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[Museum] O FIM DOS PORTUGUESES: QUEM SOMOS NÓS?

To :   <museum@ci.uc.pt>
Subject :   [Museum] O FIM DOS PORTUGUESES: QUEM SOMOS NÓS?
From :   PedroManuelCardoso <mty@mail.tmn.pt>
Date :   Sun, 7 Jun 2015 04:16:05 +0100

O FIM DOS PORTUGUESES: QUEM SOMOS NÓS? Reflexões sobre a Identidade e o Património

            Uma figura bem nutrida e remunerada pela Nação profetizou há dias, publicamente, o “fim dos portugueses/as”. As reações não se fizeram esperar, e o efeito mediático pretendido pelo emissor, foi totalmente conseguido.

            Porque se trata de algo que tem diretamente a ver com a Identidade enquanto Património, tal como está escrito na lei do património cultural em vigor, será pertinente demorarmo-nos um pouco por esta profecia.

            Transformemos a questão num assunto museológico e patrimonial. Tentemos responder às seguintes perguntas: EXISTIRÁ O OUTRO? QUEM SOMOS AFINAL, NÓS?

 

 

“Só através do outro de si mesmo se pode ter o si mesmo…. Com esta estrutura do duplo que liga o portador do papel à figura do papel, acreditamos ter encontrado uma constante. A estrutura do duplo (Döppelganger) torna possível toda a auto-compreensão.” (Helmuth Plessner, 1928).

“Conhecer é ser capaz de dizer pelas suas próprias palavras” (P. Valéry, 1937).

“Je suis un Outre” (Brecht).

“Compreender um texto é encadear um novo discurso no discurso do texto” (P. Ricoeur)

“O Outro é um heterónimo do Mesmo” (Pedro Manuel-Cardoso, 2006).

“Os comportamentos agonísticos, tornados desígnios agressivos vão subtrair-se aos mecanismos reguladores e constituir uma nova dimensão da violência, não conhecida na natureza, e para a qual não há antídoto específico”...”Dorav­ante, a única inibição à violência consistirá em o agressor ver-se no agredido, que de congénere e rival passa a semelhante. A identificação cognitivo-emocional com os congéneres é, em Homo, o único antídoto real para a violência” (A. Bracinha Vieira, 1991).

“(…) ethics is figured as a process of becoming-with constitutive others” (Sarah Kember, 2014).

“Compreender o Património e o que somos? Porém, compreender não implica abdicar da convenção passado-presente-fut­uro? Não implica abdicar das amarras da evolução dos sinais de Diferença e do seu impacto na nossa percepção e no nosso cérebro, que nos obriga a uma concepção fragmentada da Realidade, ou seja, a vê-la composta de formas, coisas, coleções, objetos, partículas ou substâncias? Compreender não implica abdicar da obrigação a priori de separar o Tudo do Nada, o Diferente do Mesmo, o Exterior do Interior? Compreender não implica ir além da prisão da Luz ocorrida a seguir à grande explosão, possibilitando separar Juízo de Evidência? Compreender assim, sem essas barreiras, seria, lógica e intuitivamente, transformarmo-nos no Incompreensível, no sentido de que desabava o Mundo das formas, das partes e dos objetos, e a própria mecânica das partículas e das substâncias. O caminho implicava transmutarmo-nos a nós mesmos (inclusive a nossa carne, o nosso pensamento, e as nossas emoções) na matéria e energia do que queremos compreender. Só assim lá chegaríamos. Então, compreender, estudar, e até gerir o Património, será impossível sem a experiência de nos conseguirmos transformar, a nós mesmos, nem que por breves momentos, em Relevância. Mas aí já não seríamos Humanos, nem sequer nós.” (P. Manuel-Cardoso, “Investigar o Impronunciável”, 2015)

 


            O erro talvez seja considerar as palavras como uma «coisa objetiva», como se fossem realidades empíricas e não meras categorias abstratas.

            Tentemos ir à origem desta decadência.

            A tese Intersubjetiva (“os participantes da interacção não podem executar actos de fala eficientemente coordenados sem pressupor, para todos os participantes, um mundo de vida partilhado intersubjectivamente que convirja para uma situação de fala e que esteja enraizado no corpo enquanto centro” (Habermas) há muito que foi criticada por Lyotard (“A questão que coloco é a de saber em que tipo de unidade pensa Habermas. O fim visado pelo projecto moderno será a constituição de uma unidade socio-cultural no seio da qual todos os elementos da vida quotidiana e do pensamento venham ocupar o «seu» lugar, como num todo orgânico? Ou será que a passagem que é preciso abrir entre os jogos de linguagem heterogéneos − os do conhecimento, da ética, da política − é de uma outra ordem? E, nesse caso, como seria ele capaz de realizar a sua síntese efectiva?” (Lyotard).

            A “constrição da Intersubjetividade” foi também criticada por René Thom em 1972. O matemático francês pedia para não esquecerem o Manual de Epiceto, e a distinção entre “ta eph hemin” (aquilo que depende de nós) e “ta ouk eph hemin” (aquilo que não depende de nós). Abordei os três impasses que condicionam essa possibilidade de sairmos quer do nosso etnocentrismo quer da nossa vaidade antropocêntrica; que são a causa de acreditarmos que basta a nossa Intersubjetividade, o nosso Cogito, e o nosso Sistema Social para descobrimos o Mundo e compreendermos a Natureza (Pedro Manuel-Cardoso: (2012) Antropologia e Património: Olhar a Realidade, no Tempo, perante os Agentes. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa: IGAC; (2013) O Impasse da Interdisciplinaridade. Lisboa: IGAC; (2014/2015) “O que é a Museologia e o Património?”, págs 10/11).

            Ora a “Intersubjetividade” não é senão uma consequência do impasse dual entre Fenomenologia (Husserl, Dilthey, Heidegger, Gadamer, Habermas, Rawls…) e Empirismo/Positivismo (Descartes, Kant, Círculo de Viena, Popper…). Isto é, não consegue ultrapassar as tradicionais dicotomias: «essência/substância», «individual/social», «potência/ação», «estrutura/agência», «mente/corpo», «razão/emoção», «sentimento/forma», «masculino/feminino», «colonizado/colonizador», «exterior/interior», «It/Bit», «quantitativo/qualitativo», «conteúdo/contentor», e assim por diante. Todavia a “Intersubjetividade” transformou-se no alfa e no ómega do Interpretativismo e do Relativismo Cultural, que começam hoje a ser criticados.

Durante as duas últimas décadas assistimos ao predomínio dessa perspetiva pós-moderna nas faculdades dos países europeus, anglo-saxónicos, e estadudinenses. Ela é visível também, por exemplo, nas expografias que abordam temas como o colonialismo, género, transnacionalismo, miscigenação, hibridismo, etnicidade, multiculturalismo, e outros (ver páginas 20-21 do texto “O que é a museologia e o património?”, Pedro Manuel-Cardoso, 2014/2015). Em Portugal, a subjugação a essa ideologia intersubjetiva foi bem visível no programa “Próximo Futuro” da Fundação Calouste Gulbenkian. Hoje percebe-se que esse “futuro” afinal não é senão o mesmo “passado” anterior, sobretudo no modo de conceber aqueles temas. Não andou para a frente, ficou sempre no mesmo sítio.

Permitam por isso, que sobre o tal “FIM DOS PORTUGUESES”, e do ponto de vista patrimonial e museológico, diga como os matemáticos o disseram, sem que os tivessem ouvido com a suficiente atenção: “Uma SINGULARIDADE é sempre algo que concentra toda uma estrutura global numa estrutura local (… ) a inteligibilidade sempre ocorreu como uma exigência de concentração do não-local numa estrutura local” (R. Thom). E permitam que recorde as palavras esquecidas e malquistas de Radcliffe-Brown quando há muito duvidada da palavra/categoria «Social/Sociedade», perguntando insistentemente «o que era objetivamente isso de Sociedade, onde começava e acabava no concreto dos povos que a etnografia descrevia».

Talvez um dia acordemos, de facto, noutro planeta, e já nem sequer sejamos Humanos.

Mas até lá… como justificaríamos haver a responsabilidade museológica pelo Património?

Pedro Manuel-Cardoso

 

 





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