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A polissemia do Património atingiu uma profunda complexidade. Que exige da Museologia a construção de um novo conceito de Objeto que possa ser válido transversalmente nas escalas (física, química, biológica, social, cultural, simbólica) em que o atual Património se exprime. De modo a fazer convergir as tarefas de gestão patrimonial (em arquivos, bibliotecas, museus, monumentos, centros, parques, e demais instituições responsáveis por património). Um conceito de Objeto que melhore a convergência e a inter-relação das tarefas de investigação, documentação, registo, catalogação, indexação, interpretação, e comunicação. Atualmente, no seio de uma mesma comunidade ou cidade, onde alguns visitantes vêm no objecto a prova de uma vitória militar, outros vêm no mesmo objecto um acto criminoso de colonialismo; onde uns vêm a prova de um atentado, outros vêm um acto heroico de resistência; onde alguém vê no objecto o lado positivo, outros vêm o lado negativo. O objecto é simultaneamente o verso e o anverso, a afirmação e a negação, a lembrança de algo e o esquecimento de outra parte, e assim sucessivamente. Alguns exemplos ajudam a tomar consciência da polissemia do atual Objeto a musealizar. Considerem-se
os objectos que, alinhados numa
vitrina de vidro, faziam parte da exposição ocorrida num museu em Berlim: “(…) um isqueiro cor-de-rosa, uma pregadeira
de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de
prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de
água de plástico, uma faca, óculos de sol, uma pequena corrente de aço com
cerca de É deste modo que Ugrešić inicia o seu “Museu da Rendição Incondicional” (2011). Um museu que tem por objectos «os fragmentos narrativos da narratária de Ugrešić», uma quinquagenária croata exilada em Berlim. À exposição desses objectos a editora Cavalo de Ferro chama: “Retrato da cultura e da identidade europeias”. Mas Larry Wolf chama-lhe: “O espírito conturbado e de crise da Europa no final do século XX”. E o jornal The Independent chama-lhe: “Reflexões sobre a cultura, a memória, e a loucura”. Considere-se um outro museu. O “Museu da Inocência” de Orhan Pamuk (2014). Os objectos desse museu são todos aqueles que foram tocados pela amada de Kemal, ou os que a evocavam: “(…) objectos pessoais, um brinco, um gancho de cabelo, bilhetes de cinema, porcelanas, beatas de cigarros que Füsun fumava (…)”. O tema e o nome da exposição poderiam ser: «O Amor», ou «O amor de Kemal por Füsun imaginado por Orhan Pamuk». Considere-se outro exemplo. Alguns alunos da Universidade de Évora, em 1997, criaram uma Exposição que percorreu vários locais. Em Lisboa, esteve na Sociedade Nacional de Belas Artes (2003) e no Palácio Galveias (2009). Os objectos dessa exposição eram pedaços de telas, desenhos, e pinturas abandonadas nos ateliês, que não tivessem nem nome do autor nem a data em que foram concluídos. A esta exposição chamaram: “Museu do Esquecimento”. Mas poder-se-ia chamar: «O que é esquecido», ou «O que é abandonado», ou «O resto». Aqui, não é um museu que faz uma exposição e dá-lhe um nome; aqui, é a Exposição que chama à exposição: museu. Regressando ao “Museu da Rendição Incondicional” e ao “Museu-Jardim Zoológico de Berlim”, verificamos que é a própria Dubravka Ugrešić que põe os visitantes a hesitarem no significado que hão-de atribuir ao que vêm (passo a citar as suas palavras): “o visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos.” (Ugrešić, 2011, p.10). Mas o que releva para a polissemia do Património é a autora afirmar peremptoriamente que os visitantes não conseguem resistir (passo a citar): “(…) ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquirem ligações secretas, e mais subtis.” (Ugrešić, 2011, p.10). A autora presume que há uma «vontade misteriosa» que liga os objectos, e que funciona independentemente do arbítrio humano. E isso seria válido para os objectos de todas as exposições, de todos os museus, de toda a museologia. Cada pessoa terá uma opinião diversa acerca do significado dessa ligação, porém, essa resiliência misteriosa manter-se-ia perene. Que lição se poderá retirar desta realidade multiétnica, miscigenada, e transnacional que constitui o atual visitante do património? Talvez os museus que tornarão as Cidades mais competitivas, e destinos culturais mais atrativos, não sejam forçosamente os museus tradicionais que custam muitos milhões, exigem projetos arquitetónicos megalómanos, ou têm por ambição cobrir a totalidade de áreas disciplinares ou temáticas. A preponderância do fator cognitivo, tanto nas ciências exatas e naturais como nas ciências sociais e nas humanidades, está a metamorfosear e fragmentar os temas e os objetos a musealizar. Talvez estejamos a entrar na era de novos museus mais pequenos, idiossincráticos, e sustentáveis. É para antecipar este futuro, que já está ao virar da nossa esquina (o “Museu da Inocência” de Orhan Pamuk foi premiado em 2014) que seria útil discutir o novo conceito de Objeto que permite pôr em prática esta exigência de interdisciplinaridade e de inevitável convergência entre as instituições que têm por missão gerir o Património. É de mudanças estruturais como esta que as Políticas Públicas de Património necessitam para conseguirem inverter o défice de recursos e de sustentabilidade que as afeta. Discutir o mesmo sem perceber esta mudança de contexto tecnológico, social e cultural não é sensato. Ao ouvir e ler algumas das ideias e opiniões, até de quem lidera as instituições, parece que estamos no século passado, e que o mundo e a contemporaneidade passam por outro lado. É tempo de um novo tempo. E não é por falta de inteligência ou de preparação que Portugal tem que ficar para trás. Pedro Manuel-Cardoso |
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