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[Museum] Dois altares romanos de Alcains

To :   "archport" <archport@ci.uc.pt>, "histport" <histport@ml.ci.uc.pt>, "museum" <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] Dois altares romanos de Alcains
From :   José d'Encarnação <jde@fl.uc.pt>
Date :   Thu, 16 Apr 2015 16:08:14 +0100

            É com todo o gosto que damos conhecimento do texto que o jornal Reconquista (semanário regionalista da Beira Baixa, que se publica em Castelo Branco) inseriu às 17.07 h. do passado dia 25 de Março na sua edição digital, que reproduzimos em anexo e a que também pode aceder-se através do enlace http://www.reconquista.pt/pagina/edicao/353/5/noticia/36606.

            Estudáramos os dois monumentos em Alcains, no dia 22 de Abril de 2010. A camada de argamassa que ainda cobria a superfície epigrafada de uma das aras a Asidia apresentava-se tão homogénea que nada nos fez suspeitar, então, que mais letras houvesse.

            Regozijamo-nos, pois, por a ara ter sido limpa, de forma a proporcionar-se uma leitura que resolve, a contento, uma interpretação cabal: o ‘fundador’ da gentilitas é Polturius; a gentilitas é Polturiciorum, «dos Polturícios»; a divindade sua protectora, Asidia Polturicea.

 

                                                                                              José d’Encarnação

                                                                                              Amílcar Guerra

 

 




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Title: Alcains: As aras dedicadas à deidade Asidia Polturicea
http://www.reconquista.pthttp://www.reconquista.pt
Diretor: Agostinho Gonçalves Dias (agostinho.dias@reconquista.pt) | Última Atualização: 15-04-2015
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Alcains: As aras dedicadas à deidade Asidia Polturicea
25/03/2015, 17:07
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Estas duas aras foram identificadas em 2008, aquando das obras de requalificação efectuadas na Capela de São Domingos, em Alcains. Estavam reaproveitadas como suporte do altar, que então foi desmontado, e posteriormente transportadas para a Igreja Paroquial, onde se conservam.
Já foram estudadas antes , pelo que nos limitaremos ao essencial da correcção aqui proposta. Trata-se de monumentos que são um fantástico par de documentos essenciais para o estudo da cultura das populações indígenas sob o domínio romano, uma vez que as fontes contemporâneas são quase omissas sobre estas gentes e a sua religião.
A primeira ara é de uma elegância e perfeição pouco comuns. Tem cerca de 110 cm de altura, e o seu texto é o seguinte:
ASIDIAE / GENTILITAS / POLTVRICIO/RVM . EX /5 VOTO POLTV/RI(i) CAENO/NIS (filii) / A(nimo) . L(ibens) . S(olvit)
«A gentilidade dos Polturícios cumpriu de boa vontade o voto de Poltúrio, filho de Caenão, a As(s)ídia»
Não só se identifica mais uma gentilidade (gentilitas) nesta região como se assiste ao seu nascimento, assumindo o nome do seu suposto fundador, aqui logo depois do seu falecimento. Polturius identifica-se pela primeira vez, mas alguma relação terá com a forma antroponímica Pultarius já conhecida em Vila Viçosa, Terena (Alandroal) e Torres Vedras . Caeno é vulgar na região. Pela antroponímia e pela onomástica é um homem sem cidadania, um peregrino, ainda que possa ter fortuna...
Quanto à divindade, As(s)ídia, invocada por Poltúrio em vida, poderá ter um carácter funcional que referirei mais adiante. Para já, convém lembrar que num possível santuário familiar e rural desta época, em Espinosa de Henares (Guadalajara, Espanha) foram recuperadas quatro aras, sendo o teónimo apenas legível numa, com muita dificuldade, e proposto como Aside (dat.) .
A segunda ara, de qualidade muito inferior e mais vulgar, de dimensões mais comuns, tem cerca de 66 cm de altura. Cumpre o voto um indígena desta mesma gentilidade, já cidadão romano, portador dos tria nomina distintivos - direito certamente adquirido depois do cumprimento de funções, militares ou civis. Por qualquer acidente, ainda inexplicável, as fotografias desta ara utilizadas pelos co-autores referidos não reproduzem os dois últimos caracteres [RI] que de facto existem na 2ª linha. Sendo a paginação do texto feita segundo um eixo de simetria, esta falsa inexistência poderia ser tomada como uma falha do gravador e agora proposta a sua reconstituição como POLTV(ri)/CEAE . Assim, os autores nas 2ª e 3ª linhas lêem o epíteto da divindade como POLTV/CEAE, chamando a atenção apenas para a coincidência de radicais Polt- no cognome indígena, designação da gentilidade e suposto epíteto da divindade na segunda ara. Ora , a leitura correcta é a seguinte:
ASIDIAE / POLTVRI/CEAE . / L(ucius) ATTIVS /5 VEGETVS / V(otum) . L(ibens) . S(olvit)
«Lúcio Átio Vegeto, cumpriu de boa vontade o voto a Asídia Polturícia»
Não há dúvida quanto à pertença deste cidadão romano à gentilidade dos Polturícios, porque presta culto a uma divindade que só a estes pertence: qualquer outra Assídia invocada na região será diferente e pertença doutra família!...
A segunda ara poderá estar temporalmente separada da primeira uma ou várias décadas, no séc. II. Quantos mais destes documentos andarão aos tombos por Alcains, quando deveriam ser preservados no Museu mais próximo?
A propósito de um epíteto relacionado, de outra divindade (Nimmedus Aseddiagus, de Ujo, Mieres, Astúrias), adjectivado e certamente relacionado semanticamente com o teónimo aqui em estudo, os autores citam a proposta de um autor espanhol que indica como étimo possível para o antropónimo Asedius a forma (reconstruída) proto-indo-europeia (PIE)*ad-sedio, significando "asentamiento cercano" (Es.), mas consideram que essa "hipótese se encontra limitada pela dificuldade em verificar a sua pertinência semântica" . Ora para as formas latinas assideo/assidere e assiduus, além de "estar sentado junto de" , os significados serão, entre outros, "estar junto de, manter-se perto de, cuidar, tratar de, ajudar, estar perto de alguém durante a sua doença, presença constante" - o que parece ser perfeitamente aceitável numa súplica feita por um ancião, provavelmente já com pouca saúde. Neste caso Assídia seria como um génio protector, a quem se invoca quando se necessita de protecção pessoal e companhia na doença. Ainda que o valor semântico deva ser de pouco valor nestes estudos linguísticos, na falta de melhor ... é o que está à mão!

Fica corrigida a leitura da segunda ara de Alcains consagrada a Assídia Polturícia .

 

 

Fig. 1 - Ara da gentilidade

 

 

Fig.2- Asidia Polturicea

 

 

ASSUNÇÃO, António; ENCARNAÇÃO, José d'; GUERRA, Amílcar; "Duas aras votivas romanas em Alcains", Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 12, número 2, Lisboa (DGPC), 2009, pp.177-189.
A gentilidade é uma unidade suprafamiliar - correspondendo não à família nuclear mas sim à família alargada, com várias gerações - a que presidia o progenitor mais antigo. Ainda há poucas décadas se afirmava que eram uma exclusividade do território Vetão estremando com as Beiras! Agora vão-se identificando também no lado de cá da raia...
Respectivamente: Hispania Epigraphica, nºs de registo 21.237; 23.798; 21.21.367.
ABASCAL PALAZÓN, Juan Manuel, "Epigrafia romana de la provincia de Guadalajara", Wad-al-Hayara, nº 10, Guadalajara (UCM) 1983, pp.49-113 (nºs26 -29). Supõe-se que as aras de Alcains poderão ter contribuído para o esclarecimento das de Espinosa de Henares, onde talvez se possa ler Asidie.
Isto mesmo afirmei a um dos co-autores (AG) depois da publicação. E mais tarde (03.01.2012), quando de novo o alertei para a comprovada deficiente leitura e lhe enviei novas fotografias - sugerindo uma correcção no mesmo local.
A atribuição do radical PIE *sed- para as formas verbais latinas sedere ou assidere ( ad,sedeo), ou assiduus (adj.), encontra-se em FORTSON IV, Benjamin W., Indo-European Language and Culture, 2004,p.55 e VAAN, Michiel de, Etymological Dictionary of Latin and the other Italic Languages, Leiden-Boston, 2008, p. 551, entre outros.
O tal "asentamiento cercano".
Em 17.03.2013, um dos co-autores entregou o texto do seu artigo a integrar nas Actas del XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valencia, Espanha, a 24 /27 de Outubro de 2012 , e nele incluiu as leituras antes publicadas destas duas aras - o que significa que não acreditou na necessidade de correcção e não tenciona corrigi-las: ENCARNAÇÃO, José d', "Gentes e Divindades na Lusitânia Pré-Romana Ocidental". Acta Palaeohispanica XI, Palaeohispanica 13 (2013),pp. 209-217 , Zaragoza, 2013. Nestas circunstâncias, não me sinto obrigado, por questões de ética, a qualquer gesto especial.

Autor: Fernando Patrício Curado
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