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Corpo, Desporto e Património Com a devida autorização de uma das mais prestigiadas professoras de Museologia do Estado de Santa Catarina (Brasil), e acerca do nosso diálogo sobre a Gestão Museológica do Corpo e do Desporto no seio do Património, partilho, agora que se aproxima do “Dia dos Monumentos” (ou talvez, das Coisas Sólidas e Pesadas que são património) parte dessa reflexão. A páginas tantas, respondi o seguinte: - “A minha colega Anne Stroobant, que está sentada na mesa ao meu lado, lá no Palácio, na mesma sala onde o António Ferro congeminava o Estado Novo, enviou-me a notícia de um Colóquio que decorrerá na Universidade Católica no próximo dia 20 de maio de 2015, com o título “Desporto, Ética e Transcendência”. Li atentamente a narrativa de apresentação desse evento. Diz o seguinte (passo a citar):
Ora não resisto a fazer um comentário, no seguimento da minha anterior crítica ao conceito de Corpo e Desporto que por aí anda. Para dizer o seguinte: - A “nossa contemporaneidade” não é a que o Colóquio diz. A contemporaneidade desse Colóquio já pertence à do passado. Nesse Colóquio tudo está mergulhado e aprisionado na Linguagem e no Simbólico. Está tudo do lado do “pensamento cego” que Kant referia; aquele pensamento que abdica da “realidade sensível” e fica apenas com as “categorias linguísticas do entendimento”. Esse foi o tempo da linguística e da semiologia saussureana, que deu origem à preponderância de Wittgenstein, e depois ao estruturalismo. Esse foi o tempo do «Pós-Guerras» e do «Maio 68». Hoje a Contemporaneidade é aquela que usa uma Hermenêutica não baseada na linguagem (A. Weinberg, 2008); toma em consideração os recentes avanços na “biologia molecular da cognição” (E. Kandel, 2001, 2014); está “Beyond Language and Symbolism” (Wener-Green Foundation, 2010) não fazendo equivaler cognição a pensamento; e a adopta uma “concepção hepta-dimensional” de corpo (Pedro Manuel-Cardoso, 2014). A Transcendência, o Corpo, e o Desporto já não estão na “contemporaneidade” que este Colóquio escolheu. Andam a procurar no sítio errado. Ou seja, o Corpo é o suporte do Pensamento, e o pensamento é tributário da Linguagem. Estamos de acordo. Mas a questão na Contemporaneidade, porém, já não está no Pensamento, está na constatação de que o suporte da Compreensão e do Dasein (do «Ser que compreende o sujeito que pensa e age») não é o Corpo nem o Pensamento. O território da Contemporaneidade é, agora, o da Compreensão, da Intuição, da Imaginação. Daquilo que antecede o Sentido/Significado. E para o qual não bastam apenas as ciências sociais e as humanidades. Sendo necessária uma Interdisciplinaridade mais exigente e rigorosa. Para a atual reflexão filosófica e científica o Corpo não existe senão como categoria conceptual e abstrata ligada sobretudo ao Pensamento, o qual, por sua vez, é agora considerado como uma mera função/habilidade que não determina totalmente a Compreensão nem a especificidade do Dasein. O que é o Corpo? As unhas dos pés ou os percursos sinápticos? É necessário regressar a 1140, para perceber como conceptualmente, pela primeira vez, se separou a intencionalidade (gestus) da performance (figuratio) da motricidade (motus), concretamente, na célebre: “Gestus est motus et figuratio membrorum corporis, ad omnem agendi et habendi modum” (Hugh de Saint-Victor, 1140, in Jean-Claude SCHMITT, 1990, “La Raison des Gestes dans l’Occident Médiéval”, Bibliothèque des Histoires, Paris: Gallimard, pp.177). Mais do que Corpo e o Pensamento (mente vs corpo) a questão trava-se agora no território de saber se o «Ser que compreende o sujeito que pensa e age» possui suporte ou não (“It from bit, or Bit from it?”, perguntam Kantor ou Wheeler). A questão do Corpo deixou de ter a relevância que tinha. Melhor dito, deixou de poder ser compreendida da mesma maneira que era até aqui. Logo, «o que é o Desporto?» passa a jogar-se no seio de uma reflexão diferente da do passado recente. Ora, a narrativa de apresentação deste Colóquio aparece-nos como uma espécie de caco arqueológico, um vestígio de algo que já desapareceu. Um pouco como, sem ofensa e com muita consideração, parecido com aquilo que representa um dos últimos moicanos de uma época e de uma mentalidade (refiro-me ao Vítor Serpa, e à instituição «A Bola»). Sobre «o que é Compreender?» num sentido ainda mais profundo, e olhando para o que a Teoria do Conhecimento e a Hermenêutica Contemporânea nos trouxeram, escrevi: “Compreender? Porém, compreender não implica abdicar da convenção passado-presente-futuro? Não implica abdicar das amarras da evolução dos sinais de Diferença e do seu impacto na nossa percepção e no nosso cérebro, que nos obriga a uma concepção fragmentada da Realidade, ou seja, a vê-la composta de formas, coisas, coleções, objetos, partículas ou substâncias? Compreender não implica abdicar da obrigação a priori de separar o Tudo do Nada, o Diferente do Mesmo, o Exterior do Interior? Compreender não implica ir além da prisão da Luz ocorrida a seguir à grande explosão, possibilitando separar Juízo de Evidência? Compreender assim, sem essas barreiras, seria, lógica e intuitivamente, transformarmo-nos no Incompreensível, no sentido de que desabava o Mundo das formas, das partes e dos objetos, e a própria mecânica das partículas e das substâncias. O caminho implicava transmutarmo-nos a nós mesmos (inclusive a nossa carne, o nosso pensamento, e as nossas emoções) na matéria e energia do que queremos compreender. Só assim lá chegaríamos. Então, compreender será impossível sem a experiência de nos conseguirmos transformar, a nós mesmos, nem que por breves momentos, em Compreensão.” (P. Manuel-Cardoso, “Investigar o Impronunciável”, 2015)
O Desporto na Museologia vai apanhar, mais cedo ou mais tarde, com este impacto sobre o que os Cidadãos pensam e esperam daquilo a que chamamos “Corpo”… Está já aqui ao virar da esquina. Pedro Manuel-Cardoso
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