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[Museum] A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL HOJE: interpretar e compreender o Património.

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL HOJE: interpretar e compreender o Património.
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Tue, 2 Jun 2015 18:18:07 +0100

A Compreensão, enquanto projeto e finalidade dos programas de Educação Patrimonial (ou Serviços Educativos), mas também um pouco por toda a hermenêutica das expografias em museus, afastou o estruturalismo da historicidade. Em filosofia, diriam que opôs sistematicamente Heraclito a Parménides. Isto é, digladiou o fixo contra o efémero e o conjuntural. Os “universais” e as “estruturas” deram lugar às “narrativas”, à “historicidade” e aos “contextos e conjunturas sociológicas”. Sincronia e Diacronia pareciam estar condenadas a uma repulsa eterna. O Património ora era explicado como «produto da conjuntura e do contexto», ora era explicado como «universal da cultura e da identidade».

            Nos curriculae das universidades, quase todas, ainda hoje, essa repulsa é o status quo.

Lembro-me bem dessa resistência. Do quanto penei quando, na busca da resposta para as perguntas do meu projeto de Investigação, …

 

“Existe no cérebro uma codificação com os critérios pelos quais o ser humano decide que um objeto/acontecimento é mais relevante do que outros? Essa relevância, ou assimetria de valor entre os objetos/acontecimentos, é uma decisão guiada por uma codificação a priori? Essa codificação foi transmitida pelo ADN? O momento em que se originou e evoluiu é anterior a Homo sapiens sapiens? Perante essa codificação, qual é a margem de liberdade e livre arbítrio deixada ao ser humano? Terá tido origem na estratégia Eucariote/Eucarionte? Qual a relação desse processo de codificação com o início do processamento dos sinais de diferença no contexto da evolução da percepção em sistemas biológicos? (Pedro Manuel-Cardoso, 2010)

 

 

… teimei em chamar à resposta “Estrutura da Relevância”. E, em consequência dessa descoberta, defini Museologia como a «ciência que estuda e gere o património prolongando a estratégia eucariote/eucarionte», sendo o Património, logicamente, um caso particular dessa Relevância.

            Vem isto a propósito da revalorização do estruturalismo que hoje, ainda que um pouco envergonhadamente, se começa a persentir. Vale a pena colocar a debate dois desses recentes indícios.

            O primeiro refere-se ao artigo de Mark Prince, intitulado “Structuralism is Dead?(2015): “As analogue photographic structure is digitally simplified, structural conceits become lenses through which to project narratives coloured by the constraints of a technology which no longer pertains (…) Wardill’s structural self-consciousness would seem didactic and dated if it did not point beyond itself to a new narrative (…) Her structural cues are no more substantial than the melodramatic cypheres of Wavelength’s events. Narrative, which seemed to emerge unexpected and unbidden from Snow’s imposing structural base, now finds structural motifs functioning as its teleological cues, conferring sanction as well a contrasting aura of the generic sign it once elided, structuralism retains the marginal function of qualifying fiction as an autonomous, unpredictable realm, a world that must remain on the other side of the screen’s looking glass.” (Prince, 2015, “Structuralism is Dead?”, in ART monthly, may 2015, n.º386, UK, págs.9-10).

            O segundo tem a ver com o mesmo, mas refere-se à necessidade de reformular o conceito de objeto (ver a crítica que tenho feito à ideia de “Património Imaterial”, e o conceito hepta-dimensional de objeto e de realidade que propus em «O que é a museologia e o património?»). O artigo de Jacob Gaboury, intitulado “Hidden Surface Problems: On the Digital Image as Material Object” (2015) começa assim: “This article offers a materialist critique of the digital image through a history of early computer graphics. Critiquing existing genealogies that understand computer generated images as the outgrowth of prior visual media forms, the author suggests that graphics offer us a uniquely computational image form, one concerned less with realism and mimesis than with delimiting the world through the black boxing of vision. Focusing on one of the most significant challenges to the field of computer graphics research from 1963-1979 (what is known as the «hidden-line» or «hidden-surface» problem) the article argues that material logic of the digital image is not one of inscription but restriction, a making absent. Keywords: 3D. CGI. Computer graphics. Digital images. Digital media. History of computing. History of technology. Materiality.” (Gaboury, 2015, “Hidden Surface Problems: On the Digital Image as Material Object”, in Journal of Visual Culture, vol.14(1), SAGE publications, págs.40-60).

            A utilidade deste debate para a Educação Patrimonial radica na necessidade de, no processo de interpretação e compreensão do Património, e sejam quais forem as classes etárias e as proveniências sociais e étnicas envolvidas, se passar a considerar o tempo e o espaço onde ocorreu o Património como um acontecimento simultaneamente efémero/histórico, conjuntural/sociológico, e estrutural/antropológico. Um acontecimento impossível de interpretar e compreender sem este regime triplo.

            Os desafios da Educação Patrimonial (ou Serviços Educativos de interpretação e compreensão do Património), concretamente «o que se entende por objeto, por uso e por valor patrimonial», exigem uma reapreciação analítica, guiada pelo mesmo rigor científico e técnico que antes, mas agora tendo em consideração os avanços ocorridos na última década.

Pedro Manuel-Cardoso

 





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