O FIM DOS PORTUGUESES: QUEM SOMOS NÓS? Reflexões sobre a Identidade e o Património Uma figura bem nutrida e remunerada pela Nação profetizou há dias, publicamente, o “fim dos portugueses/as”. As reações não se fizeram esperar, e o efeito mediático pretendido pelo emissor, foi totalmente conseguido. Porque se trata de algo que tem diretamente a ver com a Identidade enquanto Património, tal como está escrito na lei do património cultural em vigor, será pertinente demorarmo-nos um pouco por esta profecia. Transformemos a questão num assunto museológico e patrimonial. Tentemos responder às seguintes perguntas: EXISTIRÁ O OUTRO? QUEM SOMOS AFINAL, NÓS?
Tentemos ir à origem desta decadência. A tese Intersubjetiva (“os participantes da interacção não podem executar actos de fala eficientemente coordenados sem pressupor, para todos os participantes, um mundo de vida partilhado intersubjectivamente que convirja para uma situação de fala e que esteja enraizado no corpo enquanto centro” (Habermas) há muito que foi criticada por Lyotard (“A questão que coloco é a de saber em que tipo de unidade pensa Habermas. O fim visado pelo projecto moderno será a constituição de uma unidade socio-cultural no seio da qual todos os elementos da vida quotidiana e do pensamento venham ocupar o «seu» lugar, como num todo orgânico? Ou será que a passagem que é preciso abrir entre os jogos de linguagem heterogéneos − os do conhecimento, da ética, da política − é de uma outra ordem? E, nesse caso, como seria ele capaz de realizar a sua síntese efectiva?” (Lyotard). A “constrição da Intersubjetividade” foi também criticada por René Thom em 1972. O matemático francês pedia para não esquecerem o Manual de Epiceto, e a distinção entre “ta eph hemin” (aquilo que depende de nós) e “ta ouk eph hemin” (aquilo que não depende de nós). Abordei os três impasses que condicionam essa possibilidade de sairmos quer do nosso etnocentrismo quer da nossa vaidade antropocêntrica; que são a causa de acreditarmos que basta a nossa Intersubjetividade, o nosso Cogito, e o nosso Sistema Social para descobrimos o Mundo e compreendermos a Natureza (Pedro Manuel-Cardoso: (2012) Antropologia e Património: Olhar a Realidade, no Tempo, perante os Agentes. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa: IGAC; (2013) O Impasse da Interdisciplinaridade. Lisboa: IGAC; (2014/2015) “O que é a Museologia e o Património?”, págs 10/11). Ora a “Intersubjetividade” não é senão uma consequência do impasse dual entre Fenomenologia (Husserl, Dilthey, Heidegger, Gadamer, Habermas, Rawls…) e Empirismo/Positivismo (Descartes, Kant, Círculo de Viena, Popper…). Isto é, não consegue ultrapassar as tradicionais dicotomias: «essência/substância», «individual/social», «potência/ação», «estrutura/agência», «mente/corpo», «razão/emoção», «sentimento/forma», «masculino/feminino», «colonizado/colonizador», «exterior/interior», «It/Bit», «quantitativo/qualitativo», «conteúdo/contentor», e assim por diante. Todavia a “Intersubjetividade” transformou-se no alfa e no ómega do Interpretativismo e do Relativismo Cultural, que começam hoje a ser criticados. Durante as duas últimas décadas assistimos ao predomínio dessa perspetiva pós-moderna nas faculdades dos países europeus, anglo-saxónicos, e estadudinenses. Ela é visível também, por exemplo, nas expografias que abordam temas como o colonialismo, género, transnacionalismo, miscigenação, hibridismo, etnicidade, multiculturalismo, e outros (ver páginas 20-21 do texto “O que é a museologia e o património?”, Pedro Manuel-Cardoso, 2014/2015). Em Portugal, a subjugação a essa ideologia intersubjetiva foi bem visível no programa “Próximo Futuro” da Fundação Calouste Gulbenkian. Hoje percebe-se que esse “futuro” afinal não é senão o mesmo “passado” anterior, sobretudo no modo de conceber aqueles temas. Não andou para a frente, ficou sempre no mesmo sítio. Permitam por isso, que sobre o tal “FIM DOS PORTUGUESES”, e do ponto de vista patrimonial e museológico, diga como os matemáticos o disseram, sem que os tivessem ouvido com a suficiente atenção: “Uma SINGULARIDADE é sempre algo que concentra toda uma estrutura global numa estrutura local (… ) a inteligibilidade sempre ocorreu como uma exigência de concentração do não-local numa estrutura local” (R. Thom). E permitam que recorde as palavras esquecidas e malquistas de Radcliffe-Brown quando há muito duvidada da palavra/categoria «Social/Sociedade», perguntando insistentemente «o que era objetivamente isso de Sociedade, onde começava e acabava no concreto dos povos que a etnografia descrevia». Talvez um dia acordemos, de facto, noutro planeta, e já nem sequer sejamos Humanos. Mas até lá… como justificaríamos haver a responsabilidade museológica pelo Património? Pedro Manuel-Cardoso |
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