mas muitos outros se perderam. Disse ainda “que esta obra era uma meta a alcançar e, pessoalmente, um sonho a concretizar, já que dedica-se ao estudo da obra de Padre António Vieira desde os seus 20 anos de idade, sendo que só agora, aos 86, tem a satisfação de ver concluída a sua publicação que considerou ser obra de loucos. António Vieira foi missionário, diplomata, pregador da corte, confessor de reis e príncipes, mas nem sequer se sabe onde param os seus ossos, reflectiu João Marques, que acrescentou: a "Obra Completa" está publicada com um texto rigorosamente revisto e fidedigno; fica para o presente e para o futuro um património cultural, o património de um génio. Justificava-se, pois, que os organizadores tivessem deliberado deslocar-se ao Vaticano no passado dia 4 para oferecerem ao Papa Francisco e também ao Geral da Companhiatão importante monumento que une Portugal ao Brasil e honra sobremaneira aquele que é conhecido por "imperador da língua portuguesa", a Igreja e a Companhia de Jesus e a Cultura pátria.

 

 






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